Wednesday, October 15, 2008

Do teatro para adolescentes


No dia 8 de Outubro o Serviço Educativo do Teatro Municipal levou ao Teatro Lethes mais uma versão do Auto da Barca de Gil Vicente, pela companhia Mau Artista. Uma visão diferente da clássica abordagem vicentina sobre os vícios da sociedade portuguesa da época. Também na linha do teatro para a adolescência a “Comuna” apresentou o espectáculo A Afilhada de Santo António, de António Torrado, com encenação de João Mota. Duas apostas ganhas na difícil arte que é o teatro para adolescentes.
A companhia Mau Artista pegou no conceito de mala de viagem e desenvolveu todo o conceito que envolve o imaginário vicentino da Barca do Inferno. A mala de viagem é a própria barca que propicia a viagem. Da barca surgem anjos e demónios e nela mergulham toda a espécie de tipos e caricaturas da má consciência da Lisboa do século XVI. Judeus, enforcados, alcoviteiras, frades concupiscentes, juízes e procuradores pouco recomendáveis, todos querem entrar na Barca da Glória e a todos é negada a entrada. Resta-lhes a Barca que vai para as Terras infernais, que vai carregada. Na Barca da Glória só o parvo e os cavaleiros que morreram lutando por impor uma fé a outros povos. Um texto sublime do mestre Gil Vicente, milhares de vezes posto em cena, milhares de vezes divertindo a plateia de adolescentes que a ela assistem. O encenador da companhia Mau Artista, Paulo Calatré, decidiu condensar todas estas personagens em dois actores: Nuno Preto e Pedro Damião. As personagens Gil e Vicente propõem uma viagem de barca ao Inferno. Assente em técnicas de clown, com um intenso recurso à fisicalidade, e à acrobacia, Nuno Preto e Pedro Damião divertiram o público adolescente que lotou as duas sessões do Teatro Lethes. Eles eram à vez anjo e demónio, seduzindo, escarnecendo, ludibriando, castigando. Por vezes, com recurso à manipulação de bonecos, as personagens aumentam em número e interagem com os actores. O Gil e o Vicente sobem um escadote, descem o escadote, mergulham dentro da arca, procuram um pouco de Chaplin na representação. E o público adolescente, prestes a estudar na disciplina de Língua Portuguesa a obra vicentina, exultava com as peripécias dos dois actores. No final os dois actores sentaram-se na boca de cena e estimularam uma conversa com o público, ávido de pôr questões aos actores. Como ultrapassavam a aparente dificuldade do texto, como eram capazes de mudar num instante de uma personagem para outra, como eram capazes de decorar tanto texto. E os actores iam respondendo, sempre alertando para o imenso estudo e trabalho de pesquisa de que se serviam. Depois improvisavam, escreviam, voltavam a improvisar, reescreviam, e era um processo contínuo de descoberta. No final ficou-lhes a vontade de verem mais.
A Comuna apresentou uma proposta diferente. João Mota lançou o repto a António Torrado, que escreveu o texto A afilhada de Santo António. O Santo casamenteiro venerado pelos lisboetas aparece, através da encenação de João Mota, com toda a sua dimensão humana. Prazenteiro, amigo dos seus afilhados, faz-lhes ver que a felicidade é um caminho que se vai conquistando. O espectáculo é um musical com música original do maestro António de Sousa. O elenco é composto por cinco actores, Alexandre Lopes, Jorge Andrade, Luciana Ribeiro, Marco Paiva e Tânia Alves, que interpretam as suas personagens cantando do princípio ao fim. Cantam e dão ao texto uma graça e uma vivacidade muito especiais. A afilhada de Santo António sabe, pelo seu santo de devoção, que lhe estão reservados grandes feitos. Tem de se disfarçar de rapaz e dirigir-se ao palácio. Se se vir em apuros, só tem de tocar a campainha, que o seu santo acode-a com prazer. Alguns episódios de enganos e desenganos sucedem-se e é o próprio santo que lhe grita: toca a campainha! Um espectáculo que se vê com prazer, remetendo o Santo António para o plano emocional e sensível, sendo nós tentados a acolhê-lo como uma entidade intermediária que nos ajuda mas que, de vez em quando, precisa que alguém o ajude a pegar no menino Jesus ao colo. Jorge Andrade faz um Santo António folgazão sem deixar de ser gracioso. O olhar malandro que incita ao desequilíbrio de uma acção que se quer ver alterada é perfeito e funciona. Às vezes, dramaturgicamente, é importante provocar alguns desenganos para que a verdade seja reposta e as personagens emendem a sua conduta. A linha platónica, que incita à imitação de acções nobres, marcou este espectáculo e provocou no espectador a vontade de continuar a ver outros espectáculos. É assim que se trabalha para a educação de públicos.

1 comment:

Pedro Damião said...

obrigado pela crítica. :)