Sunday, February 27, 2011

A Idade Maior


Depois de várias curvas na estrada chega-se a um caminho no qual não se vislumbram encruzilhadas nem entroncamentos. Apenas uma longa recta com fim anunciado. É o caminho a que se chega depois da reforma, quando se chega à conclusão de que o melhor será ir para casa e deixar os mais novos seguirem com a sua vida. Ou a altura em que se atravessa um país, nem se seja num cortador de relva, para nos reconciliarmos com as pessoas que valem a pena. Ou quando acordamos dos nossos sonos de ilusão e nos apercebemos de que tudo era mentira.
O Teatro Municipal de Portimão programou para esta semana dois filmes paradigmáticos do sentimento da velhice: “Vou Para Casa”, de Manoel de Oliveira e “Uma História Simples” de David Lynch. Os espectáculos de Teatro foram da responsabilidade da recém formada Companhia Maior, que reúne actores e bailarinos profissionais com idade superior a 60 anos, e o grupo de teatro sénior da Junta de Freguesia de Portimão. A Companhia Maior trouxe o espectáculo Bela Adormecida, encenado por Tiago Rodrigues. Segundo a produção, “Bela Adormecida é uma história sobre a passagem do tempo, o renascimento e as segundas oportunidades. É possível acordar num tempo que não é o seu e torná-lo seu?, pergunta-nos esta ficção. Será sequer possível que o presente seja pertença de alguém? E que lugar reserva o mundo para aqueles por quem passou um século de sono, enfeitiçados, e que agora acordam no futuro? Na nossa Bela Adormecida talvez não haja feitiço e não tenham permanecido jovens aqueles por quem o tempo passou. Talvez tenham estado acordados todo o tempo e apenas sintam que renasceram, pelo simples exercício de evocar a memória.” Este é um trabalho sobre o tempo e a nossa relação com esse grande escultor, de acordo com o eufemismo de Yourcenar. O príncipe é um velho que está sentado a uma secretária escrevendo as suas memórias. Queixa-se das dores que as suas raízes lhe causam, impedindo-o de dormir. Descobre que quanto mais dorme mais se esquece e decide escrever tudo para que a memória permaneça. De repente entra numa dimensão da memória onde o regresso é possível mas num outro corpo. O príncipe entra no palácio da princesa Aurora e encontra toda a gente a dormir. Velhos à espera de serem acordados. À espera do beijo que nunca chegou, da dança que nunca aconteceu, do olhar que nunca se cruzou. O príncipe beija Aurora e, à semelhança do conto para crianças, todos os seres que habitavam o palácio despertam com o poder daquele beijo. O sopro da vida e da memória. A mente desperta jovem num corpo envelhecido. O corpo já não responde com a velocidade do desejo mas o prazer da descoberta é o mesmo. Os velhos, idosos, como é politicamente correcto tratar as pessoas com mais de 60 anos, vão desocultando os seus apoios, as cadeiras, retirando os panejamentos que o tempo foi colocando. Panos atrás de panos são retirados e dobrados, deixando ver a verdadeira natureza dos suportes dos corpos. Aurora, cheirando a almíscar, atrai o príncipe. Com a elegância de primeira bailarina ao longo de anos na Companhia Nacional de Bailado