Sunday, November 28, 2010

Ao Luar


Máscaras de madeira escondem rostos carregados de trabalho e dor pelo duro trabalho da terra. Uma mulher monda, um homem cava a terra. Os gestos são precisos e a técnica da máscara dá ao corpo uma outra identidade. Os espectadores reconhecem-se naquela realidade rural. As máscaras saem de cena e dão lugar ao actor César Matoso, que canta o amor e o enamoramento por uma camponesa através de um tema popular. É a introdução para a acção, protagonizada por Célia Martins e Rui Penas, que interpretam dois comerciantes donos de uma banca de produtos que fazem parte de um certo imaginário rural. Desde melões e aguardente de medronho até pentes e espuma de barbear, tudo se encontra naquele pequeno reduto de sonhos antigos. Os comerciantes são vizinhos desencantados da vida. Ele é vendedor de produtos agrícolas e viúvo e ela, abandonada por um marido alcoólico, vende os pequenos luxos domésticos a que a população rural podia aspirar. Os seus encontros são desencontros de quem se sente atraído sem o querer dar a entender. Os três fazem parte da Companhia “Ao Luar Teatro”, recém criada em Março com o intuito de chegar às populações mais recônditas e envelhecidas. Neste trabalho a acção passa-se numa pequena população rural que vai vendo a vida passar devagarinho, ao ritmo das flores que crescem na serra e no barrocal.
A conversa entre os vizinhos dá azo a que os espectadores se transformem em potenciais compradores, abrindo-se o espectáculo a uma interacção pacífica e simpática. Os espectadores provam da aguardente, experimentam os perfumes de há 15 anos, seguram nos melões, avaliam os produtos. Os espectadores sorriem, tornam-se cúmplices desta abordagem amável.
Talvez encorajados pelo clima de entusiasmo que se criou junto do público os vizinhos combinam encontrar-se no baile da aldeia. Após alguns desencontros que intensificam o conflito acabam por se encarar, nervosos e aperaltados, pensando cada um para si mesmo que pode ser a última oportunidade de acenar ao amor e de envelhecer ao lado de um ombro amigo. O baile fica animado, sobretudo porque o público é convidado a dançar. O rodopio é tal e a confusão tamanha que as declarações de amor se perdem e dão lugar a um mal entendido que os leva a encetarem caminhos paralelos cujas vidas não se cruzam. As bancas continuam lado a lado mas os corações doridos pela presunção de uma recusa que afinal não passou de um engano.
A calma da vida lenta e pachorrenta é ameaçada por uma ameaça vinda de decisores longínquos. A aldeia de Entre Valados pode desaparecer perante a ameaça da construção de um aeroporto. Mas nem o medo comum aproxima os vizinhos, que vão envelhecendo lado a lado mas sozinhos, cada um em sua banca. Numa noite singular o vendedor de melões tem um sonho revelador pleno de fórmulas e enigmas. Encontra um frasco suspeito que resolve guardar, não vá a vida pregar-lhe mais partidas e ter de partir mais cedo.
Os anos passam e o peso da vida faz-se sentir no peso das costas dos vendedores de ilusões. Olham um para o outro descobrindo as esculturas que o Tempo marcou nos seus rostos, nos seus corpos. A ameaça do aeroporto continua a pairar e a ensombrar as vidas dos habitantes daquele pequeno lugar no seio da serra algarvia. Passaram 20 anos e a vida continua difícil e solitária. O fim aproxima-se e os vizinhos, já que não envelheceram juntos, resolvem experimentar o misterioso líquido encontrado após o enigmático sonho. Depois de o terem ingerido dá-se um milagre e os seus corpos voltam atrás no tempo, recuando aos 20 anos. E como uma segunda oportunidade não pode ser desperdiçada, resolvem acertar as suas vidas e juntar as vendas. O projecto do aeroporto fica sem efeito por questões burocráticas e o final é anunciado através de uma canção que predispõe todos a sair do espectáculo bem-dispostos e com vontade de voltar.
Por Entre Valados, escrito e encenado por Rui Pena, foi um espectáculo rigoroso, honesto, com forte influência da linha do grupo Teatro ao Largo, mas ajustado à realidade da serra Algarve. Um trabalho profissional que une dois actores experientes a um actor recém-formado num curso de formação profissional do Algarve, César Matoso, detentor de uma excelente voz e uma forte presença em palco. Um bom exemplo do serviço que o teatro pode fazer no Algarve.

