Friday, November 26, 2010

A alma de Lorca


O Teatro da Terra, estrutura recém criada em Ponte de Sôr, trouxe a Loulé, por intermédio da DeVIR, a produção A Casa de Bernarda Alba, de Lorca, encenado por Maria João Luis. Este espectáculo foi apresentado no convento de Stº António, em Loulé, espaço privilegiado para devolver ao espectador as emoções que este texto encerra. O interior da antiga capela do convento foi o cenário ideal para apresentar a casa de Bernarda, uma matriarca fria e tirana, que encerra desumanamente as filhas em casa, em pleno desabrochar sexual. Três carrinhos de linhas gigantes, uma poltrona e seis cadeiras de espaldar alto compõem a cenografia. Pôncia, a criada, as cinco filhas, Bernarda e a sua mãe, conviveram com aquele espaço como se de facto fosse a sua casa. Na segunda parte do espectáculo o público foi conduzido para um claustro em ruínas, que serviu na perfeição para o desenlace da cena final. A Casa de Bernarda Alba é a ultima peça de Frederico Garcia Lorca , escrita em Junho de 1936, ano em que o escritor viria a ser assassinado. Para Maria João Luis, esta história é «uma história aparentemente simples, é, no entanto, um autêntico bilro de intenções e mensagens, onde destaco a violência e a agressividade. Tão humanos que nós somos. Tão capazes de tudo. Uma família fechada, uma sociedade fechada, cheia de padrões. Não vou aqui discuti-los, mas sei que é preciso continuar, tal como Lorca, a analisá-los e, se preciso for, a intervir, usando aquilo de que somos feitos. Este texto fala-nos de violência, opressão, medo, humilhação e consequente revolta e poesia. Não estamos assim tão longe desta realidade escrita em 1936, ano em que o seu autor foi fuzilado. Continuamos como podemos, apesar de todos os dias nos chegarem notícias de violência e opressão. Continuamos como podemos, apesar de todos os dias nos chegarem notícias de violência e opressão. Continuamos como podemos. As palavras são pontes. Tudo o que se transforma a realidade do artista».
Nesta encenação a criada começa a lavar o chão ao som de uma canção de Lorca. Lava-o com raiva, com sofrimento, pondo em cada gesto a carga de um povo com fome. Uma cena tocante que prepara o espectador para o ambiente de violência que se vai seguir. Este texto de Lorca fala-nos de abusos de poder, de opressão, de sofrimento, de luta pela liberdade, de amor e de traição. Cada personagem procura, a sua maneira, a felicidade que lhe é negada por um mundo de tabus e por uma sociedade impregnada de regras. Pôncia, a criada velha, simboliza a ligação entre um mundo onde miserável onde se passa fome e o mundo da burguesia rural abastada, que compra rendas sem lhe dar préstimo. Baseada numa história real, esta peça leva-nos a uma viagem ao sufocante mundo das regras e da discriminação dentro da própria família, exercida por uma mãe tirana. Bernarda, que casou duas vezes, proíbe as filhas de saírem de casa após a morte do seu segundo marido. Jovens à procura de um motivo para se libertarem desta tirania, voltam-se contra a irmã mais velha, filha do primeiro marido de Bernarda que, por ter um dote maior, encontrou um pretendente. Angústias vai finalmente casar, aos 38 anos com o rapaz mais cobiçado da região. Esta decisão cria uma explosão de sentimentos que as actrizes souberam mostrar de uma forma verdadeiramente exemplar. A força de Lorca estava bem patente na representação de cada uma das actrizes com particular destaque para a força de Bernarda, interpretada pela actriz Custódia Gallego, para a sobrevivente Pôncia, interpretada pela actriz Ana Brandão e para a irreverência de Adela, a filha mais nova de Bernarda, interpretada pela actriz Diana Costa e Silva. A violência de Bernarda ajusta-se à violência dos sentimentos que estão oprimidos e prestes a explodir à mais pequena faísca. A faísca é a assunção da paixão de Adela por Pepe Romano, o afastamento deste pela matriarca, que leva ao suicídio da filha mais nova. A última frase da peça “A filha de Bernarda Alba morreu virgem”, mostra bem a submissão de uma sociedade hipócrita à aparência.
Lorca definiu assim o teatro: " 0 teatro é a poesia que sai do livro e se faz humana. E ao fazer-se, fala e grita, chora e desespera. 0 Teatro necessita que os personagens que apareçam em cena, levem um traje de poesia e ao mesmo tempo que se lhes vejam os ossos, o sangue. Tem de ser tão humanos, tão horrorosamente trágicos e ligados a vida e ao dia com uma forca tal, que mostrem as suas tradições, que se apreciem os seus cheiros e que salgue os lábios toda a valentia das suas palavras cheias de amor ou de asco. 0 Que não pode continuar é a sobrevivência dos personagens dramáticos que hoje sobem aos cenários levados pelas mãos dos seus autores. São personagens ocos, vazios totalmente, aos que apenas é possível ver através do casaco um relógio parado, um osso falso ou uma caca de gato dessas que há nos devaneios." Nesta produção, Maria João Luis e as actrizes do Teatro da Terra cumpriram em Loulé esta definição.

