Friday, November 26, 2010

ACTA - Trabalhar para o futuro


A ACTA está a retomar a sua função de educadora através da Arte com a reposição dos espectáculos Auto da Frequentada, espectáculo baseado no texto de Gil Vicente Auto da Índia, e O Longo Sono da Heroína, espectáculo baseado no conto A Bela Adormecida, adaptado por Sissel Paulsen e Ana Paula Baião.
Descrevendo um pouco a interacção que se vive nessas intervenções da ACTA, posso referir o efeito que a ACTA operou num grupo turma do 10º ano de Humanidades com o qual trabalhava na disciplina de Introdução à Filosofia. O estímulo era, a partir do espectáculo O Longo Sono da Heroína, encenado por Ana Paula Baião, fazer com que os alunos encontrassem soluções, colocassem questões e mesmo descobrissem um final para a história de uma adolescente que começou a ter problemas com droga. As situações eram várias: uma mulher que foi abandonada por um médico que a engravidou, tornando-se revoltada e alcoólica; a visão da infância de uma criança amada, em paralelo com uma criança desprezada; a entrada em coma da adolescente. Cabia aos alunos a tarefa de decidir se ela iria morrer ou não. A observação que fiz surpreendeu-me, pois alunos que nunca se manifestavam nas aulas cooperaram entusiasticamente nas tarefas propostas pelos actores, discutindo em grupo, apresentando depois os resultados das suas polémicas, sob a forma de uma dramatização, comentando as suas vivências. De uma forma talvez um pouco incipiente, conseguiram ultrapassar o bloqueio da expressão oral, levando-me a crer que a motivação a partir de estímulos propostos pela Expressão Dramática poderá ser mais eficaz que os métodos mais tradicionais e, desta forma, acreditar que esses estímulos devam ser aplicados amiúde, nomeadamente nas aulas de Filosofia.
O espectáculo O Longo sono da heroína, foi buscar inspiração ao imaginário do conto infantil da Bela Adormecida. Começava por mostrar um homem feliz com o nascimento da sua filha. Esse homem, nesse dia, recebeu um telefonema de uma outra mulher, exigindo-lhe as mesmas condições de vida que ele ia dar a essa menina, para o outro filho que havia tido um ano antes, com essa mulher. Ele respondia que tinha sido um erro e que não tinha mais responsabilidades, pois já lhe tinha dado dinheiro para se desembaraçar da criança. A mulher, então, jurava vingança. Os alunos, divididos em grupos, eram então solicitados a ilustrar como seria a reacção dos respectivos pais perante uma e outra criança em situações tais como a primeira doença e o primeiro dia de aulas. Depois de mais uma intervenção dos actores em que se mostrava o cuidado que os pais tinham em relação à rapariga, que se tornava numa super protecção e o desprezo que a mulher abandonada dava ao filho, os alunos eram convidados a fazer perguntas às personagens (à mulher abandonada e ao homem que a abandonou, que era médico) segundo a técnica do hot sit. Aqui surgiram questões interessantes como a contradição ao nível da ética por parte do médico, uma vez que ele, defendendo a vida, tinha pago para se fazer um aborto. Continuando a história e o imaginário da Bela Adormecida, quando a rapariga faz dezasseis anos, o irmão é convidado para a sua festa de aniversário. Este dá-lhe a provar substâncias alucinógenas e ela fica em estado de coma. Os alunos são então convidados a representar o final, decidindo se ela morre ou se sobrevive a esta experiência. Todos os alunos participaram activamente, fazendo questões espontaneamente aos actores e dando o seu contributo de forma séria e conscienciosa.
Esta experiência foi mais um contributo para a minha crença na tese de que um ensino que não só não esqueça mas sobretudo privilegie estratégias baseadas na estética teatral, concorrerá para um maior gosto pela aprendizagem por parte dos alunos e, sobretudo, uma maior consciência dos problemas / questões com que todos nos debatemos no mundo contemporâneo.
O outro espectáculo, O Auto da Frequentada, encenado por Luís Vicente, também tem contribuído para o desenvolvimento da imaginação nos alunos. Depois da apresentação do espectáculo os alunos conversaram com os actores sobre o que sentiram.

