Friday, November 26, 2010

A escola da vida


Depois de ter percorrido as escolas da região com espectáculos que obrigavam a uma reflexão e posterior discussão sobre problemas como as drogas duras, a educação para a sexualidade, o bullying, chegou a vez do álcool. A ACTA, companhia de teatro do Algarve, vai iniciar a digressão pelas escolas do Algarve com o espectáculo Mais um Shot?, sobre o problema do álcool na adolescência. Com texto de Elisabete Martins e Bruno Martins, Mais um Shot? assume-se como um espectáculo interactivo que pretende promover a discussão sobre a relação dos jovens com o álcool. Incentivado socialmente desde tempos ancestrais o álcool desde cedo se tornou um problema devido à falta de controlo que os consumidores assumem amiúde.
Bruno Martins, Elisabete Martins, Nádia Gonçalves e Nuno Silvestre são os actores que dão vida a quatro personagens jovens. Apresentam uma séria de situações e passam a bola ao público para que sejam os adolescentes que lidam de perto com este problema a apresentar soluções e propostas de representação. À semelhança de outros trabalhos anteriores destinados ao público escolar, os alunos dividem-se em grupos e completam as histórias contadas pelos actores da ACTA. Neste caso, a história de base é a de quatro adolescentes que se preparam para ir a uma festa. Há uma rapariga que gosta de um rapaz mas a sua timidez impede-a de assumir o seu interesse. Há um rapaz que gosta de disfarçar a sua insegurança com comportamentos e comentários excessivos, quer em relação ao seu envolvimento com raparigas, quer em relação às suas façanhas que incluem bebedeiras em festas. Há um adolescente que não bebe mas se diverte e uma outra rapariga que bebe moderadamente e gosta de se divertir. Estas quatro figuras dão origem a uma multiplicidade de histórias que vão sendo criadas pelo público a partir do momento em que os jovens se encontram na festa. Os panoramas são vários: há um cenário em que a rapariga deslumbrada pelo rapaz entra em coma alcoólico, há uma versão em que entram todos alcoolizados num carro e sofrem um acidente de viação, há outra situação, menos realista, que é a de uma feste em que não há álcool mas todas se divertem e há a criação de uma outra história em que o rapaz e a rapariga se envolvem e na manhã seguinte não se lembram do que lhes aconteceu. Os alunos, para além de recriaram essas versões através de propostas suas, criam também uma lista elencando os problemas que a ingestão excessiva de álcool pode provocar. Estas pequenas dramatizações são intercaladas com explicações mais técnicas por parte dos actores da ACTA sobre as consequências do abuso do álcool e com uma ferramenta teatral que é o recurso ao hot sit. O actor senta-se numa cadeira especial em que é obrigado a responder, como personagem, a todas as questões que lhe são colocadas. No final o público decide o desfecho da história e este espectáculo é apenas uma provocação para que a discussão se prolongue nas salas de aula, orientados pelos professores, em debate com os colegas, para que aos poucos a prática se altere e o hábito socialmente aceite de beber um copo de vinho não seja atropelado por comportamentos desajustados que se podem tornar numa sentença de algo muito pior.
Este espectáculo, encenado por Elisabete Martins, conta com a participação de dois actores que concluíram recentemente o Curso Profissional de Artes do Espectáculo variante Interpretação da Escola Secundária Pinheiro e Rosa de Faro, Nádia Gonçalves e Nuno Silvestre. Com um desempenho que não ficou atrás dos outros dois actores, estes elementos mostram que a nova geração de actores está aí pronta para dar cartas e contribuir para o desenvolvimento da cultura ao nível regional. Para bens à estrutura, que decidiu apostar nos novos valores formados no Algarve e parabéns aos novos actores pela força e pela coragem de enfrentar diariamente um público difícil. Depois da escola de actores, a escola da vida.

