Friday, August 17, 2007

Companhia 111 descreveu o infinito


Depois do volume e do plano, este espectáculo que completa a trilogia do espaço explora a linha. Uma linha, ou utilizando uma linguagem matematicamente correcta, uma recta, insere-se num intervalo que inclui todos os pontos que se estendem de menos infinito a mais infinito. O que a Companhia 111 pretendeu com este espectáculo foi explorar os limites desse símbolo do humano: a linha contém em si algo de humano, uma vez que a vemos como algo de poderoso e frágil ao mesmo tempo. E de facto, o espectáculo inicia-se com um extraordinário bailado de varas no espaço, manipuladas como se fossem marionetas, com uma grande precisão geométrica que nos recorda um caleidoscópio de formas que nos oferecem ao olhar mudanças dentro de um esquema geométrico muito preciso, seguindo aquilo que Schlemmer chamou, a propósito do jogo caleidoscópico, “a festa dos olhos”.
A ideia original de Arélien Bory tomou corpo através da encenação de Phil Soltanoff. A partir da apresentação destas linhas, semi-rectas, surge a figura humana igualmente fragmentada. Deslizando ao longo de linhas no chão, surgem mão, braços, cabeças, corpos, à procura da sua completude. E neste momento começamos a ver uma técnica corpora extremamente trabalhada, posta ao serviço de um conceito. Neste caso, o conceito de linha, dentro do espaço.
As linhas são exploradas ao máximo e servem de pretexto para o jogo teatral, para a dança, para o cinema, para os jogos de computador. O ser humano torna-se ele próprio linha assumido tanto a verticalidade, como a horizontalidade apoiando-se no mastro vertical, construindo outras figuras geométricas. As linhas permitem que a figura humana dance com elas, que contracenem com elas, que brinquem com elas. As linhas ameaçam, encurralam, mas ao mesmo tempo libertam. Não só os mastros, gigantes ou pequenos que se apresentaram no palco, mas a própria verticalidade sustentada pela coluna vertebral. Não é por acaso que uma pessoa de princípios é referida como uma pessoa com coluna vertebral, que não se verga nem quebra a linha. O próprio pensamento é amiúde descrito como uma linha, perseguindo um fio condutor, talvez porque a tridimensionalidade que nos enforma condicione a nossa maneira de olhar para o mundo. Neste espectáculo Aurélien Bory redimensiona o nosso olhar para um olhar inicial, puro e matemático, dando corpo ao conceito de cronologia, de velocidade, regressando ao conceito pitagórico da realidade ser efectivamente expressa por números e estruturas geométricas, não só a um nível metafórico, mas na sua essência.
Afastando-se do universo matemático de Flatland de Abbot, no qual a linha representava o elemento feminino desprezado pela comunidade machista dos sólidos geométricos Plus ou moins l’infinit redirecciona-nos o olhar para a beleza de um mundo orquestrado a partir de duas linguagens universais: a matemática e a arte. Mais uma vez redescobrimos o conceito de Novo Circo. Um conceito que rompe com o s números que se sucedem e nos quais há uma procura da técnica apurada que nos surpreende para um novo conceito que propões aos artistas servirem-se de diversas linguagem e técnicas, submetando-as a um conceito. Neste caso foi o conceito de espaço, com Aurélia Thierrèe, no seu Oratório, foi o conceito de transgressão das leis da física e a exploração do absurdo. Num país como a França, que desde a década de oitenta apoia o Novo Circo, tendo inclusivamente uma escola superior que forma jovens nesta visão global do espectáculo, é previsível que surjam espectáculos desta natureza, que nos conduzem o olhar para o belo através de artistas que surpreendem pelo seu desafio constante às leis da gravidade. Como Portugal tem tido um atraso de cerca de 30 anos relativamente ao resto da Europa talvez agora se possa vislumbrar a esperança de um investimento sério do poder político nesta área.
Este espectáculo contou com a participação de Olivier Alenda, Aurélien Bory, Pierre Cartonnet, Julien Cassier, Aurélius Lorenzi, e Sodadeth San em cima do palco. Atrás do palco houve uma imensa equipa de técnicos que permitiram o desenvolvimento do espectáculo, como Tristan Baudoin, Stéphane Ley, Frédéric Stoll e Arno Veyrat. A música foi concebida por três criadores: Olivier Alenda, Julien Cassier e o própiro encenador Phil Soltanoff. A par da luz, desenhada por Arno Veyrat, contribuíram para a construção de ambiências muito especiais e fazer deste espectáculo um delírio para os sentidos.