Falaram dos figurinos contemporâneos e compreenderam que tinha sido uma escolha deliberada para melhor dar a perceber uma relação directa dos textos com a maneira de sentir e agir dos homens de hoje.
Ao falar de cada um dos figurinos perceberam que a ama vestia um vestido que era a sua cama porque naquela altura as pessoas recebiam as visitas no quarto. Como ela estava sempre a receber visitas, estava sempre na cama. Referiram também o figurino do castelhano, com um cachecol de penas e um chapéu vermelho, lembrando um galo. Essa figura tinha esse aspecto porque simbolicamente era como um galo, vaidoso, cantando para impressionar.
Finalmente falaram da questão ética. Os actores começaram por perguntar por que é que os amigos da Constança entravam sempre pelas traseiras. Os alunos disseram que só o marido podia entrar pela porta de frente. E porquê, porque era contra a moral e os bons costumes receber homens em casa com o marido fora. Quando questionados sobre a questão da legitimidade de se pedir a uma pessoa para esperar por ela quatro anos, as opiniões dividiram-se. Alguns alunos disseram que sim, que se duas pessoas se amavam tinham de esperar uma pela outra. Outros disseram que dependia do que eles tivessem combinado entre si. Outros ainda disseram que perante uma situação dessas deveriam divorciar-se para estarem mais livres para o que pudesse acontecer. No fundo, a moral entre duas pessoas dependia directamente dos acordos e das regras estabelecidas entre elas, desde que não prejudicassem o resto da sociedade.
É minha convicção que os exercícios de expressão dramática levam à assunção de uma maior consciencialização sobre o conceito de cidadania, numa dinâmica de aprendizagem por descoberta. A estética, assume-se assim, desde as origens, como conceito estruturante da maturidade do Homem, concorrendo para a abstracção de uma realidade que se quer representar e descrever.