Vidas de cristal


Jardim Zoológico de Cristal, de Tennessee Williams, encenado por Nuno Cardoso, foi o espectáculo apresentado no dia 30 de Janeiro no Teatro das Figuras. Tennessee Williams admitiu que um dia se apercebeu de que a vida de um escritor iria ser algo de semelhante à defesa de um forte contra um bando de selvagens. Este escritor, que se declarava basicamente um humanista, escreveu com a dureza de alguém que atravessou a grande depressão e cuja vida foi semelhante, segundo as suas palavras, a um “caleidoscópio vertiginoso”. Escrevia continuamente porque não conseguia outro meio de expressar coisas que pareciam exigir expressão. E foi de um homem com uma vivência difícil que surgiu um texto cru que o levou à ribalta, como Jardim Zoológico de Cristal. O texto mostra o quotidiano exíguo de uma família disfuncional, reduzida a uma mãe que foi obrigada a criar dois filhos sozinha. O peso da tradição da América sulista dos anos 40 marca o dia-a-dia daquelas três pessoas que se sufocam mutuamente num emaranhado de culpas, enganos e recriminações. A mãe, uma Sulista assumida e determinada, vive suspensa nas brumas de um passado que teima em fazer presente. Assume para a sua filha Laura o mesmo tipo de comportamentos que havia tido na mocidade, quando a casa se enchia de pretendentes. Laura, vítima de uma pequena deformidade na perna, não tem pretendentes para receber e passa as tardes a divagar pelos museus, fruto da sua fobia ao curso de contabilidade. Tom, o filho, trabalha num armazém para sustentar a família. Mas o seu sonho é correr mundo e seguir as pisadas do pai que fugiu daquele mundo pequeno e demente. Tom assume neste texto o papel de observador que sai da situação e comenta a cena, voltando a entrar quando a família acorda para a sua realidade. A encenação de Nuno Cardoso consegue transmitir ao espectador a sensação de sufoco através da cenografia. Um rectângulo que recria um apartamento no meio de uma cena completamente escura permite a imagem de uma vivência oprimida, não só pelo espaço, mas sobretudo pela pressão das obrigações familiares. Nuno Cardoso coloca os actores na cena numa situação de suspensão, como se de manequins se tratassem. É uma suspensão da vida que se recusam a viver em prol de um destino no qual acreditam ter de obedecer.
A luz de José Álvaro Correia transmite para além da ambiência, os estados de espírito das personagens. Há uma luz na manhã que invade a cena em paralelo com a esperança que a mãe devota ao dia e ao futuro dos seus filhos. Belíssima, acompanha todos os matizes e cambiantes do dia, detendo-se na evocação final de Tom, com a sua figura fora do apartamento sufocante, iluminado e olhando para o seu passado na obscuridade.
Laura, a filha, subjugada por uma mãe dominadora, sofre de ataques de pânico e sucumbe nas ocasiões mais críticas. Desiste de viver a sua própria vida, dedicando-se à sua colecção de peças de cristal. Uma colecção de vários animais que exigem uma atenção meticulosa. Tom vive numa opressão constante, com alma de poeta e mãos de operário. É forçado pela mãe a permanecer em casa enquanto a irmã não conseguir a sua independência. Tom vive infeliz, ansiando por uma vida que seja sua. Num derradeiro favor à mãe leva a sua casa um colega do armazém a fim de o apresentar à sua irmã. A mãe começa a sonhar com a sua própria libertação, enfeitando a casa e a filha. Laura reconhece o amigo do irmão como o único rapaz por quem esteve apaixonada. Fica em pânico e quando tudo se supera – a timidez, o pânico, a vergonha de ser coxa – e Jim a convida para dançar, beijando-a com ternura, revela-lhe que está noivo e que não pode voltar a vê-la. O mundo de Laura desaba e a vida volta ao que era dantes. Mais dura, porque Tom seguiu o seu sonho, saindo de casa. Com mais cor, porque também Laura conseguiu continuar a ver a vida através de cristais.
Nesta encenação os actores Maria do Céu Ribeiro, Micaela Cardoso, Luís Araújo e Romeu Costa entregaram ao trabalho um realismo dramático com uma qualidade que tocou os espectadores. Os momentos de suspensão estavam colocados em pontos estratégicos de tal modo que cada um era um esboço que servia para ornamentar a vida do outro. Tudo se conjugava numa ética de deveres que foi rasgada abruptamente pela fuga de Tom, o narrador da história.
Uma história de uma crueza desconcertante que provoca um sentimento de solidariedade pelo outro e, estranhamente, de simpatia pelo anti-herói que despoletou a tragédia da história. Um espectáculo verdadeiramente brilhante.