Dedos de luz


A noite estava agradável. Morna, com a lua a adivinhar-se cheia, espreitando por detrás do castelo de Castro Marim. A multidão envolvia o estádio de futebol, desta vez com um intuito especial: o de assistir a um concerto de um guitarrista. Passando pela turba anónima ouviam-se vários sotaques, alguns idiomas onde predominavam o português e o castelhano. Alguns artistas conhecidos da nossa praça também se apinhavam na fila para a entrada. Apesar da certeza da espera as pessoas mantinham-se calmas, pois tinham a certeza do seu lugar marcado. Dentro do estádio milhares de cadeiras brancas esperavam pelos seus ocupantes. Por pouco tempo: às 22h00 já o estádio estava repleto. Às 22h10 começava o concerto. Paco de Lucía, com a sua simplicidade habitual, entra no palco com a sua guitarra e começa dedilhá-la. Os primeiros acordes soaram como os de uma qualquer outra guitarra. Mas à medida que a música ia evoluindo, as cadeiras desconfortáveis deixavam de se fazer sentir, o palco deixou de existir, a multidão à volta desapareceu. Só ficou a alma do artista, materializada nos dedos que criavam aquela música transcendente. Só algumas vezes se consegue sentir esse tipo de emoção extática em que tudo o resto desaparece, ficando apenas uma tensão especial entre o espectador e a obra de arte. No dia 20 de Agosto, em Castro Marim, os milhares de pessoas que estiveram no concerto de Paco de Lucía puderam sentir essa emoção que o virtuoso músico consegue extrair das cordas para a oferecer ao público. Sozinho ou acompanhado pelos seus músicos instrumentistas e cantadores de flamenco, Paco de Lucía, o grande mestre da guitarra, continua a provocar um entusiasmo mesmo entre as camadas mais jovens, como se sentiu há 14 anos, aquando do seu primeiro grande concerto em Portugal. Galardoado com o prémio “Príncipe das Astúrias” por ter transcendido fronteiras e ser hoje um músico de dimensão musical, dele o júri afirmou: “Tudo quanto possa ser expressado com as seis cordas da Guitarra, está nas suas mãos, animadas pela emocionante profundidade, sensibilidade e limpeza da máxima honradez interpretativa.” Foi essa honradez limpa na interpretação da guitarra que Paco de Lucía transmitiu num concerto de duas horas. Para alguns pode ter faltado o complemento dos corpos dançando ao som da guitarra flamenca. Mas a guitarra de Paco de Lucía, iluminada pelos seus dedos, tem o poder de desencadear a sensualidade andaluza, levando a alma do espectador a dançar interiormente. Com a lua acariciando-nos com a sua luz sentimos o prazer de nos sabermos mortais, capazes de cometer um sagrado pecado.