Friday, November 26, 2010

O dia dos Prodígios


O público entra na sala principal do Teatro da Trindade e depara-se com um cenário que se impõe pela sua simplicidade e beleza, sem ser ostensivo. Uma plataforma que eleva a cena composta por tapetes, uma árvore típica do barrocal algarvio, ramos suspensos, uma janela que domina o olhar, uma carrinha escondida num canavial. De repente o palco enche-se de corpos que vão compondo a cena. Carlos Paulo, Cristina Cavalinhos, Diogo Morgado, Elisa Lisboa, Filomena Cautela, Hugo Franco, José Martins, Lucinda Loureiro, Luís Lucas, Maria Emília Correia, Maria Ana Filipe, Rogério Vieira e Teresa Faria levam consigo adereços que vestem a cena, compondo-a de um Algarve profundo e isolado do resto do mundo. Vilamaninhos é o lugar onde decorre a acção, descrita magistralmente por Lídia Jorge, na sua obra O Dia dos Prodígios. Com a poesia que caracteriza as suas descrições, a Carminho de Lídia Jorge é transposta para a cena por Filomena Cautela, fazendo lembrar uma figura de Lorca. Uma rapariga bela, filha de mãe solteira, que atrai o seu soldado através do seu cheiro. Lava as janelas, numa imagem belíssima, que causa a inveja das outras mulheres da aldeia. Por entre os ritmos do quotidiano a má-língua impera. E por entre os diálogos criados entre as personagens percebe-se a história de um Portugal triste, iletrado, com as mágoas da Primeira Grande Guerra e as feridas da Guerra Colonial. Carminha é madrinha de guerra de um soldado que a descobre por entre os cheiros doces das plantas aromáticas do barrocal algarvio de carrasco e tomilho. As duas mulheres, isoladas da aldeia no cimo do monte, não assistem ao prodígio protagonizado por Jesuína Palha. O prodígio que foi uma cobra ganhar asas e levantar voo deixou toda a aldeia presa no feito, deixando os desaguisados para segundo plano. A vida continua na sua lenta passagem pelos dias marcados pela lida das mulheres. Pelo bordado de Branca, que borda uma colcha com um dragão para entreter os dias e esconder dos vizinhos os dedos de Pássaro Volante marcados na sua cara. Mas como ela mesma descobre, "Ninguém se liberta de nada se não quiser libertar-se". A memória da Guerra colonial revela-se mais cruel quando a mãe de Carminha descobre numa folha de jornal a notícia da morte do formoso soldado, afilhado de guerra da sua filha. Os tempos difíceis levaram todos os filhos de Teresa e José Júnior a ganhar a vida para fora do país. A aldeia fica quase despida de gente jovem. A mula de Pássaro Volante foge, Macário toca e suspira de amor por Carminha, que não consegue deixar de pensar no seu soldado, a taberna recebe os mesmos homens que contam as mesmas histórias. Até que um dia um soldado irrompe pela aldeia anunciando uma revolução e o fim da guerra. A aldeia continua a cismar no seu prodígio, não percebendo o que as novas do soldado lhe pode trazer. E continua a viver atrás do tempo, tomando como mote a expressão: “Ninguém se liberta de nada se não quiser libertar-se”. Branca conseguiu libertar-se através do seu dom de vidente e Carminha desistiu de si, casando com Macário, depois deste a ter atacado. Esta obra é um retrato desapiedado da ilusão que foi a euforia da revolução. Da crença no esclarecimento global criado por decreto ou por osmose.
O espectáculo teve um excelente leque de actores que contribuiu para uma revisitação mais próxima de um Algarve profundo, ainda desconhecido do resto do país. Uma homenagem às populações que vivem o isolamento a que são votadas nos locais mais inóspitos e a uma escritora consagrada que sempre soube imprimir poesia na situação mais crua: Lídia Jorge.
A acção decorre em Vilamaninhos, interior algarvio, não muito longe do mar, entre o Verão 1973 e a Primavera de 1974. Estamos no Portugal da guerra colonial: há uma madrinha de guerra e um soldado. Mas ecoam memórias da primeira guerra mundial e da implantação da república, e as pessoas desta pequena comunidade, que a emigração reduziu, parecem viver à margem do tempo, ocupadas em reviver o passado, presas em preconceitos ancestrais e conflitos caseiros. Até ao dia dos prodígios, o dia em que a aldeia vê uma serpente a voar...
Com a ironia deste texto de Lídia Jorge, muito próximo do realismo mágico, o espectáculo glosa as contradições tradicionais que estruturam e esclererosam o imaginário português.

