Tuesday, October 29, 2013

A origem do mal

E se, por alguma espécie de sortilégio todos nós fôssemos obrigados a revelar a nossa mais recôndita natureza? O resultado não iria certamente dar razão a Rousseau. Antes se traduziria num inominável pesadelo. Foi esta a imagem que Olga Roriz soube transmitir através do seu mais recente espetáculo denominado Pets. O espaço do quotidiano, com objetos que permanecem na nossa memória coletiva, torna-se caótico pela necessidade de domesticação de um ser humano por outro. No início do espetáculo uma mulher chama por um homem como se de um cão se tratasse. Assobia-lhe, faz-lhe gestos carinhos com a mão, tenta que ele se encoste à sua perna, como se estivesse dominado. Essa imagem, absurda, transmuta-se nos absurdos do quotidiano traduzidos na violência com que um ser se impõe a outro, com que um ser impõe uma certa dose de violência a si próprio, ao seu espaço, ao seu tempo. Há um momento de euforia em que os sapatos de salto alto, a imagem por excelência da feminilidade que exercem uma violência extrema no corpo da mulher são libertados da sua função castradora. Os objetos são destituídos das suas funções quotidianas, as caixas abrem-se espelhando o seu conteúdo nocivo, remontando a Pandora. Só que estas caixas, esvaziadas de todo o mal, deixaram escorrer a esperança por entre os interstícios da maldade. As caixas abriram-se e deixaram de esconder os mundos que devemos ocultar. Tudo se evidencia num jogo de perversidade, crueldade e demência posto a nu perante o olhar cúmplice dos seus semelhantes. Em qualquer tipo de relação, das mais íntimas às mais distantes, há uma noção de domínio que impera entre os seres. Entre o Homem e o seu espaço, percorrendo todos os recantos por explorar. Entre o Homem e o Tempo, tentando vencer a inexorável e inadiável ditadura dos anos mantendo-se em forma para permanecer mais jovem. Entre o Homem e os objetos, moldando-os à medida das suas necessidades. Entre o homem e o seu semelhante, tentando vencer nos debates, nos gostos, no corpo, nos afetos. E se existem cenas brutais como um homem que domina uma mulher, sufocando-a numa tina com água, outras existem, mais subtis, que não se tornam menos cruas. A solidão de um homem que sucumbe ao comércio do sexo ou a necessidade de se gritar bem alto a nossa tristeza sem que ninguém nos ouça realmente pode colocar o ser humano abaixo de um limiar de compaixão partilhado por outros mamíferos. Pets, interpretado por Cristina Câmara, Maria Cerveira, Marta Lobato Faria, Bruno Alexandre e Pedro Santiago Cal exterioriza os alter-egos libertando-nos do socialmente correto, ao som de um suporte musical de excelência. Como afirma a produção deste espetáculo: “Pets é um espetáculo onde nos propomos observar o inatingível. O privado e o público. O quotidiano, a rotina e os hábitos. O silêncio e a solidão. Os lugares apertados. O espaço sem espaço. A acumulação de detritos. A reciclagem dos afetos, dos objetos dos sentidos. A azáfama e a inércia reciclada. As pequenas palavras. A procura dos nomes. As presas e as surpresas. Os jogos de poderes. A sedução. O desejo. O domador e o domesticado. As funções e disfunções. A dependência. Reações e confusões. A vivência possível. A ironia de uma partilha forçada. A falsa privacidade. O engano. O acaso. Brincar como se fosse ao acaso. Homens e mulheres afeiçoados por si próprios. Auto domesticados. Selvagens. Um espaço interior com paredes, portas e janelas imaginárias. A luz é apenas uma memória. O som da cidade dissipou-se no tempo. A clausura torna-se real.” E foi sobre esta clausura real que se consubstancia no domínio de um ser sobre si próprio que incidiu o espetáculo de Olga Roriz. E foi com o peso da última personagem, sobre a qual o home ia colocando toda a espécie de objetos, conduzindo-a com uma trela, que os espetadores saíram do teatro. Um soco no estômago das más consciências que suportam todo o tecido social. Um retrato brilhante das relações humanas na contemporaneidade.