Desassossego na comuna


Fernando Pessoa escreveu, João mota encenou, Carlos Paulo interpretou. A obra nasceu. Bernardo Soares, o heterónimo mais próximo de Pessoa anuncia: “Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto."
Inteiramente baseado no “Livro do Desassossego” de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, Desassossego é um espectáculo de teatro, interpretado pelo actor Carlos Paulo e pelo músico Hugo Franco, que desperta no espectador emoções díspares.
Fernando Pessoa, ele próprio, será o músico, sem palavras, mas que através da execução musical de temas originais e, recorrendo aos mais variados instrumentos, preencherá silêncios, anunciará as mudanças marcará os ritmos - maestro por excelência – dos seus heterónimos. Carlos Paulo interpretou seis personagens que compõem o imenso caleidoscópio de vivências que “O Livro do Desassossego” propõe; O Escriturário, A Criança, O Mendigo, O Palestrante, Homem/Mulher, Revoltado. Dono de uma extraordinária presença em palco, Carlos Paulo convida-nos a fazer uma reflexão sobre um século que acabou e que teve em Fernando Pessoa um dos maiores expoentes, pela clareza, a inteligência, a frieza com que soube interrogar e interrogar-nos: no fundo, o Desassossego Português através da palavra do maior poeta da língua portuguesa do século que findou. Terrivelmente individualista, por vezes dolorosamente individualista, cenário pregado nas paredes de papel, de um homem que sofre e se lamenta poeticamente no escuro da sua sala abandonada de quarto alugado, o LD é em rigor a grande peça de teatro em monólogo sussurrado de uma alma que nunca se dá a conhecer no seu intimo
No cenário, o músico Hugo Franco está sentado dentro do quadro de Almada, escrevendo na mesa da brasileira, lendo em voz alta o que os seus pensamentos vão construindo. E escreve, sempre. E não deixa de dizer: "Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior."
Na personagem do escriturário Carlos Paulo, acompanhado pelas sonoridades criadas ao vivo por Hugo Franco, chama-nos a atenção para a necessidade da banalidade da vida, elemento fundamental que repõe o equilíbrio de todo um mundo de escriturários banais e necessários. Todos com um patrão, também ele simples e banal: "Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.
E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução."
A cena em que Carlos Paulo interpreta a criança, órfã da vida, balançando-se constantemente, acompanhado por uma canção de embalar, é tocante. A elevação da plataforma que simboliza a cama contribui para a elevação do sentimento de perda perante a imensidão do mundo.
Quando Carlos Paulo interpreta o palestrante, com os seus “Conselhos às mal-casadas”, provoca um corte na acção do espectáculo, essencial para a construção do desassossego que lhe está inerente. Mas uma das cenas chave deste espectáculo é o quadro Homem/Mulher, que provoca a dualidade que existe em cada um de nós. O figurino. Composto por um vestido de cauda rosa-choque, que o actor exibe quando está de costas para o público, transforma-se em fato preto masculino quando este se vira de frente para a audiência. A enquadrar essa personagem ambígua estão dois espelhos que marcam o paradoxo do sentimento masculino/feminino no andrógino que existe em cada um de nós e que nos cria o desassossego inultrapassável perante a vida: “Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia como um diamante possível numa cova a que se não pode descer. É todo o peso e toda a mágoa deste universo real e impossível, deste céu estandarte de um exército incógnito, destes tons que vão empalidecendo pelo ar fictício, de onde o crescente imaginário da lua emerge numa brancura eléctrica parada, recortado a longínquo e a insensível.”
Por fim, o revoltado revela o desígnio a que está votado: o de ser o poeta visionário que antecipa a missão incómoda de anunciar o futuro. “Um dia talvez compreendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de intérprete de uma parte do nosso século; e, quando o compreendam, hão-de escrever que na minha época fui incompreendido, que infelizmente vivi entre desafeições e friezas, e que é pena que tal me acontecesse. E o que escrever isto será, na época em que o escrever, incompreendedor, como os que me cercam, do meu análogo daquele tempo futuro. Porque os homens só aprendem para uso dos seus bisavós, que já morreram. Só aos mortos sabemos ensinar as verdadeiras regras de viver.” Uma digna e brilhante homenagem ao poeta maior da língua portuguesa.