O marinheiro


O Grupo de Teatro Penedo Grande, de S. Bartolomeu de Messines, levou à cena o espectáculo O Marinheiro, a partir do texto de Fernando Pessoa. Depois de uma digressão pelos Açores o grupo de Messines actuou no Pátio B@r, em Faro. Dirigidas por Rui Cabrita, as três veladoras foram interpretadas por Célia Ginó, Lisete Martins e Martas Vargas. Num ambiente intimista, muito próximas do público, a três actrizes reinventaram a escrita de Pessoa descobrindo-a na emoção dos seus corpos, para depois a devolver ao público carregada de um outro simbolismo. Pessoa escreveu um drama estático, num ambiente de imobilidade e irrealidade no qual se recusa a realidade, lançando a ponte para um universo onírico. Na leitura dramatúrgica de Rui Cabrita a imagem estática das veladoras transfigura-se no desassossego das suas almas, dando corpo à inquietude e à necessidade de partilhar as suas vozes interiores. O caixão com a donzela de branco foi substituído por um manequim suspenso, de vestido branco, que se impõe na cena. A iluminação, própria de um velório, é quase circunscrita a velas e a uma intensidade luminosa muito reduzida, por parte dos projectores. Como recurso que vai provocar um distanciamento Rui Cabrita utilizou uma gravação em filme onde se via um marinheiro sufocando a ansiedade no fundo da sua banheira. Sufocando sob o peso da morte que deixou na ilha perdida. Rui Cabrita, à semelhança do poeta-dramaturgo, é o marinheiro que se perdeu numa ilha longínqua. Uma perda que resulta da fragmentação de uma identidade que, à semelhança da ilha, é perdida. Uma fragmentação que, à semelhança de um espelho partido, reflecte as imagens repartidas dos heterónimos convertidos em veladoras. As veladoras, fiéis ao texto de Pessoa criaram uma autêntica hermenêutica do corpo à medida que o poema dramático ia avançando. À pergunta “Quem é que eu estou falando?... Quem é que está falando com a minha voz?...” o corpo responde envolvendo-se no espaço num bailado singular. A introspecção intensa transmuta-se numa expressão corporal singular que aproxima a palavra ao corpo do espectador. A fuga da palavra desemboca no encontro do corpo. “É belo falar do passado. Porque é inútil e faz tanta pena.” E se a boca cala o presente o corpo avança para o futuro. Principalmente o corpo de Marta Vargas que descobre todos os recantos do pequeno espaço de representação e, à semelhança das ondas do mar que diz ter sonhado, ondeia e irrompe expressivo quando diz: “Há ondas na minha alma... Quando ando embalo-me.”
É sobretudo tocante sentir a emoção destas três mulheres quando partilham o texto e o corpo com os espectadores. No final, quando assumem o vestido branco idêntico ao da jovem donzela que estão a velar mostram o desespero da paralaxe ontológica ao mesmo tempo que gritam: “Estou a ouvir-me gritar dentro de mim mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta.”
Lisete Martins está imponente neste trabalho, Marta Vargas impressiona como actriz na alma e no corpo e Célia Ginó é corente no seu trabalho de veladora mais circunspecta mas não menos implacável.
Um momento tocante que desoculta três actrizes algarvias e faz justiça às palavras do poeta. Um trabalho intenso e não menos belo em que Rui Cabrita partilha com o seu público fragmentos da sua alma. Como partilha nas notas de encenação: “Caído o corpo negro a alma aclara-se com igual trajar de branco. Musa tão triste e tão vida charco da memória da água... da vida da árvore afogada de pé sem tempo da morte do passado e do tempo a água só. Induzida na memória pelo som da banheira, o marinheiro na banheira o marinheiro continuando a sua viagem sem porto deixando uma mulher morta vivendo em sua memória de noite uma imagem projectada na água e nos montes do pensamento uma alma consciente da morte do fim de algo, uma mulher que vai descobrindo com o fluir de um sonho a ausência do real uma cabeça que nunca perceberá porque não há relógio nesta noite três corpos dessa mulher que se queda no fim morta num vestido branco suspensa que lhe faz lembrar ela ao marinheiro que sai da saia quando outro dia raia de manhã numa praia de um duche liquidifica-memórias ele parte no ir partindo na procura comum do pão da vida que resta.”
Um espectáculo que merece ser revisto num espaço mais adequado à prática do teatro.