O prazer do Inferno


Qual a leitura que Olga Roriz faz do Inferno? Das suas palavras percebemos que neste espectáculo retrata o Inferno como “um lugar onde se descansa por fim a tristeza e se cansa o corpo dançante pelo puro prazer de o fazer. Um espaço de libertação e tranquilidade incontida que predispõe ao arrebatamento. Contradizendo o título, aqui o pecado não é punido. A maldade não é punida. A fraqueza também não. Inferno é um caminho interior e iniciático, polvilhado de tristezas, ironias e reconciliações. A ideia de musical, como em Paraíso, continua presente mas com um olhar ainda mais distante. Várias são as formas de expressão. As vozes unem-se em hino ou em canções de amores solitárias. Os anjos transformam-se em bobos que dançam e falam sobre alguns de nós.”

O espectáculo apresentado no passado dia 9 de Janeiro no Teatro das Figuras, em Faro, apresenta de uma forma ironia mas muito realista o lugar de todas as tentações. A queda do anjo Gabriel consubstancia-se na assunção de uma eficácia directa do poder do anjo, em oposição à crença na providência divina. O anjo determina no humano a crença absoluta nas suas possibilidades, permitindo-lhe que seduza, que cante, que dance, assumindo-se como corpo dançante perante a realidade. A humanidade aprendeu a precaver-se e o sentimento de pecado é transfigurado, assumindo-se numa vivência liminarmente humana, onde o corpo é o responsável da sua própria transformação.
A forma, ao invés de se tornar espírito, como num musical passado no Paraíso, assume a sua condição mortal e pecadora. Neste Inferno o corpo gosta de ser corpo e o castigo, simbolizado pela rede de campo de concentração é transformado num confortável salão onde as vozes se abrem ao canto e o corpo ao desejo.
Os bailarinos interpretam o desejo dos corpos, dançam e entoam cantos ao amor, à ambiguidade, à vontade obstinada e egoísta, a um universo sem juízos de valor. E é assim que podemos sentir a criação de Olga Roriz: uma entrega do corpo ao plano da liberdade, sem juízos de valor por parte do espírito ou de qualquer outra entidade que ajuíze. No Inferno os bailarinos são privados da noção de espaço, da noção de tempo através da auto-flagelação com vendas nos olhos e nos ouvidos. Mas a dança continua e, apesar da cegueira e surdez exteriores os corpos persistem em prosseguir livres, explorando o espaço que se lhes apresenta.
Olga Roriz evidencia a figura do eterno feminino, realçando o corpo da mulher com vestidos elegantes e saltos altos. No corpo do homem é também desenhada a sua masculinidade, nem mesmo quando se assume como anjo Gabriel, que seria assexuado por natureza. E persiste na sua busca de sensualidade quando dança com um corpo invisível adivinhado pelos sapatos vermelhos que conduz.
O final, em que a ideia de descontracção e preguiça desoculta a sensualidade, coloca a virtude a dançar nos braços do pecado. Quando a liberdade no gesto é assumida, a noção de pecado pode morrer, uma vez que a punição se esvai e se pode assumir alto e bom som, fazendo nossas as palavras de Adriana Calcanhoto: “Eu não gosto do bom gosto, eu não gosto do bom senso”.
A ironia de Olga Roriz esclarece as dúvidas quanto à condição humana. Presos num campo de concentração, os homens e as mulheres fazem por ignorar esses constrangimentos através da esperança de um mundo melhor, anunciada pelo anjo da providência, que lança confetis e promete que “a vida vai melhorar”. Pelo final, e pelo visão de felicidade no Inferno somos levados a acreditar que sim.
Este espectáculo, concebido e coreografado por Olga Roriz, teve um Desenho de Luz de Clemente Cuba, cenografia de Olga Roriz e Pedro Santiago Cal. A interpretar o Inferno estiveram Catarina Câmara, Maria Cerveira, Sylvia Rijmer, Bruno Alexandre e Pedro Santiago Cal.
Um espectáculo onde a fúria dionisíaca conduz a emoção para o plano do meta verbal, ultrapassando a palavra e assumido a riqueza da música e das palavras que dançam em forma de sons. As canções dançam e impõem um movimento ao corpo, por vezes desconcertante, como o momento belíssimo em que Pedro Santiago Cal constrói círculos com a sua cabeça ao som do tema de Brel “On a beu faire”.
Um espectáculo que denuncia a queda dos falsos profetas e anuncia a reconciliação do Homem com a sua essência corpórea, mergulhada no desejo e na busca do prazer. A todos os níveis, admirável.