Agosto Azul


Dia 1 de Agosto Portimão acordou um pouco mais azul. E ao longo deste Agosto que convida ao veraneio, a cidade foi encantando os seus visitantes com as inúmeras instalações dispersas pelos seus inúmeros recantos. Um pouco mais azul e um pouco mais poética, tentando captar a essência do desejo que inspirou Manuel Teixeira-Gomes a descrever de forma única o âmago do Algarve.
A autarquia de Portimão convidou em Agosto de 2009 a associação A Pele – Espaço de Contacto Social e Cultural, para conceber um projecto comemorativo dos 150 anos do nascimento de Manuel Teixeira Gomes. João Pedro Correia, originário de Portimão, aceitou com entusiasmo o desafio e começou a gizar um projecto de arte comunitária que envolvesse a população em geral. Depois de algumas incursões por várias obras do autor, Agosto Azul foi o texto eleito, a partir do qual João Pedro Correia e Maria João Mota fizeram uma adaptação dramatúrgica. Em Março de 2010 foram feitos contactos com 4 centros de dia que acolheram o projecto de braços abertos, tornando-se os fiéis intervenientes para o produto final. Ao longo do ano foram distribuídos retalhos, pedaços de lãs, para que as antigas artes, processadas por mãos sábias, pudessem devolver à comunidade o saber único e ancestral.
Para a concretização do projecto a associação A Pele contou com o apoio e a participação de 50 instituições que puderam oferecer 170 participantes ao espectáculo comemorativo da figura de referência da sua terra. Dia 19 de Agosto, sob a direcção artística de João Pedro Correia, estreou na praça 1º de Maio, em Portimão o espectáculo Agosto Azul. Com bancadas amovíveis para 800 espectadores, enquadrando o edifício da câmara Municipal, o espectáculo inicia-se com uma criança abrindo a porta do edifício. Sai para o meio da praça, deita-se no chão e começa a escrever uma carta. É a imagem de Manuel Teixeira Gomes. Em 1901 e em 2010, como anuncia o seu alter-ego do cimo da janela dos paços do concelho. A criança adormece e, dos quatro cantos da praça, surgem vozes sem idade cantando uma canção de embalar. A canção “Noites de Luar” é entoada com a sabedoria e ternura dos avós, das jovens mães, dos irmãos mais velhos. A praça enche-se de personagens em camisas de noite e pijama embalando os sonhos do jovem presidente. A banda da Sociedade Filarmónica Portimonense, dirigida por Rogério dos Santos Marques interpreta um tema enquadrando os espectadores na época romântica do princípio do séc. XX ao mesmo tempo que a praça se compõe com peças cenográficas que evocam a intimidade do acto de vestir. Através do chamamento feito pelo coral Adágio a criança desperta para a procura. Espreita pelas gavetas encontrando as peças do seu traje de presidente e joga às escondidas consigo próprio. As personagens de diferentes idades entram também em camisas de noite vestindo o seu traje de passeio. Os candeeiros de época de pé alto compõem a ambiência romântica e envolvente que implica o compor a figura para viajar. E ei-los que pegam nas malas de viagem e se dirigem para a estação de comboios. Os destinos são diversos mas as personagens unem-se numa mesma viagem. Lenços brancos acenam numa despedida sentida para a longa viagem pela Europa. O coral Adagio reproduz os sons característicos do comboio. O comboio parte e a criança fica novamente só. E nessa solidão, encantada com o mistério do mar, ao som de uma sonata de Beethoven, a sua imaginação é despertada para a visão de bailarinas que dançam sobre as ondas, etéreas e diáfanas. A criança é acordada do seu deslumbramento pelas guias turísticas que conduzem os transeuntes, movidos pelo ímpeto de saber de Teixeira Gomes, a visitarem os locais de interesse turístico. A criança é novamente levada pela sua imaginação admirando exóticas bailarinas com os requebros característicos da dança do ventre a comer figos lançando olhares de desejo. Esse desejo que é chamado de uma forma mais viva e intensa, porque genuína, entregue nos corpos e na música do Rancho Folclórico da Figueira. Ao som do baile mandado os pares descobrem e ilustram o prazer de se enlaçarem, tendo como público privilegiado um Teixeira Gomes adolescente que se deixa seduzir por uma moça do povo mais sabida e atrevida. O rancho sai, despede-se e o adolescente fica só, reflectindo sobre o prazer dos corpos quando estes se envolvem com a água. É nesse momento que as fontes da praça 1º de Maio se erguem e albergam debaixo das suas águas os corpos belos dos adolescentes que dançam extasiados com a descoberta das sensações. E as sensações são invadidas de cor com os veraneantes a irromperem pela praça, transformando-a numa imensa praia colorida. A banda filarmónica acompanha os sons da praia que, aos poucos, deixa entrar o barco Agosto Azul, embarcação pesqueira. As mulheres esticam as redes que vêm repletas de peixe grado, interpretado por crianças que saltam sobre as redes. Os pescadores recolhem as redes e a embarcação regressa ao porto. Ao porto dos amores perdidos regressa também uma canção. O fado “ai quem me dera ter outra vez 20 anos” é entoado de forma tocante por uma senhora de avançada idade, seguida por um cortejo de mulheres amadas, desejadas, cobiçadas por Teixeira Gomes. Enfrentam-no mas não deixam de lhe reafirmar que gostariam de ter outra vez 20 anos para o amar outra vez. O final é marcado pela escrita das cartas. Numa homenagem à correspondência, cada intérprete entra escrevendo um postal que distribui ao público.
Uma grande produção que, com os meios adequados, conseguiu produzir um espectáculo de rua numa noite de Agosto Azul. Uma noite fantástica na qual o teatro comunitário prestou uma grande homenagem ao Homem e à Cidade.