A inquietação filosófica


É raro termos um concerto num espaço com cerca de 200 lugares que se torne intimista. Este fenómeno aconteceu no dia 21 de Abril quando o teatro Lethes esgotou para ouvir José Mário Branco.
As palavras, latentes nas utopias de cada um, acompanhavam a guitarra que entoava as melodias que se foram tornando hinos ao longo dos tempos.
E, sempre que José Mário Branco nos privilegia com um recital, arrasta-nos para uma ambiência mística onde se impõe uma aura de verdade arrepiante.
Neste espectáculo José Mário Branco interpretou temas de vários álbuns. Resistir é Vencer foi a palavra de ordem para as músicas que emergiram da voz do autor. Mas o que nos faz reflectir é que temas que serviram para ilustrar a nossa indignação há 20 anos atrás continuam bem presentes nos dias de hoje. Temas como As Canseiras desta Vida, integrado no álbum A Mãe, composto para um espectáculo homónimo do grupo de teatro A Comuna, continuam paradoxalmente a fazer sentido. Neste último álbum ouvimos estas palavras: “No Lugar da consciência / a lei da concorrência / Pisando tudo pelo caminho / P’ra castrar a juventude / Mascaram de virtude / o querer vencer sozinho.” Palavras que têm a virtude de se cravarem como farpas nas mais tranquilas e apaziguadas consciências. A virtude de desinquietar filosoficamente, à maneira socrática, a paz podre instalada.
José Mário Branco é um filósofo autêntico que fere, através dos seus poemas, os responsáveis pelo mal-estar social, os anões de espírito instalados no poder. Realmente, o papão para qualquer anão é ter um irmão menor. Como nos pequenos poderes que se arrogam de importância. Afinal, já Sérgio Godinho nos tinha falado dos “assessores”, os pequeninos que comem na borda do prato dos pequenos poderes, que lambem os poderosos por quatro, cinco ou muitos anos de fidelidade mascarada de felicidade. Numa pequena canção, Zé Mário ilustra uma fatal realidade de todos os dias: os pequenos poderes dos anõezinhos que se interpõem entre o pobre cidadão e o anão poderoso a quem deu o voto. Qual pequenos “salieris” contemporâneos, são os medíocres que verdadeiramente mandam.
Mas a esperança continua na alma do autor quando nos canta: “Do que um homem é capaz / As coisas que ele faz / P’ra chegar aonde quer / É capaz de dar a vida / P’ra levar de vencida / Uma razão de viver.” As palavras tornam-se justeza e constroem um sentido que ultrapassa qualquer hino panfletário já em desuso. Os versos de José Mário atravessam oceanos de tempo, infelizmente não para saudarmos a mudança entretanto havida mas para lamentarmos a permanência num estado social insustentável ao nível da dignidade da Pessoa. E de cada vez que Zé Mário nos descreve que vê “gente cuja vida / Vai sendo consumida / Nas miragens do Poder / Agarrados a alguns ossos / No meio dos Destroços / do que nunca hão-de fazer”, lembramo-nos de uma sociedade que não queremos mas que persiste em insinuar-se labirinticamente nos corredores das instituições que demarcam os pequenos poderes. Sabemos que existem, somos confrontados com eles, mas a voz de José Mário Branco lembra-nos que não é esse estado de coisas que é “normal”. Apenas se normalizou. Lembra-nos que também os pequenos poderes, à semelhança dos grandes, podem cair. Como nos lembra Sófocles, no seu texto Antígona, Creonte é confrontado com o facto de que é ao povo que deve a sua soberania, nessa jovem democracia ateniense entretanto criada. Um serviço que os dirigentes deveriam honrar e não agir como a pior espécie de homens ao cimo da Terra: os tiranos. O recital de José Mário Branco funcionou como uma arma mobilizadora intemporal de vontades, para além de qualquer revolução. E devolveu-nos o direito de sentirmos a indignação, a tristeza, a felicidade. O direito de não sermos hipócritas. Por isso é sempre importantes lembrar as palavras do poetas, integradas no álbum Ser Solidário; “Não cantes alegrias a fingir / Se alguma dor existir / A roer dentro da toca /Deixa a tristeza sair / Pois só se aprende a sorrir / Com a verdade na boca.”