Um Hamlet de mente aberta

Contrariando o seu nome a Associação Ar Quente ofereceu uma lufada de ar fresco a quem assistiu à sua última produção. Open Hamlet foi uma agradável surpresa no panorama teatral algarvio. Pela irreverência, pela ousadia, pela excelência do trabalho de encenação de João Garcia Miguel. Segundo a produção, “Hamlet tem tanto de aterrador como de desconcertante: a velocidade do seu pensamento, sensível em extremo e demolidor na forma como baralha e aniquila aqueles que o pretendem enganar ou apenas aproximar-se dele; os jogos existenciais, que o levam a fingir-se de louco, de forma a testar os seus limites e a provocar o engano dos outros que o vigiam; os constantes solilóquios acerca das suas experiências e contradições pessoais; a crueldade para com Ofélia, para consigo mesmo e para com todos os que o procuram apaziguar; a sua teimosia e honestidade roçam a ingenuidade e a bestialidade e terminam em tragédia pessoal e colectiva.” Para fazer juz a esta linha de pensamento a encenação procurou, dentro de algum caos aparente, uma linha dramatúrgica fracturante, por vezes quase Brechteana, que obriga o público a interrogar-se sobre a sua função na vida. O público entra na sala e é disposto em arena, sendo a frente de palco cada uma das faces do quadrado. Aquilo que ressalta à vista é a plasticidade do cenário: uns blocos cilíndricos em papel, quais tarolos de madeira, dividindo o espaço numa diagonal. Uma diagonal que desde logo separa o cunho psicológico das personagens. Hamlet e a sua mãe, Hamlet e o seu tio-padrasto Cláudio, Hamlet e Ofélia, Hamlet e o resto do mundo. Os figurinos, exóticos e insólitos, apontam para a ambiguidade das personagens. Hamlet é uma personagem do universo Shakespeareano, mas é também um ser com idiossincrasias comuns ao homem do séc. XXI. Os folhos que no séc. XVI enfeitavam o pescoço, o punho da camisa, descem nas personagens masculinas, interpretadas por Gil Silva e Ricardo Mendonça, formando uma saia que aponta para um esbater do género na assunção desses sentimentos. Por outro lado, a personagem feminina, interpretada por Teresa da Silva, é quase desprovida de ornamentos no figurino, uma transparência que se adequa à sua personalidade, à excepção da sua cabeça, enfeitada com um excêntrico penteado, onde se colocaram as flores características de Ofélia. Um pormenor no figurino de Ricardo Mendonça, para além do casaco aos losangos brancos e pretos, lembrando os salões do séc XVI e toda a simetria palaciana a preto e branco, é o contraste com a máscara assumida pelo actor de Groucho Marx. Hamlet, com o seu sentir trágico perante a existência, contrasta com o cómico do séc. XX que, curiosamente, assumia num dos seus textos cómicos mais assinaláveis, nunca aceitar ser membro de um clube que o aceitasse como seu membro. Esta aparente contradição pode ser uma alegoria da vida de Hamlet, pois o jovem príncipe da Dinamarca viveu toda a sua vida numa corte que, após a morte do rei seu pai, teve dificuldade em aceitá-lo como seu legítimo herdeiro. Muito interessante a irónica identificação encontrada entra a figura de Shakespeare e Fernando Pessoa. No espectáculo apresentou-se uma semelhança física mas a identidade procurada vai muito para além dessa parecença forçada. A identidade repousa no encontro de dois dos maiores vultos da literatura mundial que recriaram como ninguém este ser que se desliga de si mesmo e busca uma outra identidade que não a sua. Ofélia, protagonizada por Teresa da Silva, interpretou de maneira assinalável a dor de um amor não correspondido e a procura de uma identidade entre a actriz e a personagem. Senhora de uma voz notável ao nível do bel canto, Teresa da Silva presenteou o público com uma área operática. Mostrou uma personalidade afectada pela dor da perda ao colocar obsessivamente as ameias das muralhas à mesma distância entre si. Tal como colhia as flores silvestres, para fazer o colar, Ofélia construiu a muralha que a separou do mundo onde habitava o seu ideal romântico. Não seguiu para o convento, como Hamlet lhe ordenou, mas refugiou-se nos muros de nada da sua própria solidão e do seu próprio desgosto. Uma chamada de atenção para os muros que erguemos entre nós e os outros. Entre nós e as palavras. Daí o convite das personagens para o público os acompanhar numa coreografia, daí o convite para cada elemento do público pegar num cilindro que simbolizava a ameia dos castelos que erguemos à nossa volta e irromper pela cena adentro, lendo em uníssono o belíssimo poema de Mário Cesariny, You are welcome to Elsinore. O espectáculo termina com um momento belíssimo, com o público dentro do espaço de representação, partilhando com os actores as palavras do poetas: “Entre nós e as palavras, os emparedados /entre nós e as palavras, o nosso dever falar.” De assinalar o excelente jogo de luz, de som, e o trabalho de actor de Gil Silva, desocultando um inesquecível Hamlet.