Cal


Nos dias cinco e seis de Fevereiro o Teatro da Terra trouxe ao Centro de Artes performativas do Algarve o espectáculo Cal, a partir da obra homónima de José Luis Peixoto. Cal é um espectáculo sobre a velhice. A cristalização de um tempo que se assemelha à passagem da cal através dos anos, protegendo o interior do exterior agreste. José Luis Peixoto fala-nos, nesta obra, sobre as revelações que os velhos conseguem transmitir. Com admite o autor, “de certo modo, quis preservar, através da escrita ficcional, a dignidade das pessoas que me fizeram ter consciência de que a velhice não é só uma questão de decadência física. Às vezes é também o exacto contrário disso.”
O espectáculo encenado por Maria João Luis e Gonçalo Amorim apoia-se numa estética simbólica que joga com a imagem dos próprios actores projectada num ecrã gigante. A velha Carlota deixa correr uma lágrima perante a inutilidade da sua vida. Depois de dado o mote, Maria João Luis e Gonçalo Amorim ausentam-se do palco dando lugar às imagens que se vão sucedendo no filme que suporta o espectáculo. Maria João Luis dá corpo e voz a uma velha que teimosamente luta contra o tempo que lhe vai curvando as costas. Vai à vila vender a burra, da qual se despede com carinho, senta-se debaixo da árvore, vendo o tempo passar. O Tempo permite-lhe ver o anjo que a acompanha. Maria João Luis rompe a cena trazendo pedaços do ser da vida de Ana, ou de Carlota. O bonsai, o feixe de lenha, o pequeno banco de madeira que suporta as batatas, o cajado que suporta o peso da vida. Há uma intromissão do actor na projecção e uma invasão do filme na figura do actor. A contaminação passa a fazer parte integrante do espectáculo e o espectador passa a fazer parte integrante dos dois suportes artísticos que dão vida às personagens de José Luis Peixoto. Para o autor, a inspiração para o seu livro “não foi só a identificação com o Alentejo, não foi só a brancura, não foi só a ideia de uma espécie de cristalização das casas, que as conserva e as paralisa no tempo. Foi também a noção de que a cal é uma matéria perigosa, uma pedra que ao colocar-se dentro de água ferve, queima e se cai nos olhos, cega.”
A interpretação de Maria João Luis é consistente, como nos tem habituado ao longo do seu percurso artístico. Em palco podemos recriar as marcas do tempo que a projecção no vídeo nos mostra de uma forma evidente, como se de um mapa se tratasse. Mas quando o público está perante a actriz a sua atitude, o seu modo de mostrar o corpo e a voz ultrapassam qualquer artifício de caracterização porque se apresenta como verosímil. E porque a presença de Maria João Luis é tão consistente, sentiu-se uma saudade ao longo do espectáculo da sua presença física, mesmo quando estávamos perante um grande plano de Ana, a velha solitária que consegue ver o anjo que a acompanha.
O terceiro acto é suportado por um texto pobre, redundante, que não faz jus à escrita autêntica e sensitiva de José Luis Peixoto. “O homem que está sentado à porta” insiste na evocação recorrente do autor enquanto personagem da própria história na memória do velho. Talvez nessa história houvesse a curiosidade de nos confrontarmos com a imagem real do velho Durico, uma das fontes inspiradoras do texto. Para Gonçalo Luz, “a idade traz consigo a revelação da consciência de nós e a dignidade de uma certa sabedoria.” Este trabalho reconduz o olhar do espectador para a consciência da própria vida. Como se pode ler a páginas tantas no livro de José Luis Peixoto, "Havia momentos em que achava que não havia momento nenhum da sua vida fora da prisão em que não tivesse pensado duas vezes desde que entrara na prisão. Passava as noites deitado, a ver um quadrado negro na janela e a esperar. Às vezes, havia uma estrela que brilhava dentro daquele quadrado. Ele acreditava que, se pudesse ver o céu inteiro, conseguiria sempre distinguir aquela estrela. Nascia o dia e depois voltava a noite."
A consciência da perpetuidade. A consciência, também para nós de que, como nos recorda José Luis Peixoto, “quando morre um velho desaparece uma biblioteca”. E leva consigo uma memória branca e carregada. Como a cal.