Kimberley Ribeiro rodopia pelo palco extasiando o príncipe. A sua memória é o seu corpo, que transcreve para um alfabeto próprio tudo o que capta. Todos os que partilhavam o palácio com a princesa Aurora dançam na esperança de recuperar a juventude perdida. Enrolam os fios da vida que desperdiçaram e rodopiam com um olhar de adolescente deslumbrado. E com eles, o espectador recupera a ilusão. No final o príncipe entrega as suas memórias a Aurora, que as traduz para a sua metalinguagem orgânica e sai desse mundo paralelo para a realidade da dor. As memórias doem, mas são preferíveis à ilusão, ao mundo de sonho e encantamento que é a Arte, tão bem simbolizado pela imagem projectada do palácio-centro-cultural-de-belém. Tiago Rodrigues soube explorar as capacidades e as diferentes proveniências artísticas dos seus actores, embora o texto tenha parecido denso e longo. O recurso à fada má como ponto do mestre-de-cerimónias que se esqueceu de a convidar pareceu um recurso brilhante porque apontava para uma simbologia do mal que a culpa carrega ao longo da vida.
Profissional, sem falsos moralismos, com a carga dramática adequada, este trabalho foi um exemplo do que se pode explorar com actores que têm tudo a ensinar com a sua experiência e nada a perder.
O espectáculo Temporalidade, a que a encenadora Sofia Brito denominou performance, foi interpretado pelo grupo de teatro Sénior da Junta de Freguesia de Portimão. Com base num texto de Manuel António Pina, de Sofia Brito e das memórias dos actores o espectáculo percorre os fios das memórias mais agradáveis dos seus intérpretes. Os actores cantaram, desafiaram o público, dançaram, recordaram o primeiro beijo, o baile da vassoura e as cartas de amor. No limiar da memória ficou o Stabat Mater de Vivaldi que simbolizou o sofrimento das mães que caem perante a dor dos filhos mas que são amparadas pela solidariedade das outras mães. Um momento bonito que apontou para o sofrimento que é suavizado pelo ombro solidário de uma amiga. Assim como a cena dos quatro homens a ler o jornal ao som de anúncios populares nos anos 60 que estava muito bem conseguida. Mas no limiar ficaram as mágoas de que é feita uma vida completa. Um vestido de noiva com que se sonha ao som de Moon River, a canção que Audrey Hepburn imortalizou, aponta para os amores impossíveis e para noivas que nunca envergaram o seu vestido de sonho. No limiar ficou o desgosto de uma carta de amor que se atrasou um, dois, três dias, até que chegou um aerograma anunciando o fim da correspondência amorosa. No limiar da vida ficou o lado sombrio, as memórias pesadas, ficando um espectáculo incompleto porque irreal. Os actores tinham no olhar o brilho da irreverência e da saudade de outros corpos e conseguiram dar dinamismo ao texto. Mas deixaram de lado a matéria de que são feitas as rugas: a mágoa.
Este foi um exemplo interessante de partilha entre uma proposta de uma companhia nacional profissional e um grupo de teatro não profissional de âmbito regional. No final houve uma partilha de experiências e saberes e todos ficaram a ganhar. E abriram-se novos caminhos em cada estrada.