Jacinta - o jazz em pessoa


«The greatest blues singer in the world will never stop singing». Esta é a homenagem que Bessie Smith tem na sua última morada. O elogio fúnebre materializa-se paradoxalmente na voz de Jacinta, que em boa hora gravou para a BLUE NOTE – EMI Portugal o álbum Tributo a Bessie Smith, que já conseguiu ser disco de ouro. Para quem quer tentar esta difícil carreira o seu conselho é: Fazer acontecer.
Os seus olhos claros de criança rebelde não conseguem esconder o gosto pela música quando, numa atarefada tarde nos cruzámos em Lisboa, entre um projecto editorial e uma aula de canto. Jacinta, que desde os 4 anos estuda música clássica, cedo começou a ter uma apetência pelo jazz. Enveredou pela composição por considerar que era a disciplina que lhe seria mais útil para a compreensão do jazz. Reconhece que foi criada num meio de uma certa elite musical e quando questionada sobre a criação da apetência nos jovens para o jazz, lamenta que “hoje em dia a cultura seja tão anti-cultura. Os meios de divulgação cultural, em vez de elevarem o gosto do público, vão ao encontro do que é mais fácil. Assim é muito difícil criar nos jovens uma apetência por um estilo musical que nunca ouvem. Eu nem queria acreditar quando o Júlio Isidro me disse que chegava a passar o Festival de Jazz de Cascais na televisão na íntegra! Perante o panorama actual perguntei-me: como é possível?”
A sua rendição às cantoras de blues foi consumada quando em sua casa se comprou um disco com temas de Natal interpretado por grandes nomes do jazz. Entre eles estavam Sarah Vaugham, Billie Holliday e Ella Fitzgerald. Nesse momento Jacinta compreendeu que era naquela área que queria investir. Foi de malas e bagagens para Nova Iorque, para estudar onde o jazz tem as suas raízes. Na terra do jazz, Jacinta consegue impressionar os seus mestres e realiza ganha uma bolsa para frequentar um mestrado em Jazz Vocal Depois de muita luta, de muitos port-folios e maquetes distribuídos nos clubes de jazz de referência, começa a sua carreira de cantora, impressionando desde logo o público mais exigente e conhecedor do jazz.
Aclamada pela crítica especializada, que a considerou como uma cantora de “consumo obrigatório”, Jacinta virá apresentar o seu mais recente álbum ao Teatro Municipal de Faro. Considerada uma das grandes vocalistas do momento por Rodrigo Affreixo no jornal Blitz, , Jacinta recebeu o prémio 'Músico Revelação 2001' do programa Cinco Minutos de Jazz (Antena1 desde 1966).
Em Fevereiro de 2003 Jacinta voltou a Portugal, a convite do aclamado trompetista e compositor
Laurent Filipe, para uma série de concertos de homenagem a Bessie Smith a grande imperatriz do Blues.
Entre os mais respeitados críticos de jazz em Portugal, Jacinta foi descrita por António Rúbio como tendo 'uma presença em palco cheia de confiança e à vontade. Para este crítico, Jacinta “possui um forte sentido rítmico e um estilo de improvisação digno de uma cantora cheia de maturidade, de um nível que nunca apareceu neste país”. Dela também escreveu António Ferro que é possuidora de uma 'voz forte e soberana' .
Peter Eldridge vai mais longe e afirma, no The New York Voices que “Jacinta canta da alma com uma alegria contagiante… Tratando cada tema que canta com respeito”. Que se pode dizer mais de uma cantora, que ainda por cima nos contagia com aquele fantástico sorriso?
A quem quer enveredar por esta difícil carreira Jacinta diz “Tem que ter muita coragem, muita força, muita perseverança. Ir à luta e não ficar à espera que as coisas aconteçam por si. É preciso sobretudo fazer acontecer, porque é um caminho muito difícil.”
Apesar de ser reconhecida no estrangeiro, é em Portugal que Jacinta quer investir na sua carreira. Sempre sem nunca perder as referências do que acontece na Europa e nos Estados Unidos, Jacinta, que se sente muito bem acolhida no seu país, quer continuar a lutar por um lugar na música nacional.No espectáculo de amanhã, Jacinta será acompanhada por Diogo Vida no piano, Zé Pedro no saxofone, Rodrigo Monteiro no contrabaixo e João Cunha na bateria. Agora, com o novo disco DayDream, onde apresenta um jazz mais “puro e duro”, a nova voz do Jazz vem ao Algarve interpretar Thelonious Monk, Duke Ellington, Tom Jobim, Djavan, e a “Canção de Embalar” de José Afonso. Os temas de Duke Ellington têm a particularidade de serem cantados em português com poemas de Tiago Torres da Silva.É pois, com grande expectativa que o Algarve irá receber amanhã no Teatro Municipal de Faro esta grande embaixadora do jazz.