A caravana


O Teatro Meridional tem habituado o seu público a um trabalho marcado pelo despojamento cénico e pelo protagonismo do trabalho de interpretação do actor, aliando o jogo dramático a um rigor exemplar. Apostando nas novas dramaturgias, Nuno Pino Custódio construiu um texto baseado na rota da seda, do qual surgiu o espectáculo A Caravana. Interpretado por Carlos Pereira, Catarina Guerreiro, Nuno Nunes, Rui M. Silva e Yolanda Santos, o espectáculo arrasta o espectador para uma viagem fascinante desde a China a Itália. A história de um tecido macio e brilhante é contada através do corpo dos actores que, apoiados por panos e varas, constroem universos de sentido tão diferentes como os que envolvem os trabalhadores da China, os sábios indianos, os pastores sírios ou os mercadores venezianos. O espectáculo começa com uma plataforma longa e estreita, em cima da qual estão dobrados vários panos. A luz, mais do que mostrar, desoculta os contornos e algum colorido daqueles panejamentos que irão ser a cenografia do espectáculo. Os actores entram com roupas de corte largo, lembrando kimonos, onde o laranja é a cor dominante. Dirigem-se à plataforma onde se encontram os panos e no tempo de uma respiração constroem uma oficina, onde um homem começa a contar a história da seda. Tudo começa pelo bicho, que tem de ser sabiamente alimentado com folhas de amoreira. Depois é a construção da oficina, ond os bichos-da-seda são alimentados, onde os casulos são desfiados, onde os fios são tingidos e onde o tecida acaba por ser construído nos imensos teares. Toda esta sequência é apresentada de uma forma surpreendente, com o rigor dos actores que desdobram e dobram panos, tornando-se a um tempo abrigos, casas, coberturas, ou o casulo em que uma mulher se envolve para se transfigurar num dragão. O ritmo é o adequado ao relato da história. Os panos, que abriram o olhar do homem ocidental a outros mundos, são a base do espectáculo. As varas que suportam os panos também se transformam de tear em varanda, em casa, em ponte. E de todas estas paragens o espectador se apercebe, com a evidência do símbolo que contém em si a matriz geradora do jogo cénico. Da China, onde nascem os bichos e se constrói o tecido, começa a viagem em caravanas que seguem para a Índia, onde as histórias de Sheerazade assumem uma crueza desconcertante. Uma mulher, trajando um sahri de seda é assassinada pelo marido, possuído pela loucura do ciúme infundado. O homem passa por uma transformação que o leva a despojar-se de tudo e a devotar-se ao conhecimento, envergando apenas um pano trazido da China. E a caravana continua, passando pela Síria, onde um pastor, que guarda amorosamente as suas ovelhas segue um destino diferente e acaba por fazer parte do deserto harmonioso que o leva ao desejo de encontro consigo próprio. A caravana segue, através do deserto e chega a Veneza, onde os mercadores vendem enfim um tecido magnífico: brilhante, leve, resistente, que fala por si. Todas estas ambiências foram sendo sucessivamente mostradas através de um trabalho exigente e sóbrio, onde o rigor comunica activando no espectador a capacidade de ver para além do aparente. Os figurinos vão-se transfigurando com o simples gesto de enrolar ou desenrolar os panos, dando-nos a dimensão da diferença no trajar ao longo da rota da seda. Para o autor, “A Caravana é um espectáculo sobre a (in) comunicação, a singularidade do indivíduo e a sua identidade colectiva. Relatos de histórias contadas numa representação total onde o corpo do actor assume todos os recursos. De Pequim a Veneza, a maior de todas as rotas é aquela que se faz entre cada ser, preservando a sua essência, fazendo-o existir quando cada um se quis realmente plural.” Uma viagem que traz em si a certeza de um encontro. Entre o actor e o seu público, entre culturas, entre o homem e si próprio, na sua singularidade de indivíduo. Com uma luz belíssima de Pedro Domingos, espaço cénico e figurinos de Marta Carreiras e as vozes potentes de Yolanda Santos e Catarina Guerreiro, o espectáculo A Caravana eleva o espectador acima de si mesmo, viajando através de paisagens, cheiros e sons desconhecidos, tornando-o mais rico e mais aberto a uma visão global. Um espaço vazio preenchido pela harmonia do saber. Um espectáculo a perseguir e a (re)ver.