Geometria para uma música


Os olhanenses foram brindados com uma noite especial. Dia 12 de Junho o místico chalé que o poeta João Lúcio mandou construir em Marim abriu as suas portas para uma partilha entre várias artes. Numa das alas da geométrica casa de Marim Paula Cardoso Rocha interpretou alguns temas musicais da sua autoria, que tocou ao vivo, acompanhada pelo contrabaixista Zé Eduardo. Outra ala da casa foi ocupada pela pintura de Graça Moniz, bisneta de João Lúcio. No centro da casa, onde emerge uma cúpula em forma de pirâmide de vidro, ecoou a voz da poesia interpretada por António José da Silva e, um pouco por todo o lado, dentro e fora da casa, duas dançarinas enrolavam e desenrolavam um fio de Ariadne, convidando o público a resolver o labirinto deste palacete que, desde sempre, foi dedicado às artes.
Toda esta movimentação ficou registada e dará origem a um documentário, realizado por Ricardo Resende e a um cd que irá ser produzido pela Associação Grémio das Músicas.
O público acorreu ao chamamento e encheu por completo esta mansão que sempre causou curiosidade nos habitantes de Olhão. Foram recebidos pela voz de António José da Silva que, do alto da varanda, disse poemas de Raul Brandão, Miguel Torga e João Lúcio. As bailarinas saíram pelas janelas, iluminadas pela centelha da inspiração, simbolizada na vela que acenderam no início do espectáculo e convidaram o público a visitar esta ancestral morada das artes. Depois do recital de piano e contrabaixo o público pôde usufruir de uma cálida e tranquila noite estival, apreciando a arquitectura e o prazer de uma boa conversa em torno das artes. Há noites assim: que se deixam visitar por um núcleo de criadores e artistas de excelência que se vão revelando no Algarve.