Tuesday, December 14, 2010

A guardiã dos sem abrigo


Sófocles, dramaturgo grego, escreveu há 26 séculos a tragédia Antígona. Uma obra prima da dramaturgia que põe em discussão o conflito entre a lei natural, interiorizada nas consciências, e a lei humana, escrita, criada para defender os cidadãos. Janusz Glowaski, dramaturgo polaco, escreveu em 1994 o texto Antígona em Nova Iorque. Uma reflexão sobre a solidariedade que se constrói nas relações entre os sem abrigo e os desamparados da vida. Figueira Cid, a partir da tradução de António Conde, encenou um espectáculo tocante, num espaço não convencional, a ermida de S. Bartolomeu, onde o público partilha do desconforto que invade de forma constante os sem abrigo. Quando o público chega ao sítio da representação é conduzido ao interior de uma capela em ruínas. Está relativamente protegido por um tecto trabalhado, umas mantas azuis escuras e uma protecção em plástico transparente que o separa da rua. Quando o espectáculo começa um pano corre, tornando opaca a vista para o lado de fora. O local protegido dos espectadores é invadido por um agente da autoridade, um zelador da lei, (Figueira Cid) que, qual Creonte, ao som do símbolo norte americano Bruce Springsteen, explica as vantagens da democracia e de um sistema que impõe uma lei igual para todos os cidadãos. O presidente da câmara está sujeito aos mesmos condicionalismos legais de um qualquer cidadão sem abrigo. O fiel zelador da ordem afasta-se e, através da tela, como se de um filme se tratasse, o espectador pode vislumbrar, dentro do seu conforto, a tragédia vivida diariamente nas ruas. Na parede das ruínas é projectada uma imagem das sombras dos arranha-céus de Nova Iorque. Um homem ouve, sentado num banco de jardim, o tema “Strangers in the nigth”. É de noite e usa umas roupas andrajosas. Chamam-lhe Sasha, um pintor russo interpretado pelo actor António Albernú. Faz-se acompanhar do seu parco universo de pertences, contido numa caixa de cartão. Um outro homem, o Pulga, interpretado por Pedro Estima, junta-se-lhe, entoando uma conversa sem nexo. Por fim chega uma mulher, Anita, interpretada por Lucília Raimundo, conduzindo um carrinho de compras, repleto de objectos dispersos, recuperados de sobras alheias. Pelos diálogos percebe-se que há uma relação muito própria entre os três. Se bem que manifestam uma certa hostilidade latente mostram, por outro lado, uma preocupação e um cuidado com cada um, como se pertencessem a uma espécie de irmandade. É essa relação de adopção mútua dos diferentes dá início à trama. Sabe-se que um sem abrigo morreu. Foi levado por uma ambulância. E agora, qual será a sua última morada? Onde poderá descansar? Creonte confronta novamente o público com esta informação formal, rigorosa, isenta de qualquer fundo afectivo. Um sem abrigo morreu e será enterrado dignamente num local definido pelo Estado. Esta é a Lei, é preciso que se faça cumprir. No parque as convicções são outras. O sem abrigo deve repousar num local onde os seus o possam visitar. É então que, por 19 dólares, se engendra um plano de busca, captura e recuperação do cadáver do amigo / irmão que partiu. Os dois homens, instigados pela mulher, vão procurar o corpo de Paulie, o sem abrigo morto. Trazem um corpo anónimo que reconhecem não ser o amigo que procuram. Mas Anita exulta de alegria e prepara os ritos fúnebres para enterrar dignamente o corpo do seu amigo no parque. Ao pé dos seus, onde os amigos lhe podem prestar homenagem de quando em vez. O polícia corta novamente a acção e o discurso narrativo centra-se nos acontecimentos que se seguiram ao enterramento do corpo do sem abrigo no parque público. O corpo é desenterrado, trasladado para um local onde os prisioneiros enterram os cidadãos sem identidade. Anita, qual Antígona, enfrenta Creonte e, perante a sua impotência, enforca-se na vedação do parque. Nesta história não havia um Hémon para perpetuar a felicidade, não havia um irmão morto e outro à mercê das aves de rapina. Havia a solidariedade daqueles que, tendo perdido tudo, não permitem que lhes roubem a dignidade de enterrar um irmão. E havia o olhar do público, impotente, acompanhado o rumo dos acontecimentos. No teatro como na vida, a pobreza continua encoberta pelas folhas caídas dos parques e pela indulgência colectiva de uma razão social que se torna impune perante o sofrimento alheio.
O espectáculo Antígona em Nova Iorque, encenado por Figueira Cid coloca-nos na posição desconfortável de seres socialmente conscientes mas que olham para a tragédia da pobreza e da exclusão social através de um filtro criado por mil e uma justificações, qual delas a mais convincente. Qual delas a mais falível.
Antígona em Nova Iorque assume-se como uma lição de cidadania dada pelos enteados da vida. Um excelente trabalho e um exemplo do serviço que o teatro deve prestar ao seu público.