A coragem de ser Medeia


Desde que em 1933 a actriz catalã Margarita Xirgu protagonizou ‘Medeia’ sobre as pedras nuas do Teatro Romano, muitos foram os criadores, encenadores, actores e actrizes, cenógrafos, figurinistas que deixaram a sua marca de fogo nos cerca de 75 mil espectadores através das suas interpretações contemporâneas dos textos que autores como Sófocles, Esquilo, Eurípides e Séneca, entre outros, escreveram há mais de dos mil anos.
Este ano Medeia foi encenada em exclusivo para este Festival pelo esloveno Tomaz Pandur e interpretada pela actriz Blanca Portillo. Dizem que Blanca Portillo, uma figura de destaque do teatro em Espanha, possui o instinto necessário a uma actriz que interpreta tragédias. A sua prestação em Mérida na estreia do espectáculo Medeia confirmou, não só o instinto, mas a maturidade e o saber que uma actriz tem de possuir para poder interpretar Medeia.
O espectáculo começa com uma série de figuras espalhadas pelo anfiteatro, que simbolizam jornalistas com figurinos e a atitude de jornalistas dos anos 50, esperando a chegada de uma mulher. Essa mulher é Medeia que, com um lenço na cabeça e uma mala de viagem regressa à sua terra de origem. Mal a vislumbram os jornalistas descem a correr as escadas do anfiteatro, sufocando-a com as suas perguntas. Medeia responde que decidiu regressar após 3000 anos e que quer repor a verdade da história. Retira-se, fatigada e os jornalistas começam, em várias línguas, a relatar o regresso de tão inusitada personagem. Deixam a cena, não sem antes desocultarem o centauro Quíron, que se escondia por detrás de um painel composto por fardos de palha. Asier Etxeandía, que interpretou o centauro, apesar de se libertado do corpo do cavalo, conservou de tal maneira o porte da figura mitológica que o público reconhecia o centauro de cada vez que o actor falava, andava ou corria pela cena. Uma brilhante prestação neste espectáculo. Entretanto entram oito homens armados de forquilhas para juntar a palha que está espalhada ao longo de toda a cena. Os rapazes, simbolizando os argonautas, estão vestidos como camponeses do princípio do século XX. O seu trabalho na terra é animado pelo canto e pelos acordeões das raparigas da Cólquida. E nesta altura desenha-se uma das cenas mais bonitas do espectáculo: depois de um dia de intenso trabalho físico, os rapazes juntam-se às raparigas e lavam-se, despindo-se completamente do tronco para cima. Medeia entra no meio daquele ritual de purificação e os bailarinos vão criando figuras de estátuas que acompanham o diálogo de Medeia com a ama. As camisas encharcadas de água complementam o efeito da coreografia e, perante uma marcação sincopada e sincronizada, as dezasseis figuras criam um efeito plástico admirável. Medeia entra com os trajes tradicionais da Cólquida para logo os despir, ficando com um simples vestido preto evidenciando as tatuagens que a denunciam como feiticeira. Medeia fica só em cena para logo a seguir ser condenada pelo rei Creonte ao exílio, juntamente com os seus filhos, para que a sua filha possa casar com Jasão sem ter a sombra da mulher traída a pairar sobre si. Os guardas, acompanhados de pastores alemães, cruzam a cena várias vezes, simbolizando marés de violência. Medeia pede mais um dia na sua pátria. Creonte, incauto, condescende. Nesse tempo de espera Medeia vai dedicar-se a conceber o seu plano de vingança. Nesse dia Medeia retoma os passos quotidianos que foi a sua vida com Jasão. No espaço da orquestra Tomaz Pandur recria um labirinto, constituído de fardos de palha, dentro do qual Medeia executa as tarefas de casa. Lava a roupa, estende-a, bate ovos para o jantar, refresca-se numa bacia enquanto Jasão goza a sua última noite em casa ouvindo música e bebendo uma cerveja refastelado num sofá. Medeia discute com Jasão, argumentando que deixou tudo por ele, matando o seu pai e o seu irmão, dando-lhe filhos, dedicando-se inteiramente a ele. Jasão responde que isso está tudo certo mas que ela so o fez por amor a si, Jasão. E em nome desse amor deveria aceitar o sacrifício que ele estava disposto a fazer, casado com a filha do rei, dando oportunidade a que os seus filhos possam ter um futuro promissor. Medeia não aceita esta visão da realidade e