Escrita na paisagem

É já o sétimo festival Escrita na Paisagem que o projecto colecção B, dirigido por José Alberto Ferreira apresenta em três cidades diferentes: Arraiolos, Évora e Fundão. Segundo o director deste festival, “Escrever na paisagem é o gesto cultural mais continuada e aprofundadamente repetido pelo ser humano na sua relação com o território. (…) Sobrepõem-se ao longo do tempo narrativas, pontos de vista e marcas de actividades que são formas, espaços, pessoas e movimentos, ora presentes ora ausentes, constituindo o que pode pensar-se como um imenso arquivo geológico, mas também antropológico, político, cultural, performativo, ma exacta medida em que é dos homens, das suas opções de vida e das suas práticas culturais e performativas que resulta o que chamamos paisagem.”
Foi integrado neste festival que a companhia Philippe Genty apresentou um curso intensivo ao longo de duas semanas e que teve a sua apresentação final no dia 13 de Agosto. Neste curso os participantes foram introduzidos à linguagem visual da companhia. No trabalho final, Memória de uma Amnésia, os participantes manipularam objectos, marionetas, e exploraram as relações do próprio corpo com objectos do quotidiano, como tostas, candeeiros, grãos de café ou malas de viagem.
No exercício final os participantes actores começaram por descrever ilhas que ao longo da performance se vão diluindo, estabelecendo ligações entre os corpos. Os corpos estão espalhados ao longo do palco. Entra um marionetista que, armado de asas, conduz uma boneca. A boneca toca nos corpos espalhados, que despertam e ganham vida. Uma vida que os obriga a saírem da sua própria ilha, do seu isolamento e a relacionarem-se como o outro, a comunicar. Uma apresentação plena de significados simbólicos, de ligações entre os objectos, de exploração do corpo com o eu próprio e com o fora de si próprio. Um resultado excelente que aliou a qualidade de representação à entrega dos actores ao projecto.

Os grandes textos


Um pouco através do conhecimento empírico verificamos que é na época de férias que temos disponibilidade mental para pegar nos grandes clássicos e nos dedicarmos à leitura. Daí talvez a edição de tantos romances clássicos com a edição de alguma imprensa semanal. Em relação ao Teatro, verificamos que o panorama a nível nacional conta com o CITEMOR, a decorrer entre 24 de Julho e 13 de Agosto. Em Almada, um dos festivais de referência a nível europeu, este ano tendo como eixo principal a poesia, desenrolou-se entre 4 e 18 de Julho. O Festival de Teatro de Braga de 2 a 11 de Julho. Em Espanha, se procurarmos quantos festivais de teatro se organizam no Verão, a resposta é imensa. De 16 de Julho a 29 de Agosto, o anfiteatro romano de Mérida acolhe a 56.ª edição do Festival de Teatro Clássico da capital da Extremadura espanhola, uma vez mais com o apoio do governo regional. O Festival de Teatro Clássico de Cáceres é um dos festivais de Teatro mais importantes de quantos se celebram em Extremadura tendo como eixos fundamentais as representações de obras de Teatro Medieval e do Século de Ouro, apresenta-se todas as noites do mês de Junho. Grec, em Barcelona, abre os seus palcos de 13 de Junho a 1 de Agosto. E Cádiz, Almagro, e até Castillo de Niebla, tão próximo da fronteira algarvia, apresentam os seus trabalho nos meses de Verão, conseguindo atrair milhares de turistas para esses eventos. Fazendo uma leitura breve da programação desses festivais verifica-se que a escolha é eclética e não se menosprezam os textos clássicos mais trágicos e cruéis. Tito Andronico, Antígona, Prometeu, Édipo, apresentam-se regularmente com lotação esgotada nos festivais de Verão em Espanha.
Desta vez a escolha recaiu sobre o Festival de Teatro e Dança Castillo de Niebla. O espectáculo foi Calígula, de Albert Camus. Recordando a encenação de Paulo Moreira para a ACTA em 2000 pareceu apropriado fazer um exercício comparativo entre as duas encenações. A encenação que foi apresentada no dia 7 de Julho em Niebla teve encenação de Santiago Sánchez. Teve música ao vivo, executada por uma violoncelista e pelos próprios actores que tocavam tambores a um ritmo alucinante, com uma sincronia perfeita. Teve uns figurinos onde de destacava o bom gosto e uma cenografia belíssima, com uma roda gigante a circular de um lado ao outro do palco, simbolizando o domínio do poder material, a grande roda da vida, a ambição do poder em detrimento da vida humana. Tinha umas coreografias memoráveis, onde se denotava um domínio do corpo e da técnica da máscara. O espectáculo tinha tudo isto mas não teve a direcção de actores que marcou Paulo Moreira como encenador de referência. Cesónia, interpretada pela actriz e cantora Garbiñe Insausti era fraquíssima. Não tinha projecção de voz nem atitude em cena. Era apenas uma presença bonita. A Mereia faltava o lado perverso que lhe faz ser o negativo de Calígula. A Calígula faltava a loucura misturada com a inteligência e agudez de espírito que lhe permitiu utilizar a lógica a seu bel prazer, justificando a sua barbárie.
É bom de vez em quando podermos sair da nossa região e percebermos o privilégio do Algarve em ter uma companhia como a ACTA e um actor como Luís Vicente que nos deu o Calígula mais verosímil a que pude assistir. Um texto de referência que pode e deve ser apreciado em qualquer altura do ano.
É também para reflectirmos nisto que servem os festivais de Teatro. E para não nos esquecermos que, como lembrou José Monléon, um dos organizadores de Festivais de Teatro no fórum sobre este tema no Festival de Almada, “o teatro existe para relembrar a democracia, a solidariedade e a cultura humanista, que se encontra cada vez mais descaracterizada nas sociedades europeias”. Este é, de facto, um dos verdadeiros objectivos dos festivais de teatro e das manifestações artísticas no seu todo, uma responsabilidade que não pode ser esquecida pelos artistas nem pelos programadores culturais.