A vertigem Meridional


O espectáculo VLCD é uma fábula sobre o poder que o Tempo detém sobre ser humano. Assente no rigor da técnica da máscara, os quatro actores, Carla Maciel, Fernando Mota, Luciano Amarelo e Miguel Seabra mostram a simultaneidade e a discordância de uma vida a vários tempos. A encenação de Nuno Pino Custódio mostra um espaço delimitado por um círculo vermelho assumindo-se no chão. Os actores estão fora do círculo, sentados, preparando a sua entrada. A um tempo, levantam-se sem haver nenhum sinal exterior que lhes dê a noção de simultaneidade, a não ser a concentração. Entram no círculo e passam a ser personagens controladas pela velocidade (vlcd). Carregam malas de viagem de diferentes tamanhos, prontos a partir para as suas jornadas pessoais, que se cruzam acidentalmente com outros transeuntes. Experimentam a vertigem da velocidade através de uma linguagem inventada que nos conduz para um universo em que as crianças inventam os seus próprios signos e as suas próprias significações.
VCLD mostra-nos a incapacidade que o Homem tem de controlar a sua relação com o Tempo. A páginas tantas as malas de viagem transformam-se num escritório/fábrica, no qual o ritmo é marcado por uma bateria cenografada num dos malões de viagem. Os viajantes são apanhados numa vertigem de velocidade da qual não se conseguem libertar, mostrando o destempero de uma sociedade que exige cada vez mais ao nível do ritmo de produção. O ritmo pára e somos confrontados com as pequenas rotinas quotidianas, executadas descompassadamente. Dentro dessas pequenas rotinas exalta-se o pormenor da fila na qual se tem de esperar para qualquer coisa: para um transporte, para o pão, para um afecto. Uma deslumbrante solução de encenação para a ideia do texto Line, de Israel Horowitz, desta feita levada a cabo com aguçado engenho. Os transeuntes deambulam de fila para fila, sem saberem muito bem qual é o objectivo. Simplesmente, está-se na fila porque todos os outros também estão. Miguel Seabra tem um momento em que evoca o distanciamento brechtiano, explicando em breves segundos o que está a acontecer em palco. Mas a cena continua e as relações entre as pessoas começam e acabam em breves momentos. Com um domínio admirável do corpo os quatro actores brincam com o conceito de velocidade, ora acelerando o ritmo, ora atrasando-o até a um elevado nível de lentidão. Mostram, através do corpo, como o tempo pode espartilhar o homem, desde o seu trabalho até aos seus sentimentos. Pode, enfim, dar-se ao luxo de adquirir produtos de marcas reconhecidas internacionalmente. Mas a que preço! Segundo a produção do teatro Meridional, “Falar em tempo, hoje, significa acima de tudo compreendê-lo em velocidade, impondo-se agora uma nova ordem do mundo: o mais capaz é o mais rápido. Independentemente da qualidade, do valor intrínseco, da beleza, do afecto, o melhor é o que chega primeiro. Mas é assim também que se passa ao superficialmente pelas coisas (senão pela própria vida), sem aprofundamento algum, sem vivência interior, sem a essência imaterial dos objectos que suscitaram algures o nosso interesse. Pouco ou nada se vivencia – nem mesmo a relação com a experiência tida. Anda-se tão apressado que tudo e todos os que possam atrasar essa marcha se transformam no inimigo. E, assim mesmo, nesse pressuposto, se fez toda uma Revolução Industrial, onde o ser humano se tornou ele próprio um bem que tem que circular para que esta grande engrenagem nem sequer sofra a fricção de um pensamento. Comer depressa, dormir depressa, amar depressa... transformou as pessoas em casas com janelas abertas para a rua mas sem alguém a espreitar por elas. Ruas que, afinal, mais não são que perfeitos túneis de “A a B” onde seres humanos se projectam, quais comboios rompendo, rompendo, rompendo furiosos a paisagem e por isso rasgando-a de um possível desenho onde ainda se pudesse sonhar. Mas com o aumento da esperança de vida, nos últimos 150 anos, a questão da felicidade tornou-se presente (e muito premente). Há que ser feliz, aqui e agora, não numa vida depois da morte. Há que ser feliz, agora que por volta dos quarenta anos existe todo um tempo de vida que, do ponto de vista da reprodução da espécie, se tornou redundante.”
Todo este vórtice em direcção à velocidade máxima possível foi acompanhado por um suporte sonoro absolutamente admirável, da responsabilidade de Fernando Mota. Do Lugar onde estou já me fui embora é uma metáfora que ajuda a reflectir no papel do Homem enquanto portador de sentido e, em última instância, sobre o sentido último da vida humana. Mais uma vez o Teatro Meridional não decepcionou o seu público: é sempre um prazer admirar o trabalho de quem arrisca dentro do absurdo, sem a rede de um texto assente na palavra. Foi importante parar para ver. Excelentes interpretações, uma brilhante encenação. É importante parar para reflectir. Sobre a vida e sobre a maneira de fazer Teatro. Mais uma vez. Sempre.