torna-se violenta, agredindo Jasão. Jasão continua a afirmar que é dela que continua a gostar mas que tem de se submeter a este casamento. Esta cena é toda feita num ritmo alucinante, dentro do labirinto do quotidiano criado, com a violência e a crueza de um casal que partilha o espaço há vários anos. Uma força e uma verdade memoráveis. Jasão parte e Medeia fica sozinha no barco que antes era navegado pelos dois. Agarra-se à imensa vela preta suspensa de um enorme balão de hélio, simbolizando não só a vela mas também o cordão umbilical que a liga aos filhos. E é nesse núcleo que Medeia congemina a sua vingança. Primeiro irá assassinar a futura esposa de Jasão. Depois, matará com as suas próprias mãos os seus filhos. Desesperada, Medeia corre para a estrada. Intercepta um Peugeot 404 dos anos 50 que entrou no palco. Nele segue o Rei de Atenas. Conta-lhe como foi desprezada por Jasão e pede-lhe auxílio. Numa cena de muito erotismo e ousadia, Medeia obtém o juramento do Rei de Atenas, perante as divindades da Terra e do Sol, que lhe dará asilo em Atenas. O carro sai de cena levando levando consigo o charme escondido do rei de Atenas. Jasão segue para o casamento, aceitando incauto o presente de Medeia como prova de arrependimento pela sua discussão e egoísmo. Mas no meio da coreografia, que recriou as danças tradicionais das Balcãs, a jovem esposa começa manchar o seu fantástico vestido de noiva com o sangue da vingança de Medeia. As danças param e Jasão fica enlouquecido de dor. Na cena seguinte o coro grego é composto por oito raparigas, envergando elegantes vestidos brancos dos anos 50, entram conduzindo carrinhos de bebé. A ama antecipa a desgraça enquanto as jovens mães olham para Medeia que, vestida de vermelho, entra em cena conduzindo os seus filhos. Leva-os para o gineceu e, de uma forma simbólica, vestido-os com peles de ovelha, lança-os para fora de cena, onde estão os animais selvagens. Há uma dança tradicional das Balcãs executada por homens que envergam peles de ovelha quando Jasão é confrontado com a morte dos filhos. Desesperado, abandona-se no meio da estrada. Medeia passa, não no carro do Sol, como diz o texto de Eurípedes, mas no atrelado de uma roulotte conduzida pelo rei de Atenas. O centauro Quíron, educador e transmissor dos grandes valores espirituais do respeito entre os seres, sucumbe perante a notícia da morte da princesa e da profecia da morte dos filhos de Medeia. As notícias, anunciadas ao som de uma máquina de escrever, disparam sobre ele como as flechas envenenadas que o feriram infligindo-lhe sofrimentos perpétuos. Perante tais actos Quíron desiste de viver.
Medeia leva na roulotte os filhos mortos e nega a Jasão uma última despedida. Ri-se dele, ciente do poder da sua vingança. Conseguiu o seu intento e vai erigir um templo em sua honra, onde se entoem cantos, simbolizado na cena final onde Medeia entra com os filhos e, ternamente faz um piquenique com eles, serve-lhes abnegadamente uma refeição e canta-lhes uma canção de embalar. E afinal, onde se esconde a verdade de uma história contada há mais de 3000 anos?
Mais que a história trágica e sangrenta de Medeia Tomaz Pandur trouxe a Mérida o fogo de um espectáculo grandioso onde os cânticos entoados pelas mulheres ao som de acordeão, as coreografias executadas por excelentes bailarinos e o peso do quotidiano destruidor que se impôs entre Medeia e Jasão criaram uma obra-prima. Uma utilização brilhante do som da trovoada que assola a tragédia, ecoando em todo o anfiteatro. Uma obra-prima que lavou em lágrimas o público de Mérida. Um abalo como só as obras dos grandes clássicos conseguem provocar. Uma metáfora em que se discute o papel da liberdade e do poder maternal. Um espectáculo que os amantes da cultura clássica não podem perder. Teve na ficha técnica alguns dos nomes mais sonantes a nível mundial. Para além da encenação de Tomaz Pandur, aclamado várias vezes em festivais internacionais de teatro, contou ainda com a dramaturgia de Tomaz Pandur, Darko Lukic y Livia Pandur, cenografia de Sven Jonke (Numen), figurinos de Angelina Atlagic, coreografia de Ronald Savkovic, música de Boris Benko y Primoz Hladnik (Silence), desenho de luz de Juan Gómez Cornejo e sonoplastia de Mariano García.