Novos actores


Em tempos de crise é sabido que as expressões artísticas se tornam amiúde motores de vontades e pólos de desenvolvimento de regiões mais desfavorecidas. A Escola Secundária Pinheiro e Rosa apostou num curso profissional, que terá a sua continuidade no triénio 2011/2015, no qual os alunos têm acesso a ferramentas que lhes permitem contribuir para o desenvolvimento cultural da sua região. Este ano a escola Pinheiro e Rosa, de Faro, formou os primeiros jovens com capacidade para mudarem a face cultural da terra de onde são originários, uma vez que esta escola da capital algarvia recebeu alunos de vários concelhos da região, desde Vila Real de Santo António a Loulé, passando por Olhão e Loulé.
Se o Algarve está carenciado de Companhias de Teatro com programação regular, que possam apresentar o seu trabalho em todos os concelhos, é necessário também que os equipamentos culturais se comecem a abrir a novas estruturas que surjam e que venham colmatar o hiato existente entre a necessidade que as populações sentem de ver novas propostas e o aparecimento de novos actores capazes de responder aos desafios mais audazes.
Durante o curso estes 14 jovens ultrapassaram vários obstáculos, desde a distância que tinham de percorrer de sua casa até à escola, até a exigência que lhes foi feita pelo carácter complexo das disciplinas teóricas. Passaram por provas públicas avaliadas por júris especialistas nas matérias, aprenderam a ouvir as críticas e a pensar sobre um espectáculo. Voz, Movimento, Interpretação, foram as disciplinas técnicas do curso que lhes permitiu apresentarem-se perante um júri composto por elementos exteriores à escola, impressionando-os com a qualidade dos trabalhos expostos.
Estes jovens criaram projectos prontos a ser desenvolvidos em qualquer autarquia da região que foram acreditados por entidades independentes, externas à escola. É justo que a região comece a acreditar no potencial criativo dos seus jovens e na possibilidade da cultura, e da expressão dramática em particular, poder ser geradora de postos de trabalho e de riqueza.
Os jovens actores integraram, ao longo de 420 horas, estruturas ligadas à cultura, profissionais e não profissionais, que os acolheram com a generosidade que lhes é própria. A Companhia de Teatro do Algarve, ACTA, integrou 6 destes jovens num espectáculo, A Cova dos Ladrões, que circulou por quase todas as salas de espectáculo da região, e um outro jovem para o VATE, a subestrutura que ganhou merecidamente o prémio Gulbenkian para a educação. A companhia de teatro Al-Masrah acolheu duas jovens que, mesmo após a conclusão oficial do seu estágio profissional, apresentaram um espectáculo em Tavira, Min-Mal-Show, e irão entrar em itinerância no mês de Agosto, a partir de dia 19 no Convento do Carmo, em Tavira. O grupo de teatro Te-Atrito acolheu dois estagiários, que desenvolveram um intenso trabalho de acompanhamento de grupo de teatro em Faro, Quarteira e Alte, culminado o seu trabalho com a apresentação de uma versão do texto Chama Devoradora, de John Steinbeck. Por fim, a Associação Cultural Música XXI acolheu três estagiários que ao longo de seis meses desenvolveram quatro produções, dentre as quais o espectáculo Maria Adelaide, apresentando-as em várias cidades e vilas da região como Alcoutim, Vila Real de Santo António, Albufeira, Faro e Lisboa, tendo já agendado espectáculos para Setembro.
Estes catorze jovens têm o saber, têm a experiência. Agora só lhes falta terem os órgãos decisores da sua região a acreditar no seu talento.