A alma de Lorca


O Teatro da Terra, estrutura recém criada em Ponte de Sôr, trouxe a Loulé, por intermédio da DeVIR, a produção A Casa de Bernarda Alba, de Lorca, encenado por Maria João Luis. Este espectáculo foi apresentado no convento de Stº António, em Loulé, espaço privilegiado para devolver ao espectador as emoções que este texto encerra. O interior da antiga capela do convento foi o cenário ideal para apresentar a casa de Bernarda, uma matriarca fria e tirana, que encerra desumanamente as filhas em casa, em pleno desabrochar sexual. Três carrinhos de linhas gigantes, uma poltrona e seis cadeiras de espaldar alto compõem a cenografia. Pôncia, a criada, as cinco filhas, Bernarda e a sua mãe, conviveram com aquele espaço como se de facto fosse a sua casa. Na segunda parte do espectáculo o público foi conduzido para um claustro em ruínas, que serviu na perfeição para o desenlace da cena final. A Casa de Bernarda Alba é a ultima peça de Frederico Garcia Lorca , escrita em Junho de 1936, ano em que o escritor viria a ser assassinado. Para Maria João Luis, esta história é «uma história aparentemente simples, é, no entanto, um autêntico bilro de intenções e mensagens, onde destaco a violência e a agressividade. Tão humanos que nós somos. Tão capazes de tudo. Uma família fechada, uma sociedade fechada, cheia de padrões. Não vou aqui discuti-los, mas sei que é preciso continuar, tal como Lorca, a analisá-los e, se preciso for, a intervir, usando aquilo de que somos feitos. Este texto fala-nos de violência, opressão, medo, humilhação e consequente revolta e poesia. Não estamos assim tão longe desta realidade escrita em 1936, ano em que o seu autor foi fuzilado. Continuamos como podemos, apesar de todos os dias nos chegarem notícias de violência e opressão. Continuamos como podemos, apesar de todos os dias nos chegarem notícias de violência e opressão. Continuamos como podemos. As palavras são pontes. Tudo o que se transforma a realidade do artista».
Nesta encenação a criada começa a lavar o chão ao som de uma canção de Lorca. Lava-o com raiva, com sofrimento, pondo em cada gesto a carga de um povo com fome. Uma cena tocante que prepara o espectador para o ambiente de violência que se vai seguir. Este texto de Lorca fala-nos de abusos de poder, de opressão, de sofrimento, de luta pela liberdade, de amor e de traição. Cada personagem procura, a sua maneira, a felicidade que lhe é negada por um mundo de tabus e por uma sociedade impregnada de regras. Pôncia, a criada velha, simboliza a ligação entre um mundo onde miserável onde se passa fome e o mundo da burguesia rural abastada, que compra rendas sem lhe dar préstimo. Baseada numa história real, esta peça leva-nos a uma viagem ao sufocante mundo das regras e da discriminação dentro da própria família, exercida por uma mãe tirana. Bernarda, que casou duas vezes, proíbe as filhas de saírem de casa após a morte do seu segundo marido. Jovens à procura de um motivo para se libertarem desta tirania, voltam-se contra a irmã mais velha, filha do primeiro marido de Bernarda que, por ter um dote maior, encontrou um pretendente. Angústias vai finalmente casar, aos 38 anos com o rapaz mais cobiçado da região. Esta decisão cria uma explosão de sentimentos que as actrizes souberam mostrar de uma forma verdadeiramente exemplar. A força de Lorca estava bem patente na representação de cada uma das actrizes com particular destaque para a força de Bernarda, interpretada pela actriz Custódia Gallego, para a sobrevivente Pôncia, interpretada pela actriz Ana Brandão e para a irreverência de Adela, a filha mais nova de Bernarda, interpretada pela actriz Diana Costa e Silva. A violência de Bernarda ajusta-se à violência dos sentimentos que estão oprimidos e prestes a explodir à mais pequena faísca. A faísca é a assunção da paixão de Adela por Pepe Romano, o afastamento deste pela matriarca, que leva ao suicídio da filha mais nova. A última frase da peça “A filha de Bernarda Alba morreu virgem”, mostra bem a submissão de uma sociedade hipócrita à aparência.
Lorca definiu assim o teatro: " 0 teatro é a poesia que sai do livro e se faz humana. E ao fazer-se, fala e grita, chora e desespera. 0 Teatro necessita que os personagens que apareçam em cena, levem um traje de poesia e ao mesmo tempo que se lhes vejam os ossos, o sangue. Tem de ser tão humanos, tão horrorosamente trágicos e ligados a vida e ao dia com uma forca tal, que mostrem as suas tradições, que se apreciem os seus cheiros e que salgue os lábios toda a valentia das suas palavras cheias de amor ou de asco. 0 Que não pode continuar é a sobrevivência dos personagens dramáticos que hoje sobem aos cenários levados pelas mãos dos seus autores. São personagens ocos, vazios totalmente, aos que apenas é possível ver através do casaco um relógio parado, um osso falso ou uma caca de gato dessas que há nos devaneios." Nesta produção, Maria João Luis e as actrizes do Teatro da Terra cumpriram em Loulé esta definição.