O tempo da partilha


Uma tela horizontal marca o palco do Teatro das Figuras. Um pano que corre de um lado ao outro, ocultando, desocultando. Uma projecção de imagens subaquáticas conduz-nos a um universo distante, quase paralelo, no qual os sentidos captam o real de forma diferente. Um coração bate e a voz da Natália Luiza fala-nos sobre o Tempo. A noção de tempo que acelera e desacelera de acordo com o olhar de cada um perante o mundo. O seu mundo. O pano corre e desoculta-nos imagens de pessoas que estão fixas numa posição. O pano volta a fechar, volta a abrir e as posições mudam, como se fossem instantâneos captados num instante em que se segura o Tempo. Num momento todos podemos ser iguais. No instante seguinte há formas diferentes de gerir o Tempo. E foi a partir da gestão dessa diferença que surgiu o espectáculo O Aqui, coreografado por Ana Rita Barata, que teve o apoio de uma excelente equipa de criadores que contém Natália Luíza na dramaturgia, Pedro Sena Nunes na direcção artística e imagem e João Gil na criação da música original.
O projecto da Companhia Integrada Multidisciplinar pretendeu criar um objecto artístico integrador com pessoas que sofrem diariamente do estigma da diferença e não fazer uma espécie de terapia através da dança. O resultado foi um espectáculo surpreendente e comovedor no qual os rimos dos diferentes intervenientes se adaptavam e criavam partituras coreográficas muito interessantes, com assinalável qualidade ao nível do movimento. A música, criada por João Gil, dava conta das mudanças de ritmo entre as situações e as personagens entre si, de forma harmoniosa e singular. O desenho de luz de Cristina Piedade soube criar uma atmosfera intimista que convida à partilha e à alegria de viver. Ao dançar a coreografia de Ana Rita Barata os intervenientes perdem o medo. O medo de não ter tempo, o medo de não conseguir enfrentar uma realidade que se tornou dolorosa. No espectáculo a dor deu lugar ao riso e ao movimento descontraído dos corpos que executaram composições a solo, a dois, em grupo, absolutamente notáveis. As cadeiras de rodas deslizavam pelo palco ou com pessoas a ocuparem um lugar em diversas posições. Todos os corpos se moviam, quer fosse por si, quer fosse por meio de um impulso exterior que lhes provocava uma capacidade motora que por vezes não possuíam de forma autónoma.
No final o espectáculo foi comovente e belo, promovendo uma miríade de sentimentos. Houve uma unidade na imensa diversidade de pessoas, objectos, tempos, ritmos, afectos, diálogos.
Composta por 13 pessoas, quatro bailarinos profissionais, dois técnicos da área da deficiência e sete pessoas portadoras de paralisia cerebral, a companhia tem recebido apoios do Centro de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian (CPRCCG), da Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa (APCL) e do Instituto de Inserção Social. Os bailarinos profissionais são António Cabrita, Carolina Ramos, Catarina Gonçalves e Pedro Ramos, os técnicos são António Paiva e Carolina Santos e os intérpretes da APCL e CRPCCG são Adelaide Oliveira, Jorge Granadas, José Marques, Maria João Pereira, Paulo Benavente, Sílvia Pedroso, Yete Borges e Zaida Pugliese.
Para a criação deste espectáculo, houve uma co-produção com o Teatro Municipal de São Luiz , a Vo´arte e com a co-apresentação do Teatro Camões.
O desafio maior foi conseguido. Neste espectáculo os intérpretes foram sentidos pelo público como artistas que se expressaram através de um suporte artístico, de um corpo, apresentando-o num espectáculo, apagando a imagem do portador de deficiência. Este equilíbrio é fruto de uma capacidade artística e de uma sensibilidade notável. Reflexivo e divertido, comovente e belo. Um prazer que inunda os sentidos e obriga a pensar.