O pianista do oceano


A MITO, Mostra Internacional de Teatro de Oeiras, promoveu entre os dias 3 e 13 de Setembro uma temporada recheada de teatro para todos os gostos. Espectáculos para o público em geral, espectáculos de rua, espectáculos destinados ao público infantil e ainda mesas redondas e formações têm desinquietado as noites de Setembro na vila de Oeiras.
Um dos espectáculos que conseguiu surpreender o público que lotou o auditório do Teatro Independente de Oeiras foi produzida pelo grupo “Peripécia Teatro” e baseou-se no texto Novecentos, de Alessandro Barico. O texto conta a história de um pianista que nasceu a bosdo do Virginian, um paquete que fazia a rota dos emigrantes e milionários entre a Europa e a América, e nunca pisou terra.
Encenado por Noelia Dominguez, o espectáculo contou com o desempenho dos actores Sérgio Agostinho e Angel Fragua, acompanhados por dois excelentes músicos: Luis Filipe Santos e Tiago Abrantes.
O espectáculo começa com dois homens envelhecidos a falar sobre a sua vida. E como a vida é a memória, a memória traz consigo a capacidade de reviver outras vidas, recontadas e reescritas à medida que os anos vão passando. O espaço era preenchido por caixotes da madeira que se transformavam em vários objectos, e por uma cómoda de três gavetas. A história de um homem que viveu sempre no navio onde foi encontrado recém-nascido e conseguia retirar sonoridades únicas do piano, foi representada por estes quatro homens de forma notável e divertida. Os actores, acompanhados pelos dois clarinetistas cruzam várias técnicas teatrais que vão desde a criação do espaço imaginário e a assunção do objecto num universo de verdade, até à técnica do clown e ao café teatro. A história de Novecentos, com toda a carga poética de Alessandro Barico, foi trabalhada dramaturgicamente por José Carlos Garcia e contada em três línguas, mostrando a multiculturalidade que se encontrava nos navios que faziam o transporte dos emigrantes para a América. A voz, o corpo, o olhar, fizeram da história de Novecentos um conto emotivo que não cai no melodrama de lágrima fácil. Pelo contrário, faz com que o espectador se divirta enquanto está a ouvir a história dramática de um homem que nunca saiu do navio de onde nasceu. Atreveu-se uma vez, mas assustou-se com o infinito presente nas ruas, nas casas, nas mulheres bonitas. Preferiu a finitude das teclas do piano e do seu oceano. É notável a cena em que um conhecido músico de jazz sobe ao navio para enfrentar um duelo musical com Novecentos. A ambiência de duelo num western dá o mote para uma coreografia em que Novecentos mostra que é um músico autodidacta e não convencional, indiferente aos desafios habituais dos compositores e intérpretes da sua época. O momento em que os dois velhos músicos recordam a morte de Novecentos é repleto de poesia. A carga nostálgica termina no momento exacto em que a nostalgia daria lugar à tristeza. Novecentos decide afundar-se juntamente com o paquete que o viu viver e, no momento da explosão os dois velhos músicos recriam a hipotética conversa que Novecentos teria com S. Pedro, pedindo-lhe para entrar no Paraíso. O público diverte-se, sem deixar de sentir uma simpatia profunda pelo músico dos oceanos.
Uma companhia composta por dois actores espanhóis e um português e que consegue trazer para a cena toda a vivacidade e paixão que caracteriza o espírito latino no seu melhor. Os músicos conseguiram construir um espectáculo paralelo que, acompanhando o texto, contribuía para o público integrar a emoção procurada no relato da história de Novecentos. Um mito tornado realidade, a não perder quando se cruzar connosco em terras algarvias.