Vidas de cristal


Jardim Zoológico de Cristal, de Tennessee Williams, encenado por Nuno Cardoso, foi o espectáculo apresentado no dia 30 de Janeiro no Teatro das Figuras. Tennessee Williams admitiu que um dia se apercebeu de que a vida de um escritor iria ser algo de semelhante à defesa de um forte contra um bando de selvagens. Este escritor, que se declarava basicamente um humanista, escreveu com a dureza de alguém que atravessou a grande depressão e cuja vida foi semelhante, segundo as suas palavras, a um “caleidoscópio vertiginoso”. Escrevia continuamente porque não conseguia outro meio de expressar coisas que pareciam exigir expressão. E foi de um homem com uma vivência difícil que surgiu um texto cru que o levou à ribalta, como Jardim Zoológico de Cristal. O texto mostra o quotidiano exíguo de uma família disfuncional, reduzida a uma mãe que foi obrigada a criar dois filhos sozinha. O peso da tradição da América sulista dos anos 40 marca o dia-a-dia daquelas três pessoas que se sufocam mutuamente num emaranhado de culpas, enganos e recriminações. A mãe, uma Sulista assumida e determinada, vive suspensa nas brumas de um passado que teima em fazer presente. Assume para a sua filha Laura o mesmo tipo de comportamentos que havia tido na mocidade, quando a casa se enchia de pretendentes. Laura, vítima de uma pequena deformidade na perna, não tem pretendentes para receber e passa as tardes a divagar pelos museus, fruto da sua fobia ao curso de contabilidade. Tom, o filho, trabalha num armazém para sustentar a família. Mas o seu sonho é correr mundo e seguir as pisadas do pai que fugiu daquele mundo pequeno e demente. Tom assume neste texto o papel de observador que sai da situação e comenta a cena, voltando a entrar quando a família acorda para a sua realidade. A encenação de Nuno Cardoso consegue transmitir ao espectador a sensação de sufoco através da cenografia. Um rectângulo que recria um apartamento no meio de uma cena completamente escura permite a imagem de uma vivência oprimida, não só pelo espaço, mas sobretudo pela pressão das obrigações familiares. Nuno Cardoso coloca os actores na cena numa situação de suspensão, como se de manequins se tratassem. É uma suspensão da vida que se recusam a viver em prol de um destino no qual acreditam ter de obedecer.
A luz de José Álvaro Correia transmite para além da ambiência, os estados de espírito das personagens. Há uma luz na manhã que invade a cena em paralelo com a esperança que a mãe devota ao dia e ao futuro dos seus filhos. Belíssima, acompanha todos os matizes e cambiantes do dia, detendo-se na evocação final de Tom, com a sua figura fora do apartamento sufocante, iluminado e olhando para o seu passado na obscuridade.