Sunday, November 28, 2010

Ao Luar


Máscaras de madeira escondem rostos carregados de trabalho e dor pelo duro trabalho da terra. Uma mulher monda, um homem cava a terra. Os gestos são precisos e a técnica da máscara dá ao corpo uma outra identidade. Os espectadores reconhecem-se naquela realidade rural. As máscaras saem de cena e dão lugar ao actor César Matoso, que canta o amor e o enamoramento por uma camponesa através de um tema popular. É a introdução para a acção, protagonizada por Célia Martins e Rui Penas, que interpretam dois comerciantes donos de uma banca de produtos que fazem parte de um certo imaginário rural. Desde melões e aguardente de medronho até pentes e espuma de barbear, tudo se encontra naquele pequeno reduto de sonhos antigos. Os comerciantes são vizinhos desencantados da vida. Ele é vendedor de produtos agrícolas e viúvo e ela, abandonada por um marido alcoólico, vende os pequenos luxos domésticos a que a população rural podia aspirar. Os seus encontros são desencontros de quem se sente atraído sem o querer dar a entender. Os três fazem parte da Companhia “Ao Luar Teatro”, recém criada em Março com o intuito de chegar às populações mais recônditas e envelhecidas. Neste trabalho a acção passa-se numa pequena população rural que vai vendo a vida passar devagarinho, ao ritmo das flores que crescem na serra e no barrocal.
A conversa entre os vizinhos dá azo a que os espectadores se transformem em potenciais compradores, abrindo-se o espectáculo a uma interacção pacífica e simpática. Os espectadores provam da aguardente, experimentam os perfumes de há 15 anos, seguram nos melões, avaliam os produtos. Os espectadores sorriem, tornam-se cúmplices desta abordagem amável.
Talvez encorajados pelo clima de entusiasmo que se criou junto do público os vizinhos combinam encontrar-se no baile da aldeia. Após alguns desencontros que intensificam o conflito acabam por se encarar, nervosos e aperaltados, pensando cada um para si mesmo que pode ser a última oportunidade de acenar ao amor e de envelhecer ao lado de um ombro amigo. O baile fica animado, sobretudo porque o público é convidado a dançar. O rodopio é tal e a confusão tamanha que as declarações de amor se perdem e dão lugar a um mal entendido que os leva a encetarem caminhos paralelos cujas vidas não se cruzam. As bancas continuam lado a lado mas os corações doridos pela presunção de uma recusa que afinal não passou de um engano.
A calma da vida lenta e pachorrenta é ameaçada por uma ameaça vinda de decisores longínquos. A aldeia de Entre Valados pode desaparecer perante a ameaça da construção de um aeroporto. Mas nem o medo comum aproxima os vizinhos, que vão envelhecendo lado a lado mas sozinhos, cada um em sua banca. Numa noite singular o vendedor de melões tem um sonho revelador pleno de fórmulas e enigmas. Encontra um frasco suspeito que resolve guardar, não vá a vida pregar-lhe mais partidas e ter de partir mais cedo.
Os anos passam e o peso da vida faz-se sentir no peso das costas dos vendedores de ilusões. Olham um para o outro descobrindo as esculturas que o Tempo marcou nos seus rostos, nos seus corpos. A ameaça do aeroporto continua a pairar e a ensombrar as vidas dos habitantes daquele pequeno lugar no seio da serra algarvia. Passaram 20 anos e a vida continua difícil e solitária. O fim aproxima-se e os vizinhos, já que não envelheceram juntos, resolvem experimentar o misterioso líquido encontrado após o enigmático sonho. Depois de o terem ingerido dá-se um milagre e os seus corpos voltam atrás no tempo, recuando aos 20 anos. E como uma segunda oportunidade não pode ser desperdiçada, resolvem acertar as suas vidas e juntar as vendas. O projecto do aeroporto fica sem efeito por questões burocráticas e o final é anunciado através de uma canção que predispõe todos a sair do espectáculo bem-dispostos e com vontade de voltar.
Por Entre Valados, escrito e encenado por Rui Pena, foi um espectáculo rigoroso, honesto, com forte influência da linha do grupo Teatro ao Largo, mas ajustado à realidade da serra Algarve. Um trabalho profissional que une dois actores experientes a um actor recém-formado num curso de formação profissional do Algarve, César Matoso, detentor de uma excelente voz e uma forte presença em palco. Um bom exemplo do serviço que o teatro pode fazer no Algarve.