Gift celebrando a liberdade

Há bandas que marcam uma década no contexto do seu país. No caso português podemos pensar nos Madredeus para os anos 80, os Xutos e pontapés nos anos 90 e, sem dúvida que os The Gift é a banda que vai marcar a primeira década do III milénio. Nascida em 1994 captaram as sonoridades dos Radiohead, dos Portishead, de David Bowie, como por exemplo no tema Ok Do you wanna something simple, e conseguiram dar um toque de classe à música com sonoridades electrónicas que entretanto se ia fazendo.
Quem tem acompanhado o percurso da banda de Alcobaça, desde os primeiros tempos até hoje, não pode deixar de sentir uma grande satisfação pelo projecto de qualidade que a banda merecidamente alcançou. Desde Digital Atmosphere, gravado em casa e sem edição comercial no fim dos anos 90, até ao super produzido Fácil de Entender a banda foi tecendo as malhas do seu sucesso, apostando sempre na qualidade. Curiosamente foi depois de terem alcançado a sua internacionalização que apostaram num tema em português que rapidamente virou um hino entre os seus admiradores.
O concerto de dia 25 de Abril é característico dessa adesão em massa do público de todas as idades. Já não se via, como em Paredes de Coura o público ser atraído aos poucos pela sonoridade inovadora e bela do grupo. Pelo contrário, o público procurou o seu lugar antecipadamente para poder estar próximo da sua banda de eleição.
Do concerto no teatro das Figuras não posso falar, uma vez que a ele não pude assistir como profissional. Posso falar do concerto que me agarrou ao rádio, em directo dos claustros do mosteiro de Alcobaça, posso falar de Coimbra em 2004: explosivo, com a qualidade a crescer. Talvez o concerto do Teatro das Figuras tenha sido mais sofisticado, a avaliar pelo vestido de Sónia Tavares e da cenografia. Mas o concerto havido na praça da Pontinha foi o que se pode considerar poderoso. Sandra Tavares está em grande forma, retira prazer do seu trabalho e tem uma bateria de músicos de qualidade a acompanhá-la. O profissionalismo a força, a empatia sentida entre os elementos da banda e a banda e o público fizeram deste concerto um marco que ficará certamente na memória dos farenses. Apesar do obstáculo da língua a comunicação aconteceu e o público que enchia a praça da Pontinha pulou e vibrou ao som da banda que se arrisca a ser a banda portuguesa de referência desta década. E de muitas outras, esperemos.
Sónia Tavares assumiu a cumplicidade com o público devolvendo-lhe a beleza que dela irradiava. Este concerto teve, para além da formação original, acompanhamento de um coral de seis vozes femininas e uma harpa.
E até se torna fácil de entender a ascenção desta banda. Um bocadinho de sonho, uma pitada de magia, talento e energia em doses generosas foi a receita que esta banda trouxe ao largo da Pontinha a Faro. Não sei como será a versão no espaço fechado, mas que este foi um belo presente aos munícipes de Faro, lá isso foi.