Pássaros e luzes

Maria Ramos foi a coreógrafa escolhida para abrir a semana da dança no Teatro das Figuras. Esta criadora apresentou duas peças no dia 16 de Setembro: 7PM/Rumour e Nerves Like Nylon. A primeira coreografia, interpretada pela própria coreógrafa, tem como ponto de partida o poema de Margaret Atwood “Half Hanged Mary”, sobre uma mulher, Mary Webster, acusada de bruxaria por volta de 1680 que, mau grado ter sido enforcada, sobreviveu a essa violência, permanecendo viva por mais catorze anos. Esta reposição de Maria Ramos, que já havíamos tido o prazer de apreciar no CAPa em 2009, mantém a mesma força criativa. Segundo Maria Ramos, “integrando a linguagem física e a linguagem poética, procuro uma forma de esculpir o espaço cénico através do corpo de Mary”. E de facto, toda a composição é uma homenagem ao desenho do corpo no espaço. Maria Ramos assume um equilíbrio impressionante que nos remete para a macabra história inspiradora desta coreografia. O equilíbrio, a força que manteve Mary viva, esteve presente nesta relação simbiótica do corpo de Maria Ramos com a música de Nick Cave and the Bad Seeds e o espaço. A cenografia circunscrevia-se a um painel de papel pardo povoado de pássaros dispostos de uma forma aparentemente aleatória. No final, quando Mary assume o seu resgate da árvore que a prendia, liberta também os pássaros, incitando-os a voar numa direção diversa da sua prisão. E é um grande momento aquele em que Maria Ramos liberta os pássaros da sua prisão de papel, ao som da música explosiva de Nick Cave. Nesta coreografia Maria Ramos mostrou uma sensibilidade especial, que partilhou com o público, envolvendo-o num momento de êxtase explosivo. A segunda coreografia, Nerves Like Nylon, interpretada por Sofia Dias, Benedetta Maxia e Andresa Soares, assenta num conceito muito interessante, que reflete sobre certos paradoxos existentes na escultura. O escultor Antony Gormley descreve o seu trabalho como uma tentativa de materializar o espaço para além da aparência em que vivemos, tentando usar o corpo não como um objecto, mas como um lugar - um vestígio de um acontecimento real de uma pessoa num determinado tempo e local. A escultura como numa memória do que aconteceu, tal como uma fotografia. O espaço cénico, bem delimitado, com um desenho de luz de Vinny Jones apuradíssimo, impôs um olhar requintado à cena. Embora não seja original o conceito de encerrar os bailarinos dentro de quadrados de luz, a disposição triangular das dançarinas e o seu jogo inicial de brincar com a luz abriu a curiosidade ao espetador. No entanto, a execução das três bailarinas ficou aquém do conceito que suportou a coreografia. A proposta tinha a ver com uma movimentação meticulosa com base no tronco, estando as pernas em aparente imobilidade. Que foi apresentado esteve longe do domínio profissional que era esperado. Apresar das bailarinas terem como suporte um metrómono, os movimentos não foram sincronizados e houve bastantes falhas, bem como denúncias no olhar antes de iniciar uma nova série de sequências. Estas falhas destruíram a pureza do conceito original o que, tendo sido desenvolvido por bailarinas profissionais as torna indesculpáveis. Outra questão, não menos importante, teve a ver com o suporte literário dito pelas bailarinas. Independentemente das questões académicas que se interessam em saber se os bailarinos podem ou não tomar o uso da palavra, a grande questão é, se estão na posse da palavra, então ela tem de ser bem dita. Audível e entendível. Se há duas intérpretes portuguesas e uma italiana, que ainda por cima é especialista em tradução para a língua portuguesa, não se entende por que razão um texto defendido por criadores portugueses, em Portugal é dito em inglês, com uma pronúncia discutível. E aqui se levanta outra questão: se o texto é importante e assumido como um dos suportes da criação, então deverá ser entendido por todos os espectadores, o que não foi o caso, uma vez que na assistência se ouviam vozes perguntando: “o que é que elas estão a dizer?”. Por outro lado, se o texto não é importante, assumindo-se como uma meta linguagem, então porquê não assumir uma linguagem inventada cujos sons passem a fazer parte da coreografia? Se de facto o texto é para ser assumido na língua original, então que seja bem dito, bem articulado, e se providencie a uma tradução simultânea para quem não domina a língua. Esta coreografia, assente num conceito interessante e algo originou um produto pretensioso e sujo, o que se torna imperdoável quando se trabalha num nível de exigência profissional.