Laura, a filha, subjugada por uma mãe dominadora, sofre de ataques de pânico e sucumbe nas ocasiões mais críticas. Desiste de viver a sua própria vida, dedicando-se à sua colecção de peças de cristal. Uma colecção de vários animais que exigem uma atenção meticulosa. Tom vive numa opressão constante, com alma de poeta e mãos de operário. É forçado pela mãe a permanecer em casa enquanto a irmã não conseguir a sua independência. Tom vive infeliz, ansiando por uma vida que seja sua. Num derradeiro favor à mãe leva a sua casa um colega do armazém a fim de o apresentar à sua irmã. A mãe começa a sonhar com a sua própria libertação, enfeitando a casa e a filha. Laura reconhece o amigo do irmão como o único rapaz por quem esteve apaixonada. Fica em pânico e quando tudo se supera – a timidez, o pânico, a vergonha de ser coxa – e Jim a convida para dançar, beijando-a com ternura, revela-lhe que está noivo e que não pode voltar a vê-la. O mundo de Laura desaba e a vida volta ao que era dantes. Mais dura, porque Tom seguiu o seu sonho, saindo de casa. Com mais cor, porque também Laura conseguiu continuar a ver a vida através de cristais.
Nesta encenação os actores Maria do Céu Ribeiro, Micaela Cardoso, Luís Araújo e Romeu Costa entregaram ao trabalho um realismo dramático com uma qualidade que tocou os espectadores. Os momentos de suspensão estavam colocados em pontos estratégicos de tal modo que cada um era um esboço que servia para ornamentar a vida do outro. Tudo se conjugava numa ética de deveres que foi rasgada abruptamente pela fuga de Tom, o narrador da história.
Uma história de uma crueza desconcertante que provoca um sentimento de solidariedade pelo outro e, estranhamente, de simpatia pelo anti-herói que despoletou a tragédia da história. Um espectáculo verdadeiramente brilhante.

O prazer do Inferno


Qual a leitura que Olga Roriz faz do Inferno? Das suas palavras percebemos que neste espectáculo retrata o Inferno como “um lugar onde se descansa por fim a tristeza e se cansa o corpo dançante pelo puro prazer de o fazer. Um espaço de libertação e tranquilidade incontida que predispõe ao arrebatamento. Contradizendo o título, aqui o pecado não é punido. A maldade não é punida. A fraqueza também não. Inferno é um caminho interior e iniciático, polvilhado de tristezas, ironias e reconciliações. A ideia de musical, como em Paraíso, continua presente mas com um olhar ainda mais distante. Várias são as formas de expressão. As vozes unem-se em hino ou em canções de amores solitárias. Os anjos transformam-se em bobos que dançam e falam sobre alguns de nós.”