O aroma boémio de Lisboa


Os Dead Combo apresentaram-se duas noites no Centro de Artes Performativas do Algarve, em Faro. Uma agradável surpresa para quem ainda não os conhecia e um reviver de deliciosas memórias para quem já privava com o seu primeiro álbum. De uma forma ou de outra, um concerto que teve o privilégio de evocar a magia da efemeridade.
Uma guitarra, um contrabaixo, muitas ambiências. Uma cartola empoeirada sobre os olhos, um fato escuro com risquinha branca, sapatinhos brancos à malandro, um ramo de rosas vermelhas. O universo cénico está criado, como se de personagens de banda desenhada se tratassem. Surge a música e os Dead Combo revelam-se em toda a sua genuinidade, como se irrompessem de um filme de Wim Wenders. Do deserto de Paris Texas às ruas povoadas de rufias no Bairro Alto este duo faz-nos sonhar com universos esquecidos que se perdem atrás de um balcão de uma nunca esquecida Tia Alce. Tó Trips e Pedro V. Gonçalves juntaram-se numa ditosa noite, provenientes de uma homenagem a Carlos Paredes. Há encontros que não são coincidências e talvez o próprio Paredes tivesse nado um empurrãozinho na boleia pedonal que ambos tomaram nas conversas um dos outro até ao mítico Bairro Alto.
A música dos Dead Combo, aclamada pela crítica especializada desde 2004, surte um efeito místico em quem a ouve. Dignamente teatral cumpre a encenação até aos mais ínfimos pormenores. Talvez só ouvindo esta sonoridade e vendo a encenação com inspiração de cartoon se entenda finalmente as letras fatalistas dos fados. Às vezes os instrumentais têm essa capacidade de fazer entender melhor outras místicas, neste caso a mística fatalista do fado vadio. Deve ser verdade porque a sonoridade dos Dead Combo faz-nos sentir orgulhosos da nossa própria mortalidade, orgulhosos da nossa insuficiência, com vontade de pecar mortalmente.
After peace swing time é um duelo que brinca com a harmonia de uma guitarra evocativa de um Westen de Sérgio Leone, como o arrepiante Once upon a time in West com o ritmo racional do contrabaixo. Tal como no filme de Leone, Este tema dos Dead Combe torna mais aguda a consciência do último suspiro. É por isso um hino à vida e à necessidade urgente de a viver com intensidade. Mas este concerto não foi apenas a apresentação das 14 faixas do novo projecto dos Dead Combo, foi também a possibilidade de refrescar a memória e recordar Pacheco, Eléctrica Cadente, Rumbero ou Rua das Chagas.
Como corvos habitantes de paisagens nocturnas, os Dead Combo pagaram-nos uma viagem a universos de boémia, ressacas e urbanidades esquecidas com o sotaque da mais profunda Lisboa. Da Rua da Rosa à Rua das Chagas palmilhamos a alma do mais sombrio destino lisboeta, acordando com uma lua na algibeira, posta lá por uma qualquer paixão furtiva de uma noite só. Um fado, vadio, com sabor a Westen spaguetti. O tema inicial do concerto que dá o nome ao álbum, Quando a alma não é pequena tem a melodia chorada do fado amparada pelo ombro amigo de um leve toque de flamengo. As paisagens sonoras que este tema origina são fortes e doem nas almas perdidas mais incautas. A magia que opera quando se sabe que acaba. Dói, mas torna-se mais intensa porque a sabemos fugaz, como as paixões. É isso que os Dead Combo provocam: Uma paixão. Como quando se olha para a roda da sai de uma rapariga e se compõe um tema. Com Esperança que a rapariga olhe e veja alguma coisa interessante para retribuir o olhar.
Dead Combo não introduzem a voz nos seus temas para deixarem as paisagens voarem mais livremente na imaginação de quem os ouve. A não ser no carismático Ai, ai que vida, a que o público aderiu naturalmente, sem ser preciso outras palavras para mostrar o seu estado de espírito. Assim como a cartola que tapa os olhos e liberta as notas da cabeça do artista fala por si, os sapatos brancos batendo revoltados um ritmo ora violento ora doce. Assim como o ramo de rosas vermelhas abandonado sobre as caixas dos instrumentos fala de paixões consumadas e de outras por viver. Um ramo de rosas vermelhas é sempre uma promessa de paixão. Promessa que os Dead Combo souberam fazer cumprir em Faro.
A foto foi gentilmente cedida pela fotógrafa Rita Carmo