A preservação da língua como uma questão ética


Por vezes o sublime é um sentimento que custa a dissolver-se no universo fragmentado das sensações humanas, custando, por isso, a impor-se ao nível racional. Turismo Infinito, produzido pelo Teatro Nacional de S. João, é o paradigma de um espectáculo que a memória retém como pertencendo à categoria do sublime.
A cenografia de Manuel Aires Mateus, arquitecto cujo trabalho foi muito recentemente distinguido com o prestigiante Contractworld Award, é o que se impõe de forma quase agressiva ao espectador. Duas plataformas enormes, dando a ideia de uma estrada a caminhar para o infinito, anunciam o reflexo uma da outra, ao mesmo tempo que revelam a ideia de desequilíbrio. A plataforma de baixo abre-se em fendas mágicas, desocultando heterónimos pessoanos, que se assumem como entidades autónomas. O desenho de luz de Nuno Meira é de uma sensibilidade extrema, conseguindo captar os diversos matizes do universo pessoano em questão naquele texto. As personagens eram todas interpretadas por actores de primeiríssima água, fazendo justiça a Pessoa. O espectáculo é todo ele uma viagem intensa e profunda ao difícil universo pessoano. A cenografia abriga no seu interior o mundo subterrâneo do guarda-livros Bernardo Soares, do engenheiro naval Álvaro de Campos, da eterna namorada Ofélia Queiroz e do próprio mentor Fernando Pessoa. Alberto Caeiro já surge num plano superior, que paira acima dos outros fragmentos de personalidade e a corcunda Maria José, o único heterónimo pessoano feminino que se conhece, rasteja enquanto lê a carta ao carpinteiro, num registo tocante da actriz Emília Silvestre. Impressionante a forma como modifica o registo da leitura, subserviente e vitimizante, para uma postura de maioridade moral, perante o seu destino. João Reis está assombroso na interpretação de Álvaro de Campos. Com uma voz poderosa, que mostra a essência do excesso dado áquela personagem. Luís Araújo mostra-nos um Alberto Caeiro bucólico e sonhador, que se liberta das sombras e integra o mundo de forma panteísta, misturando-se com o poder da verbalização da beleza.
José Eduardo Silva traz-nos à memória o guarda-livros contra o qual continuamente lutamos. O inconformado que vocifera contra o patrão Vasques mas que tem medo de ousar uma mudança mais radical na sua vida. E o próprio Fernando Pessoa, interpretado por Pedro Almendra, que faz a intersecção de todas as personagens. Em todos eles se sente a beleza de uma dicção perfeita, que não é forçada, mas surge como um veículo natural do pensamento pessoano. Num tempo em que a língua portuguesa está continuamente a ser maltratada por entidades com responsabilidades acrescidas na sua transmissão, como locutores, jornalistas e até professores, é quase uma questão ética a necessidade da manutenção do uso correcto da Língua Portuguesa. Principalmente quando se trata da transmissão de ideias de um poeta que se tornou o maior embaixador da língua portuguesa no mundo.
“Sou a cena viva onde passam vários actores representando várias peças.” A frase que Bernardo Soares escreve pelo punho de Fernando Pessoa é uma das muitas epígrafes possíveis de Turismo Infinito. Porque as personagens navegam no infinito mar de sentidos e sensações do universo pessoano. Porque se encontram todas no “porto infinito” para onde as linhas paralelas se encontram, porque as personagens trocam entre si o sentido de ser, cruzando sombras e interseccionando sensações. O ritmo do espectáculo, lento, é imprescindível ao saborear das palavras e dos sentidos contidos nos textos de Pessoa e dos seus heterónimos.
Também Ofélia Queirós marca a sua presença no universo quase esquizofrénico entre Álvaro de Campos e Fernando Pessoa, quando comenta a carta de despedida do seu namorado, ditada ao engenheiro naval.
O guarda-roupa, cinzento, mostra a indefinição das personagens, fugindo ao contraste habitual do preto e branco, utilizado na poética de pessoa.
Este é um daqueles espectáculos que temos obrigação de ver, por foi superiormente encenada e magistralmente interpretada. É uma oportunidade quase única de ver um espectáculo que agarra o público sem que este tenha oportunidade de respirar, tantos são os estímulos estéticos de que se serve. A sua matéria prima assenta numa conjugação perfeita dos actores, da cenografia, da luz, da articulação das palavras, tudo orquestrado pelo talentoso encenador Ricardo Pais.
Um perfeito tributo a Pessoa. Um espectáculo inesquecível.