Friday, November 26, 2010

O dia dos Prodígios


O público entra na sala principal do Teatro da Trindade e depara-se com um cenário que se impõe pela sua simplicidade e beleza, sem ser ostensivo. Uma plataforma que eleva a cena composta por tapetes, uma árvore típica do barrocal algarvio, ramos suspensos, uma janela que domina o olhar, uma carrinha escondida num canavial. De repente o palco enche-se de corpos que vão compondo a cena. Carlos Paulo, Cristina Cavalinhos, Diogo Morgado, Elisa Lisboa, Filomena Cautela, Hugo Franco, José Martins, Lucinda Loureiro, Luís Lucas, Maria Emília Correia, Maria Ana Filipe, Rogério Vieira e Teresa Faria levam consigo adereços que vestem a cena, compondo-a de um Algarve profundo e isolado do resto do mundo. Vilamaninhos é o lugar onde decorre a acção, descrita magistralmente por Lídia Jorge, na sua obra O Dia dos Prodígios. Com a poesia que caracteriza as suas descrições, a Carminho de Lídia Jorge é transposta para a cena por Filomena Cautela, fazendo lembrar uma figura de Lorca. Uma rapariga bela, filha de mãe solteira, que atrai o seu soldado através do seu cheiro. Lava as janelas, numa imagem belíssima, que causa a inveja das outras mulheres da aldeia. Por entre os ritmos do quotidiano a má-língua impera. E por entre os diálogos criados entre as personagens percebe-se a história de um Portugal triste, iletrado, com as mágoas da Primeira Grande Guerra e as feridas da Guerra Colonial. Carminha é madrinha de guerra de um soldado que a descobre por entre os cheiros doces das plantas aromáticas do barrocal algarvio de carrasco e tomilho. As duas mulheres, isoladas da aldeia no cimo do monte, não assistem ao prodígio protagonizado por Jesuína Palha. O prodígio que foi uma cobra ganhar asas e levantar voo deixou toda a aldeia presa no feito, deixando os desaguisados para segundo plano. A vida continua na sua lenta passagem pelos dias marcados pela lida das mulheres. Pelo bordado de Branca, que borda uma colcha com um dragão para entreter os dias e esconder dos vizinhos os dedos de Pássaro Volante marcados na sua cara. Mas como ela mesma descobre, "Ninguém se liberta de nada se não quiser libertar-se". A memória da Guerra colonial revela-se mais cruel quando a mãe de Carminha descobre numa folha de jornal a notícia da morte do formoso soldado, afilhado de guerra da sua filha. Os tempos difíceis levaram todos os filhos de Teresa e José Júnior a ganhar a vida para fora do país. A aldeia fica quase despida de gente jovem. A mula de Pássaro Volante foge, Macário toca e suspira de amor por Carminha, que não consegue deixar de pensar no seu soldado, a taberna recebe os mesmos homens que contam as mesmas histórias. Até que um dia um soldado irrompe pela aldeia anunciando uma revolução e o fim da guerra. A aldeia continua a cismar no seu prodígio, não percebendo o que as novas do soldado lhe pode trazer. E continua a viver atrás do tempo, tomando como mote a expressão: “Ninguém se liberta de nada se não quiser libertar-se”. Branca conseguiu libertar-se através do seu dom de vidente e Carminha desistiu de si, casando com Macário, depois deste a ter atacado. Esta obra é um retrato desapiedado da ilusão que foi a euforia da revolução. Da crença no esclarecimento global criado por decreto ou por osmose.
O espectáculo teve um excelente leque de actores que contribuiu para uma revisitação mais próxima de um Algarve profundo, ainda desconhecido do resto do país. Uma homenagem às populações que vivem o isolamento a que são votadas nos locais mais inóspitos e a uma escritora consagrada que sempre soube imprimir poesia na situação mais crua: Lídia Jorge.
A acção decorre em Vilamaninhos, interior algarvio, não muito longe do mar, entre o Verão 1973 e a Primavera de 1974. Estamos no Portugal da guerra colonial: há uma madrinha de guerra e um soldado. Mas ecoam memórias da primeira guerra mundial e da implantação da república, e as pessoas desta pequena comunidade, que a emigração reduziu, parecem viver à margem do tempo, ocupadas em reviver o passado, presas em preconceitos ancestrais e conflitos caseiros. Até ao dia dos prodígios, o dia em que a aldeia vê uma serpente a voar...
Com a ironia deste texto de Lídia Jorge, muito próximo do realismo mágico, o espectáculo glosa as contradições tradicionais que estruturam e esclererosam o imaginário português.

Geometria para uma música


Os olhanenses foram brindados com uma noite especial. Dia 12 de Junho o místico chalé que o poeta João Lúcio mandou construir em Marim abriu as suas portas para uma partilha entre várias artes. Numa das alas da geométrica casa de Marim Paula Cardoso Rocha interpretou alguns temas musicais da sua autoria, que tocou ao vivo, acompanhada pelo contrabaixista Zé Eduardo. Outra ala da casa foi ocupada pela pintura de Graça Moniz, bisneta de João Lúcio. No centro da casa, onde emerge uma cúpula em forma de pirâmide de vidro, ecoou a voz da poesia interpretada por António José da Silva e, um pouco por todo o lado, dentro e fora da casa, duas dançarinas enrolavam e desenrolavam um fio de Ariadne, convidando o público a resolver o labirinto deste palacete que, desde sempre, foi dedicado às artes.
Toda esta movimentação ficou registada e dará origem a um documentário, realizado por Ricardo Resende e a um cd que irá ser produzido pela Associação Grémio das Músicas.
O público acorreu ao chamamento e encheu por completo esta mansão que sempre causou curiosidade nos habitantes de Olhão. Foram recebidos pela voz de António José da Silva que, do alto da varanda, disse poemas de Raul Brandão, Miguel Torga e João Lúcio. As bailarinas saíram pelas janelas, iluminadas pela centelha da inspiração, simbolizada na vela que acenderam no início do espectáculo e convidaram o público a visitar esta ancestral morada das artes. Depois do recital de piano e contrabaixo o público pôde usufruir de uma cálida e tranquila noite estival, apreciando a arquitectura e o prazer de uma boa conversa em torno das artes. Há noites assim: que se deixam visitar por um núcleo de criadores e artistas de excelência que se vão revelando no Algarve.