Sunday, July 1, 2012

O Aqui

Uma tela horizontal marca o palco do Teatro das Figuras. Um pano que corre de um lado ao outro do palco, ocultando, desocultando. Uma projecção de imagens subaquáticas conduz-nos a um universo distante, quase paralelo, dentro do qual os sentidos captam o real de forma diferente. Ouve-se o som de um coração a bater e a voz da Natália Luiza a falar-nos sobre o Tempo. A noção de tempo que acelera e desacelera de acordo com o olhar de cada um perante o mundo. O seu mundo. O pano corre e desoculta-nos imagens de pessoas que estão fixas numa posição. O pano volta a fechar, volta a abrir e as posições mudam, como se fossem instantâneos captados num instante em que se segura o Tempo. Num momento todos podemos ser iguais. No instante seguinte há formas diferentes de gerir o Tempo. E foi a partir da gestão dessa diferença que surgiu o espectáculo O Aqui, coreografado por Ana Rita Barata, que teve o apoio de uma excelente equipa de criadores que contém Natália Luíza na dramaturgia, Pedro Sena Nunes na direcção artística e imagem e João Gil na criação da música original. O projecto da Companhia Integrada Multidisciplinar pretendeu criar um objecto artístico integrador com pessoas que sofrem diariamente do estigma da diferença e não fazer uma espécie de terapia através da dança. O resultado foi um espectáculo surpreendente e comovedor no qual os rimos dos diferentes intervenientes se adaptavam e criavam partituras coreográficas muito interessantes, com assinalável qualidade ao nível do movimento. A música, criada por João Gil, dava conta das mudanças de ritmo entre as situações e as personagens entre si, de forma harmoniosa e singular. O desenho de luz de Cristina Piedade soube criar uma atmosfera intimista que convida à partilha e à alegria de viver. Ao dançar a coreografia de Ana Rita Barata os intervenientes perdem o medo. O medo de não ter tempo, o medo de não conseguir enfrentar uma realidade que se tornou dolorosa. No espectáculo a dor deu lugar ao riso e ao movimento descontraído dos corpos que executaram composições a solo, a dois, em grupo, absolutamente notáveis. As cadeiras de rodas deslizavam pelo palco ou com pessoas a ocuparem um lugar em diversas posições. Todos os corpos se moviam, quer fosse por si, quer fosse por meio de um impulso exterior que lhes provocava uma capacidade motora que por vezes não possuíam de forma autónoma. No final o espectáculo foi comovente e belo, promovendo uma miríade de sentimentos. Houve uma unidade na imensa diversidade de pessoas, objectos, tempos, ritmos, afectos, diálogos. Composta por 13 pessoas, quatro bailarinos profissionais, dois técnicos da área da deficiência e sete pessoas portadoras de paralisia cerebral, a companhia tem recebido apoios do Centro de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian (CPRCCG), da Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa (APCL) e do Instituto de Inserção Social. Os bailarinos profissionais são António Cabrita, Carolina Ramos, Catarina Gonçalves e Pedro Ramos, os técnicos são António Paiva e Carolina Santos e os intérpretes da APCL e CRPCCG são Adelaide Oliveira, Jorge Granadas, José Marques, Maria João Pereira, Paulo Benavente, Sílvia Pedroso, Yete Borges e Zaida Pugliese. Para a criação deste espectáculo, houve uma co-produção com o Teatro Municipal de São Luiz, a Vo´arte e com a co-apresentação do Teatro Camões. O desafio maior foi conseguido. Neste espectáculo os intérpretes foram sentidos pelo público como artistas que se expressaram através de um suporte artístico, de um corpo, apresentando-o num espectáculo, apagando a imagem do portador de deficiência. Este equilíbrio é fruto de uma capacidade artística e de uma sensibilidade notável. Reflexivo e divertido, comovente e belo. Um prazer que inunda os sentidos e obriga a pensar.