A escola da vida


Depois de ter percorrido as escolas da região com espectáculos que obrigavam a uma reflexão e posterior discussão sobre problemas como as drogas duras, a educação para a sexualidade, o bullying, chegou a vez do álcool. A ACTA, companhia de teatro do Algarve, vai iniciar a digressão pelas escolas do Algarve com o espectáculo Mais um Shot?, sobre o problema do álcool na adolescência. Com texto de Elisabete Martins e Bruno Martins, Mais um Shot? assume-se como um espectáculo interactivo que pretende promover a discussão sobre a relação dos jovens com o álcool. Incentivado socialmente desde tempos ancestrais o álcool desde cedo se tornou um problema devido à falta de controlo que os consumidores assumem amiúde.
Bruno Martins, Elisabete Martins, Nádia Gonçalves e Nuno Silvestre são os actores que dão vida a quatro personagens jovens. Apresentam uma séria de situações e passam a bola ao público para que sejam os adolescentes que lidam de perto com este problema a apresentar soluções e propostas de representação. À semelhança de outros trabalhos anteriores destinados ao público escolar, os alunos dividem-se em grupos e completam as histórias contadas pelos actores da ACTA. Neste caso, a história de base é a de quatro adolescentes que se preparam para ir a uma festa. Há uma rapariga que gosta de um rapaz mas a sua timidez impede-a de assumir o seu interesse. Há um rapaz que gosta de disfarçar a sua insegurança com comportamentos e comentários excessivos, quer em relação ao seu envolvimento com raparigas, quer em relação às suas façanhas que incluem bebedeiras em festas. Há um adolescente que não bebe mas se diverte e uma outra rapariga que bebe moderadamente e gosta de se divertir. Estas quatro figuras dão origem a uma multiplicidade de histórias que vão sendo criadas pelo público a partir do momento em que os jovens se encontram na festa. Os panoramas são vários: há um cenário em que a rapariga deslumbrada pelo rapaz entra em coma alcoólico, há uma versão em que entram todos alcoolizados num carro e sofrem um acidente de viação, há outra situação, menos realista, que é a de uma feste em que não há álcool mas todas se divertem e há a criação de uma outra história em que o rapaz e a rapariga se envolvem e na manhã seguinte não se lembram do que lhes aconteceu. Os alunos, para além de recriaram essas versões através de propostas suas, criam também uma lista elencando os problemas que a ingestão excessiva de álcool pode provocar. Estas pequenas dramatizações são intercaladas com explicações mais técnicas por parte dos actores da ACTA sobre as consequências do abuso do álcool e com uma ferramenta teatral que é o recurso ao hot sit. O actor senta-se numa cadeira especial em que é obrigado a responder, como personagem, a todas as questões que lhe são colocadas. No final o público decide o desfecho da história e este espectáculo é apenas uma provocação para que a discussão se prolongue nas salas de aula, orientados pelos professores, em debate com os colegas, para que aos poucos a prática se altere e o hábito socialmente aceite de beber um copo de vinho não seja atropelado por comportamentos desajustados que se podem tornar numa sentença de algo muito pior.
Este espectáculo, encenado por Elisabete Martins, conta com a participação de dois actores que concluíram recentemente o Curso Profissional de Artes do Espectáculo variante Interpretação da Escola Secundária Pinheiro e Rosa de Faro, Nádia Gonçalves e Nuno Silvestre. Com um desempenho que não ficou atrás dos outros dois actores, estes elementos mostram que a nova geração de actores está aí pronta para dar cartas e contribuir para o desenvolvimento da cultura ao nível regional. Para bens à estrutura, que decidiu apostar nos novos valores formados no Algarve e parabéns aos novos actores pela força e pela coragem de enfrentar diariamente um público difícil. Depois da escola de actores, a escola da vida.