O pianista do oceano


A MITO, Mostra Internacional de Teatro de Oeiras, promoveu entre os dias 3 e 13 de Setembro uma temporada recheada de teatro para todos os gostos. Espectáculos para o público em geral, espectáculos de rua, espectáculos destinados ao público infantil e ainda mesas redondas e formações têm desinquietado as noites de Setembro na vila de Oeiras.
Um dos espectáculos que conseguiu surpreender o público que lotou o auditório do Teatro Independente de Oeiras foi produzida pelo grupo “Peripécia Teatro” e baseou-se no texto Novecentos, de Alessandro Barico. O texto conta a história de um pianista que nasceu a bosdo do Virginian, um paquete que fazia a rota dos emigrantes e milionários entre a Europa e a América, e nunca pisou terra.
Encenado por Noelia Dominguez, o espectáculo contou com o desempenho dos actores Sérgio Agostinho e Angel Fragua, acompanhados por dois excelentes músicos: Luis Filipe Santos e Tiago Abrantes.
O espectáculo começa com dois homens envelhecidos a falar sobre a sua vida. E como a vida é a memória, a memória traz consigo a capacidade de reviver outras vidas, recontadas e reescritas à medida que os anos vão passando. O espaço era preenchido por caixotes da madeira que se transformavam em vários objectos, e por uma cómoda de três gavetas. A história de um homem que viveu sempre no navio onde foi encontrado recém-nascido e conseguia retirar sonoridades únicas do piano, foi representada por estes quatro homens de forma notável e divertida. Os actores, acompanhados pelos dois clarinetistas cruzam várias técnicas teatrais que vão desde a criação do espaço imaginário e a assunção do objecto num universo de verdade, até à técnica do clown e ao café teatro. A história de Novecentos, com toda a carga poética de Alessandro Barico, foi trabalhada dramaturgicamente por José Carlos Garcia e contada em três línguas, mostrando a multiculturalidade que se encontrava nos navios que faziam o transporte dos emigrantes para a América. A voz, o corpo, o olhar, fizeram da história de Novecentos um conto emotivo que não cai no melodrama de lágrima fácil. Pelo contrário, faz com que o espectador se divirta enquanto está a ouvir a história dramática de um homem que nunca saiu do navio de onde nasceu. Atreveu-se uma vez, mas assustou-se com o infinito presente nas ruas, nas casas, nas mulheres bonitas. Preferiu a finitude das teclas do piano e do seu oceano. É notável a cena em que um conhecido músico de jazz sobe ao navio para enfrentar um duelo musical com Novecentos. A ambiência de duelo num western dá o mote para uma coreografia em que Novecentos mostra que é um músico autodidacta e não convencional, indiferente aos desafios habituais dos compositores e intérpretes da sua época. O momento em que os dois velhos músicos recordam a morte de Novecentos é repleto de poesia. A carga nostálgica termina no momento exacto em que a nostalgia daria lugar à tristeza. Novecentos decide afundar-se juntamente com o paquete que o viu viver e, no momento da explosão os dois velhos músicos recriam a hipotética conversa que Novecentos teria com S. Pedro, pedindo-lhe para entrar no Paraíso. O público diverte-se, sem deixar de sentir uma simpatia profunda pelo músico dos oceanos.
Uma companhia composta por dois actores espanhóis e um português e que consegue trazer para a cena toda a vivacidade e paixão que caracteriza o espírito latino no seu melhor. Os músicos conseguiram construir um espectáculo paralelo que, acompanhando o texto, contribuía para o público integrar a emoção procurada no relato da história de Novecentos. Um mito tornado realidade, a não perder quando se cruzar connosco em terras algarvias.