Um Mozart de chocolate

E se num espetáculo de ópera os cantores interpretassem as suas árias, representassem o seu papel e ainda mimassem o seu público oferecendo-lhe comida? O público pôde encontrar esse tipo de interação na companhia Laika, que se destaca na cena artística com a criação de um Teatro dos Sentidos. Nos dias 8, 9 e 10 de Junho os claustros da escola hoteleira em Faro lotaram os lugares previstos para receberem o espetáculo Ópera Buffa que aliou uma ópera criada a partir da obra Dom Giovanni, de Mozart tocada ao vivo, com teatro e culinária. O público foi convidado a sentar-se em mesas corridas de madeira que se constituíam como plataformas desniveladas, possibilitando a passagem dos atores/cantores por cima delas ao longo do espetáculo. Com a participação da Orquestra do Algarve, os cantores apresentaram-se assumindo o chefe de cozinha a identidade de D. Giovanni, o famoso sedutor. D. Giovanni seduz a bela e inocente Zerlina, que sucumbe aos seus encantos, mau grado os sentimentos de Masetto, o seu eterno apaixonado. Os atores/cantores começam por servir aos convidados uma bebida à base de gengibre, limão e menta. A distribuição dos pratos, dos copos, dos jarros está cuidadosamente encenada de forma divertida mas rigorosa. Nem um dos convidados fica sem talher, nem uma das mesas fica sem todos os apetrechos. O público colabora e vai degustando alegremente o que lhe é dado ao longo do espetáculo. Depois da bebida rosada e apetitosa os cozinheiros preparam o estômago dos espectadores com um caldo de castanha polvilhado com amêndoa ralada. Por esta altura uma das primeiras raparigas seduzidas por Giovanni, Elvira, surge enfrentando com fúria o abandono do incorrigível sedutor. Elvira confronta Giovanni e nessa discussão as messas servem de estrados aos seis cantores que se posicionam em várias alturas, dando uma outra dimensão a uma das áreas da conhecida ópera de Mozart. O público tem de afastar os pratos, os copos, os jarros com a bebida, sob pena da fúria de Elvira deitar abaixo um copo mais incauto. Ao longo da ópera o público ia sendo servido pelos cantores, que surgiam dos mais inimagináveis lugares. Um risotto de legumes foi o prato principal, ao qual se seguiram profiteroles regados com chocolate. Para o molho de chocolate as cantoras provocaram o apetite dos espectadores com um ritual no qual se derretia o busto do infame sedutor, feito de chocolate, para um depósito. O chocolate líquido tornou-se o elemento comum desta refeição comungada pelo público. A cabeça de Dom Giovanni tornou-se num deleite para os sentidos de todos, percebendo-se finalmente a razão pela qual ela afirmava não poder ser fiel a uma única mulher sob pena de estar a trair todas as outras que o desejavam. O espetáculo da companhia Laika, dirigido por Peter De Biee e Jo Roets cumpriu as expectativas, pois completou os prazeres dos olhos e dos ouvidos com um presente ao palato, culminando no chocolate, símbolo do desejo que se degusta e lambuza com prazer. O público aplaudiu entusiasticamente os músicos, os atores, os cantores e os cozinheiros pois, cada um na sua especificidade contribuiu para que o espetáculo enchesse de gozo artístico os sentidos. De facto, como prometido este espetáculo foi uma sumptuosa mistura de música, canto, teatro e chocolate. Uma palavra também de apreço e louvor aos alunos formandos da Escola Hoteleira do Algarve que, tendo confecionado toda a culinária do espetáculo, contribuíram para este caleidoscópio de prazeres. Este foi mais um dos espetáculos da rede Movimenta-te que pretende estabelecer uma rede entre os municípios de Faro, Olhão, Loulé, S. Brás e Tavira, como lugar crucial de encontros e fonte de criação artística.