Festival mau - Uma maneira alternativa de olhar para a arte


À primeira impressão, quem ouvisse falar num festival mau que se iria realizar em Faro, poderia pensar que era uma série comemorativa da revolução cultural chinesa. Quando nos apercebemos da mudança do O pelo U e percebemos que o que é esperado é mesmo MAU, podemos pensar: mas o que é que motivará uma série de pessoas no seu juízo perfeito a organizar um festival mau? O cartaz é claro e prometia factos, desprogramação e doçaria artesanal. Em conversa com um dos organizadores do dito festival, Paulo Razoável, fomos apurando um pouco melhor do que se espera deste tipo de iniciativa. Mau, como bom, são conceitos relativos que utilizamos na maior parte das vezes, um pouco aleatoriamente, ou segundo critérios impostos por uma estética vigente, sem aprofundar a sua essência. Paul Valèry dizia que o belo é um conceito negativo, exactamente porque é muito mais fácil apontar um objecto como horrível, ou mau, do que apontá-lo como bom ou belo. Neste caso concreto o conceito de mau aponta mais para uma aproximação de alternativo do que a uma ausência completa da faculdade do gosto. Mas para se participar no festival, nomeadamente integrando a categoria de vídeos, é preciso que os trabalhos se sujeitem a uma selecção e ser considerado suficientemente mau, ou neste caso, suficientemente alternativo, para poder passar a integrar esta mostra alternativa.
Agradados com a proposta ficaram três realizadores estrangeiros: Volcofky dos Estados Unidos, Joshua Bryan do Reino Unido e Raul Cerezo de Espanha, que voaram graciosamente dos seus países de origem até Portugal só por se assumirem como apoiantes do conceito desta mostra. E ao longo dos três dias estes três realizadores estiveram em Faro para falar dos seus filmes alternativos com o público do festival mau.
Demarcados de Faro Capital Nacional da Cultura, fazendo questão de o afirmar em todos os suportes publicitários relativos ao festival, Paulo Razoável insiste em considerar o grande evento que está a dominar as atenções em Faro, como um grande circo que veio à cidade. O circo vem, as pessoas admiram, algumas até se deslumbram, mas o circo parte e a vida continua como era: com as mesmas necessidades, as mesmas dificuldades e as mesmas angústias. No festival mau ao menos vêem-se vídeos, instalações, performances marginais ao gosto imposto pelos programadores.
Paradoxalmente, ao repto de participar neste festival responderam mais artistas de fora do Algarve do que propriamente da região. Lisboa e Coimbra são as proveniências dos artistas que mais se fizeram sentir no festival, e também a Estónia se fez representar com uma série de vídeos integrados na categoria Kaleidoscope, que, curiosamente quer dizer na sua remota origem, a capacidade de ver imagens bonitas.
Sobre a performance teatral de Paulo João, mais um actor da capital, que apresentou o texto da sua autoria Dor de Burro Quando Foge e Cartas Matrimoniais de Artaut. Desta actuação apenas se pode dizer que foi de uma banalidade e escassez de recursos atroz. Não era suficientemente alternativo para ser interessante nem suficientemente bom para ser aplaudido. Dois monólogos apresentados de forma banal e desinteressante, que tornaram fútil a actuação do actor naquele espaço. Quando se lê o nome de Artaud na folha de sala espera-se, no mínimo, que se faça justiça ao mestre do teatro da violência, o que não aconteceu. Paulo João tem uma voz bonita e sabe decorar texto. Mas isso não é suficiente para fazer parte de um festival deste género, por muito que se auto designe como festival mau. A sua actuação não passou de um enorme bocejo com pretensões a alternativo.
Por outro lado, intervenções como Bird Song, instalação vídeo e Information Overload Unit souberam impressionar pela linha realmente alternativa que conseguiram explorar.
The Handshake Fracasso, a obra da Associação olfactopelaforma que ganhou o prémio de jovens criadores na área do vídeo em 2004, voltou a ser apresentada ao público entusiasta desta iniciativa.
Apesar de não ter tido a adesão que provavelmente mereceria, o Festival Mau promete regressar e contribuir para a criação de produções alternativas e para a educação de públicos com um sentido de gosto mais eclético que arrisquem participar numa iniciativa que fuja ao gosto imposto pelas modas vigentes. Para o ano há mais e espera-se não só da parte do público, mas sobretudo da dos criadores algarvios, o risco de abraçar um festival alternativo desta dimensão.