A preservação da língua como uma questão ética


Por vezes o sublime é um sentimento que custa a dissolver-se no universo fragmentado das sensações humanas, custando, por isso, a impor-se ao nível racional. Turismo Infinito, produzido pelo Teatro Nacional de S. João, é o paradigma de um espectáculo que a memória retém como pertencendo à categoria do sublime.
A cenografia de Manuel Aires Mateus, arquitecto cujo trabalho foi muito recentemente distinguido com o prestigiante Contractworld Award, é o que se impõe de forma quase agressiva ao espectador. Duas plataformas enormes, dando a ideia de uma estrada a caminhar para o infinito, anunciam o reflexo uma da outra, ao mesmo tempo que revelam a ideia de desequilíbrio. A plataforma de baixo abre-se em fendas mágicas, desocultando heterónimos pessoanos, que se assumem como entidades autónomas. O desenho de luz de Nuno Meira é de uma sensibilidade extrema, conseguindo captar os diversos matizes do universo pessoano em questão naquele texto. As personagens eram todas interpretadas por actores de primeiríssima água, fazendo justiça a Pessoa. O espectáculo é todo ele uma viagem intensa e profunda ao difícil universo pessoano. A cenografia abriga no seu interior o mundo subterrâneo do guarda-livros Bernardo Soares, do engenheiro naval Álvaro de Campos, da eterna namorada Ofélia Queiroz e do próprio mentor Fernando Pessoa. Alberto Caeiro já surge num plano superior, que paira acima dos outros fragmentos de personalidade e a corcunda Maria José, o único heterónimo pessoano feminino que se conhece, rasteja enquanto lê a carta ao carpinteiro, num registo tocante da actriz Emília Silvestre. Impressionante a forma como modifica o registo da leitura, subserviente e vitimizante, para uma postura de maioridade moral, perante o seu destino. João Reis está assombroso na interpretação de Álvaro de Campos. Com uma voz poderosa, que mostra a essência do excesso dado áquela personagem. Luís Araújo mostra-nos um Alberto Caeiro bucólico e sonhador, que se liberta das sombras e integra o mundo de forma panteísta, misturando-se com o poder da verbalização da beleza.
José Eduardo Silva traz-nos à memória o guarda-livros contra o qual continuamente lutamos. O inconformado que vocifera contra o patrão Vasques mas que tem medo de ousar uma mudança mais radical na sua vida. E o próprio Fernando Pessoa, interpretado por Pedro Almendra, que faz a intersecção de todas as personagens. Em todos eles se sente a beleza de uma dicção perfeita, que não é forçada, mas surge como um veículo natural do pensamento pessoano. Num tempo em que a língua portuguesa está continuamente a ser maltratada por entidades com responsabilidades acrescidas na sua transmissão, como locutores, jornalistas e até professores, é quase uma questão ética a necessidade da manutenção do uso correcto da Língua Portuguesa. Principalmente quando se trata da transmissão de ideias de um poeta que se tornou o maior embaixador da língua portuguesa no mundo.
“Sou a cena viva onde passam vários actores representando várias peças.” A frase que Bernardo Soares escreve pelo punho de Fernando Pessoa é uma das muitas epígrafes possíveis de Turismo Infinito. Porque as personagens navegam no infinito mar de sentidos e sensações do universo pessoano. Porque se encontram todas no “porto infinito” para onde as linhas paralelas se encontram, porque as personagens trocam entre si o sentido de ser, cruzando sombras e interseccionando sensações. O ritmo do espectáculo, lento, é imprescindível ao saborear das palavras e dos sentidos contidos nos textos de Pessoa e dos seus heterónimos.
Também Ofélia Queirós marca a sua presença no universo quase esquizofrénico entre Álvaro de Campos e Fernando Pessoa, quando comenta a carta de despedida do seu namorado, ditada ao engenheiro naval.
O guarda-roupa, cinzento, mostra a indefinição das personagens, fugindo ao contraste habitual do preto e branco, utilizado na poética de pessoa.
Este é um daqueles espectáculos que temos obrigação de ver, por foi superiormente encenada e magistralmente interpretada. É uma oportunidade quase única de ver um espectáculo que agarra o público sem que este tenha oportunidade de respirar, tantos são os estímulos estéticos de que se serve. A sua matéria prima assenta numa conjugação perfeita dos actores, da cenografia, da luz, da articulação das palavras, tudo orquestrado pelo talentoso encenador Ricardo Pais.
Um perfeito tributo a Pessoa. Um espectáculo inesquecível.