O marinheiro


O Grupo de Teatro Penedo Grande, de S. Bartolomeu de Messines, levou à cena o espectáculo O Marinheiro, a partir do texto de Fernando Pessoa. Depois de uma digressão pelos Açores o grupo de Messines actuou no Pátio B@r, em Faro. Dirigidas por Rui Cabrita, as três veladoras foram interpretadas por Célia Ginó, Lisete Martins e Martas Vargas. Num ambiente intimista, muito próximas do público, a três actrizes reinventaram a escrita de Pessoa descobrindo-a na emoção dos seus corpos, para depois a devolver ao público carregada de um outro simbolismo. Pessoa escreveu um drama estático, num ambiente de imobilidade e irrealidade no qual se recusa a realidade, lançando a ponte para um universo onírico. Na leitura dramatúrgica de Rui Cabrita a imagem estática das veladoras transfigura-se no desassossego das suas almas, dando corpo à inquietude e à necessidade de partilhar as suas vozes interiores. O caixão com a donzela de branco foi substituído por um manequim suspenso, de vestido branco, que se impõe na cena. A iluminação, própria de um velório, é quase circunscrita a velas e a uma intensidade luminosa muito reduzida, por parte dos projectores. Como recurso que vai provocar um distanciamento Rui Cabrita utilizou uma gravação em filme onde se via um marinheiro sufocando a ansiedade no fundo da sua banheira. Sufocando sob o peso da morte que deixou na ilha perdida. Rui Cabrita, à semelhança do poeta-dramaturgo, é o marinheiro que se perdeu numa ilha longínqua. Uma perda que resulta da fragmentação de uma identidade que, à semelhança da ilha, é perdida. Uma fragmentação que, à semelhança de um espelho partido, reflecte as imagens repartidas dos heterónimos convertidos em veladoras. As veladoras, fiéis ao texto de Pessoa criaram uma autêntica hermenêutica do corpo à medida que o poema dramático ia avançando. À pergunta “Quem é que eu estou falando?... Quem é que está falando com a minha voz?...” o corpo responde envolvendo-se no espaço num bailado singular. A introspecção intensa transmuta-se numa expressão corporal singular que aproxima a palavra ao corpo do espectador. A fuga da palavra desemboca no encontro do corpo. “É belo falar do passado. Porque é inútil e faz tanta pena.” E se a boca cala o presente o corpo avança para o futuro. Principalmente o corpo de Marta Vargas que descobre todos os recantos do pequeno espaço de representação e, à semelhança das ondas do mar que diz ter sonhado, ondeia e irrompe expressivo quando diz: “Há ondas na minha alma... Quando ando embalo-me.”
É sobretudo tocante sentir a emoção destas três mulheres quando partilham o texto e o corpo com os espectadores. No final, quando assumem o vestido branco idêntico ao da jovem donzela que estão a velar mostram o desespero da paralaxe ontológica ao mesmo tempo que gritam: “Estou a ouvir-me gritar dentro de mim mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta.”
Lisete Martins está imponente neste trabalho, Marta Vargas impressiona como actriz na alma e no corpo e Célia Ginó é corente no seu trabalho de veladora mais circunspecta mas não menos implacável.
Um momento tocante que desoculta três actrizes algarvias e faz justiça às palavras do poeta. Um trabalho intenso e não menos belo em que Rui Cabrita partilha com o seu público fragmentos da sua alma. Como partilha nas notas de encenação: “Caído o corpo negro a alma aclara-se com igual trajar de branco. Musa tão triste e tão vida charco da memória da água... da vida da árvore afogada de pé sem tempo da morte do passado e do tempo a água só. Induzida na memória pelo som da banheira, o marinheiro na banheira o marinheiro continuando a sua viagem sem porto deixando uma mulher morta vivendo em sua memória de noite uma imagem projectada na água e nos montes do pensamento uma alma consciente da morte do fim de algo, uma mulher que vai descobrindo com o fluir de um sonho a ausência do real uma cabeça que nunca perceberá porque não há relógio nesta noite três corpos dessa mulher que se queda no fim morta num vestido branco suspensa que lhe faz lembrar ela ao marinheiro que sai da saia quando outro dia raia de manhã numa praia de um duche liquidifica-memórias ele parte no ir partindo na procura comum do pão da vida que resta.”
Um espectáculo que merece ser revisto num espaço mais adequado à prática do teatro.