Uma voz universal

Carolina Cantinho apresentou no Teatro das Figuras a sua criação Outra Voz. Uma criação feitas de pedaços de vozes que se juntaram numa harmonia de corpos. Um trabalho excelente de uma jovem coreógrafa.
“Outra voz é uma voz coletiva. Uma voz sem palavras que se faz ouvir e sentir”. Este foi o projeto que Carolina Cantinho concretizou no Teatro das Figuras. Acompanhada por Beatriz Gonçalves, Filipa Cavaco, Joana Glória e Sophia Rosa Carolina Cantinho conseguiu traduzir o conceito de comunidade num jogo de corpos e vozes que se articularam de forma convincente. As cinco intérpretes cruzam o espaço claro do palco do Teatro das figuras fazendo-se acompanhar de um microfone com um longo fio que as liga ao exterior. Elas são as vozes que escutam do exterior; seja de uma menina de 8 anos, seja de uma mulher madura. As vozes invadem as bailarinas, que cruzam os fios e interpretam as emoções dos penitentes corpos que aguardam uma ligação ao corpo dançante. E as bailarinas ouvem a voz, sentem a emoção e traduzem-na em movimentos. Ora subtis, ora violentos, ora solitários, ora coletivos, esses movimentos são sempre a escrita de uma súplica que vem da outra voz: a voz comum. Como diz Carolina Cantinho, “ Através de uma linguagem universal, vencemos as barreiras da língua e falamos com as emoções”. As emoções são transfiguradas em movimentos efetuados com rigor técnico pelas cinco bailarinas. Os movimentos falam porque estas jovens intérpretes da dança os sabem fazer falar. E escutar. Em três momentos os corpos repousam e dão protagonismo a outros corpos projetados na tela. Os corpos de onde tudo partiu. Os corpos que pertencem aos detentores das emoções que clamam por serem escutados. Os vídeos de Artur Rosa mostram o processo de criação de vinte e dois intérpretes que participaram nas formações que originaram este trabalho. No espetáculo as bailarinas conversam com as vozes trazidas pelos microfones. Articulam-nos de acordo com a altura dos seus interlocutores, interagem com esses objetos até a voz exterior se tornar presente. Quando o público assume a presença de uma outra voz, os microfones deixam de se fazer sentir presentes e tornam-se numa presença latente, fora do tapete onde tudo se transforma. A cena é aberta, por isso o espetador ode observar os cinco microfones assistindo atentos ao desenrolar do espetáculo. “O corpo é uma preciosidade física com o qual experienciamos a vida. A dança vem complementar essa experiência.” Carolina Cantinho afirmou. Os corpos, através de vozes que noticiam o quotidiano de um país em crise, confirmam. E foi importante que, a partir de vozes de cinco bailarinas, as notícias tivessem saído escorreitas, fluidas, mas também agressivas e cruéis. Essa crueldade de que também é feita a vida. Os movimentos foram pensados até ao ínfimo pormenor, permitindo às bailarinas dançarem em sincronia ou dentro da sua própria solidão, como acontece tantas vezes na vida. Por vezes a nossa voz encontra uma voz irmã, com a qual seguimos um percurso e, no momento seguinte, essa voz torna-se dissonante da nossa, divergindo, discutindo. Foi o que se verificou com a coreografia criada nesta Outra Voz: os corpos juntavam-se, separavam-se, havia encontros a dois, a três, até chegar a um encontro total que, não precisando de dançar em sincronia, se percebe numa harmonia das cinco intérpretes. Neste trabalho percebe-se já uma assinatura de uma jovem coreógrafa que, tendo começado a dançar segundo a matriz tradicional, se emancipou, devolvendo à arte uma forma de pensar coerente e original. No final do trabalho as bailarinas foram buscar os objetos que os formandos desta outra voz levaram para dar algo mais de si. E entre peluches, óculos de mergulhador, sapatilhas de dança e chapéus Carolina Cantinho soube devolver aos seus colegas de criação a sua voz genuína. Este foi um projeto que partiu do trabalho com vinte pessoas de várias idades onde não se traiu a ideia do coletivo. Pelo contrário: a outra voz deixou de ser tímida e singular para se tornar numa voz harmoniosa e universal. Carolina Cantinho é, desde 2004, formadora em Iniciação à Dança e em Dança Contemporânea em várias escolas de Faro, bem como bailarina coreógrafa da Companhia de Dança do Algarve, tendo obtido vários prémios de interpretação tanto a nível nacional como internacional.