O espectáculo apresentado no passado dia 9 de Janeiro no Teatro das Figuras, em Faro, apresenta de uma forma ironia mas muito realista o lugar de todas as tentações. A queda do anjo Gabriel consubstancia-se na assunção de uma eficácia directa do poder do anjo, em oposição à crença na providência divina. O anjo determina no humano a crença absoluta nas suas possibilidades, permitindo-lhe que seduza, que cante, que dance, assumindo-se como corpo dançante perante a realidade. A humanidade aprendeu a precaver-se e o sentimento de pecado é transfigurado, assumindo-se numa vivência liminarmente humana, onde o corpo é o responsável da sua própria transformação.
A forma, ao invés de se tornar espírito, como num musical passado no Paraíso, assume a sua condição mortal e pecadora. Neste Inferno o corpo gosta de ser corpo e o castigo, simbolizado pela rede de campo de concentração é transformado num confortável salão onde as vozes se abrem ao canto e o corpo ao desejo.
Os bailarinos interpretam o desejo dos corpos, dançam e entoam cantos ao amor, à ambiguidade, à vontade obstinada e egoísta, a um universo sem juízos de valor. E é assim que podemos sentir a criação de Olga Roriz: uma entrega do corpo ao plano da liberdade, sem juízos de valor por parte do espírito ou de qualquer outra entidade que ajuíze. No Inferno os bailarinos são privados da noção de espaço, da noção de tempo através da auto-flagelação com vendas nos olhos e nos ouvidos. Mas a dança continua e, apesar da cegueira e surdez exteriores os corpos persistem em prosseguir livres, explorando o espaço que se lhes apresenta.
Olga Roriz evidencia a figura do eterno feminino, realçando o corpo da mulher com vestidos elegantes e saltos altos. No corpo do homem é também desenhada a sua masculinidade, nem mesmo quando se assume como anjo Gabriel, que seria assexuado por natureza. E persiste na sua busca de sensualidade quando dança com um corpo invisível adivinhado pelos sapatos vermelhos que conduz.
O final, em que a ideia de descontracção e preguiça desoculta a sensualidade, coloca a virtude a dançar nos braços do pecado. Quando a liberdade no gesto é assumida, a noção de pecado pode morrer, uma vez que a punição se esvai e se pode assumir alto e bom som, fazendo nossas as palavras de Adriana Calcanhoto: “Eu não gosto do bom gosto, eu não gosto do bom senso”.
A ironia de Olga Roriz esclarece as dúvidas quanto à condição humana. Presos num campo de concentração, os homens e as mulheres fazem por ignorar esses constrangimentos através da esperança de um mundo melhor, anunciada pelo anjo da providência, que lança confetis e promete que “a vida vai melhorar”. Pelo final, e pelo visão de felicidade no Inferno somos levados a acreditar que sim.
Este espectáculo, concebido e coreografado por Olga Roriz, teve um Desenho de Luz de Clemente Cuba, cenografia de Olga Roriz e Pedro Santiago Cal. A interpretar o Inferno estiveram Catarina Câmara, Maria Cerveira, Sylvia Rijmer, Bruno Alexandre e Pedro Santiago Cal.
Um espectáculo onde a fúria dionisíaca conduz a emoção para o plano do meta verbal, ultrapassando a palavra e assumido a riqueza da música e das palavras que dançam em forma de sons. As canções dançam e impõem um movimento ao corpo, por vezes desconcertante, como o momento belíssimo em que Pedro Santiago Cal constrói círculos com a sua cabeça ao som do tema de Brel “On a beu faire”.
Um espectáculo que denuncia a queda dos falsos profetas e anuncia a reconciliação do Homem com a sua essência corpórea, mergulhada no desejo e na busca do prazer. A todos os níveis, admirável.