Escola de princesas


“Quem é a princesa do papá?” Esta poderia ser uma das frases com que começaria o espectáculo Escola de Princesas, com autoria e encenação de João Evaristo. Todas as meninas são as mais belas princesas do mundo para os seus pais. Mas… será que elas quereriam mesmo ser princesas? Em caso de dúvida a resposta é sim e as meninas adolescentes são enviadas para uma escola onde supostamente aprendem a ser princesas. Aprendem a andar, a manterem-se em forma, a mostrarem-se apetecíveis e desejáveis, a beijar. Estas são as aulas de dia, ministradas por uma preceptora, porque à noite, nos encontros sorrateiros, a escola é outra: é escola de mulheres que partilham experiências entre uma passa num cigarro e um copo de aguardente. E na escola da vida são os pais que aprendem através das conversas secretas das raparigas o que é ser adolescente hoje em dia. Já não se fala do primeiro beijo mas da experiência de andar com um homem mais velho, ou com uma mulher, ou como ultrapassar a dor de uma violentação. João Evaristo, para além de ter dividido a cena em dois momentos chave, o dia e a noite, dividiu a partilha da noite em dois instantes: o círculo das amigas e a rapariga que está em frente ao espelho de si própria, a desabafar com as suas memórias. E se o jogo da verdade ou consequência pode ser divertido, a catarse das memórias pode ser cruel. Na partilha continua a observar-se o mal-estar perante o elemento que decide não transgredir as regras. A rapariga que decide não fumar é apontada pelas outras e levada a retirar-se. No final a preceptora junta-se ao círculo de confiança e confidencia que, também ela, foi uma candidata a princesa, rejeitada pelo seu príncipe, que nunca a irá buscar montado num cavalo branco para serem felizes para sempre.
O texto foi construído a partir de testemunhos das próprias formandas e o jogo cénico que João Evaristo conseguiu construir foi bastante adequado. As actrizes, à excepção de Marta Vargas, que desde a sua iniciação teatral no grupo de escola secundária de Lagoa há 18 anos, não tem parado de nos surpreender, são todas estreantes. Como espectáculo resultante de uma formação de 50 horas está um trabalho limpo, com uma carga irónica e mordaz, adequada à idade das jovens alunas. O trabalho de interpretação ainda está incipiente mas com algum empenho e depois de soltarem o texto das suas preocupações principais, este trabalho poderá ser um alerta muito sério sobre a sexualidade na adolescência, neste caso, entre as jovens mulheres. Um espectáculo a rever e a apostar como ponto de partida para a educação sexual nas escolas.