Luis Vicente - A Assunção de um actor maior!

Dia 27 de Março, Dia Internacional do Teatro, a ACTA estreou a sua mais recente produção. O espetáculo começa com a assunção de um prólogo que enquadra o espetador na estética e na lógica do espetáculo. Com base no conceito de espaço vazio, de Peter Brook, Luis Vicente apresenta o espaço, que se vai enchendo de significações. Apresenta a cadeira, único objeto cénico assumido e desprende-se do ator para assumir a personagem. Luis Vicente guarda os óculos no bolso do casaco cinzento e imediatamente o rosto, o corpo se transfigura. A braços com um texto de grande violência psicológica, Luis Vicente interpreta um homem, Miguel Torres que, tendo nascido num meio adverso, alcançou uma prosperidade reconhecida a nível social. Cavalo Manco Não Trota, de Luis Del Val, é um texto que apresenta um limite ético quando a vida nos coloca perante o monstro que foi criado por nós. Luis Vicente assume a personagem ao longo de uma hora e meia, prendendo a atenção do espectador. Perante a barra do tribunal, Miguel Torres dirige-se ao juiz, fazendo um percurso pela sua vida, desde a infância até ao momento crítico em que teve de assumir um ato fatal. Tudo na vida de Miguel Torres estava a decorrer de acordo com o que Miguel quis fazer dela. Este homem foi um exemplo de um ser humano que domou a vida à sua maneira. A vida pregou-lhe a partida mais cruel que um pai pode sofrer. E Luis Vicente, sozinho, põe-nos diante de um drama que confronta várias famílias. O flagelo da toxicodependência é uma chaga que afeta de forma impiedosa aqueles que os amam. Do fundo do seu trabalho de ator Luis Vicente extravasa a simples interpretação para presentear o público com uma prestação de excelência, como é raro podermos presenciar na cena do teatro nacional. A não perder, num teatro perto de si.