Cal


Nos dias cinco e seis de Fevereiro o Teatro da Terra trouxe ao Centro de Artes performativas do Algarve o espectáculo Cal, a partir da obra homónima de José Luis Peixoto. Cal é um espectáculo sobre a velhice. A cristalização de um tempo que se assemelha à passagem da cal através dos anos, protegendo o interior do exterior agreste. José Luis Peixoto fala-nos, nesta obra, sobre as revelações que os velhos conseguem transmitir. Com admite o autor, “de certo modo, quis preservar, através da escrita ficcional, a dignidade das pessoas que me fizeram ter consciência de que a velhice não é só uma questão de decadência física. Às vezes é também o exacto contrário disso.”
O espectáculo encenado por Maria João Luis e Gonçalo Amorim apoia-se numa estética simbólica que joga com a imagem dos próprios actores projectada num ecrã gigante. A velha Carlota deixa correr uma lágrima perante a inutilidade da sua vida. Depois de dado o mote, Maria João Luis e Gonçalo Amorim ausentam-se do palco dando lugar às imagens que se vão sucedendo no filme que suporta o espectáculo. Maria João Luis dá corpo e voz a uma velha que teimosamente luta contra o tempo que lhe vai curvando as costas. Vai à vila vender a burra, da qual se despede com carinho, senta-se debaixo da árvore, vendo o tempo passar. O Tempo permite-lhe ver o anjo que a acompanha. Maria João Luis rompe a cena trazendo pedaços do ser da vida de Ana, ou de Carlota. O bonsai, o feixe de lenha, o pequeno banco de madeira que suporta as batatas, o cajado que suporta o peso da vida. Há uma intromissão do actor na projecção e uma invasão do filme na figura do actor. A contaminação passa a fazer parte integrante do espectáculo e o espectador passa a fazer parte integrante dos dois suportes artísticos que dão vida às personagens de José Luis Peixoto. Para o autor, a inspiração para o seu livro “não foi só a identificação com o Alentejo, não foi só a brancura, não foi só a ideia de uma espécie de cristalização das casas, que as conserva e as paralisa no tempo. Foi também a noção de que a cal é uma matéria perigosa, uma pedra que ao colocar-se dentro de água ferve, queima e se cai nos olhos, cega.”
A interpretação de Maria João Luis é consistente, como nos tem habituado ao longo do seu percurso artístico. Em palco podemos recriar as marcas do tempo que a projecção no vídeo nos mostra de uma forma evidente, como se de um mapa se tratasse. Mas quando o público está perante a actriz a sua atitude, o seu modo de mostrar o corpo e a voz ultrapassam qualquer artifício de caracterização porque se apresenta como verosímil. E porque a presença de Maria João Luis é tão consistente, sentiu-se uma saudade ao longo do espectáculo da sua presença física, mesmo quando estávamos perante um grande plano de Ana, a velha solitária que consegue ver o anjo que a acompanha.
O terceiro acto é suportado por um texto pobre, redundante, que não faz jus à escrita autêntica e sensitiva de José Luis Peixoto. “O homem que está sentado à porta” insiste na evocação recorrente do autor enquanto personagem da própria história na memória do velho. Talvez nessa história houvesse a curiosidade de nos confrontarmos com a imagem real do velho Durico, uma das fontes inspiradoras do texto. Para Gonçalo Luz, “a idade traz consigo a revelação da consciência de nós e a dignidade de uma certa sabedoria.” Este trabalho reconduz o olhar do espectador para a consciência da própria vida. Como se pode ler a páginas tantas no livro de José Luis Peixoto, "Havia momentos em que achava que não havia momento nenhum da sua vida fora da prisão em que não tivesse pensado duas vezes desde que entrara na prisão. Passava as noites deitado, a ver um quadrado negro na janela e a esperar. Às vezes, havia uma estrela que brilhava dentro daquele quadrado. Ele acreditava que, se pudesse ver o céu inteiro, conseguiria sempre distinguir aquela estrela. Nascia o dia e depois voltava a noite."
A consciência da perpetuidade. A consciência, também para nós de que, como nos recorda José Luis Peixoto, “quando morre um velho desaparece uma biblioteca”. E leva consigo uma memória branca e carregada. Como a cal.