Friday, November 26, 2010


O grupo Teatro da Estrada, sedeado em Alte, quis apresentar uma caricatura dos relacionamentos modernos, frutos de uma sociedade cruel que castiga as relações afectivas. Quando pensamos em empresas que estimulam os seus funcionários a adiar o nascimento dos seus filhos em prol dos interesses económicos percebemos que essa visão economicista e desumana se vai, necessariamente, estender às relações familiares, tornando-as superficiais e descartáveis. No actual mundo laboral não há tempo para que os casais façam uma pausa e conversem sobre a sua relação. O espectáculo mostra um casal à beira da ruptura, prestes a deitarem-se para a linha do comboio. As suas visões acerca da vida e do seu sentido acabam por ser idênticas, descurando a entrega total depois do primeiro deslumbramento. O diálogo, que acaba por ser em duplicado, é frio, é calculista e desprovido de qualquer afecto. À proposta de suicídio o outro não tenta demover o companheiro, antes o incentiva a fazê-lo, acusando a sua cobardia, se hesitar em pôr termo à vida. Decidem morrer os dois, juntos, já que não conseguiram viver uma vida harmoniosa e feliz. O comboio passa, mas não os mata, dado que se deitaram horizontalmente e não transversalmente à linha e ao trajecto do comboio. Uma vez que sobreviveram à sua tentativa de suicídio a dois resolveram, não viver felizes para sempre, mas assistir a um outro casamento. O deles permanece adiado, até que chegue um olhar mais humano perante a vida. O casamento dos amigos é celebrado e o espectáculo acaba em festa, convidando o público a dançar no palco e a participar da alegria dos noivos.
A encenação do teatro da estrada vai buscar ao registo de comédia a fonte do tratamento de um texto trágico. Trabalhando o absurdo de uma relação consegue-se expor, se forma mais evidente, o arquétipo da indiferença perante o Outro. No entanto, e se por algumas vezes o registo de comédia, com fortes influências da Commedia D’el Arte foi atingido, quer através do ritmo de representação, quer através da própria coreografia estabelecida entre os dois actores, por outro, o histrionismo exagerado de André MdQueen, insistindo nas máscaras de expressão, sujou completamente o equilíbrio entre os dois actores, uma vez que Célia Martins adoptou um registo mais uniforme e contido ao longo de todo o espectáculo. Os apontamentos Pirandellianos, para além de já serem muito recorrentes, não tiveram o impacto no espectáculo que deveriam ter, tendo-se reduzido a umas “bocas” de bastidores. O texto estava escorreito, sem hesitações, com uma dicção correcta e um ritmo adequado. As investidas de André McQueen em relação ao músico, se bem que da primeira vez poderiam ter tido algum humor, depois várias vezes repetido, o apontamento deixa de ser surpreendente e torna-se fastidioso. De qualquer forma, o jogo das sonoridades com as marcações dos actores estava muito bem conseguido.
A cenografia, da autoria de Daniel Vieira e de Ekkehard Wocke, apresenta uma linha de comboio ao longo do palco. Uma linha, que tal como a da vida, pode ser interrompida e tomar vários sentidos, dependendo da mudança da agulha. Uma linha que transporta emoções e, quer no início, quer no fim, é palco de diversas sensações originadas por encontros e desencontros. A linha de comboio sempre foi uma boa metáfora da vida, pois segue contínua e indiferente, apesar das convulsões exteriores a si. Por isso as intervenções do músico na primeira parte foram completamente desnecessárias e escusadas, já que ele não iria ter nenhuma intervenção no decurso da história.
A pausa para mudança de cenário, assumindo os carregadores deveria ter sido mais evidente, com um diálogo construído, como no texto A encenação, de Lauro António, no qual os carpinteiros de cena têm um belíssimo diálogo sobre o sentido do teatro. Neste caso, a devolução do carácter humanista aos técnicos do teatro diluiu-se numa troca de palavras quase inaudíveis.
Na segunda parte do espectáculo o grande achado cénico foi a descoberta da marcha nupcial é a marcha fúnebre, o que pode ser encarado como uma alegoria muito interessante. Relativamente aos adereços que coloriram os figurinos neutros dos actores, a gravata preta, para um casamento que não é o seu próprio e não tem então o sentido de enforcamento, não é adequada. A cor deveria seguir a dramaturgia e “entre-laçar” com a cor vermelha dos sapatos da sua companheira.
Nesta parte do espectáculo este grupo recorre a uma estratégia discutível de interacção com o público. O público não é apenas convidado a participar na cena de forma pacífica, como amiúde se observa em inúmeros espectáculos. O público é invadido no seu direito de estar a assistir a um espectáculo e entra em tensão ao pensar que lhe podem pegar na mão e conduzi-lo para o palco. Foi isso que aconteceu. A encenação, que cremos ter sido colectiva, decidiu não duplicar os papéis dos noivos, o que até poderia ser uma solução interessante para o trabalho de actor, mas ir à plateia buscar uma rapariga e um homem para interpretar os noivos que iriam casar. O ar de constrangimento e desconforto nos “actores à força” era visível. No final, depois do insólito casamento, os actores voltaram a chamar o público para o palco, convidando-os a dançar a valsa com os noivos. O público subia as escadas um pouco constrangido e a valsa lenta foi dançada sem o vigor que é suposto existir num casamento. No final as danças de roda resultaram mas a história do atribulado casal esvaiu-se naquele final não menos atribulado.
É sempre complicado decidir acerca do tipo de intervenção que é suposto haver por parte do público. Num tipo de espectáculo de rua, é natural, pelas características próprias do espectáculo, que o público é convidado a intervir de forma activa no processo. Num outro tipo de espectáculo, com palco à italiana, em que a personagem é exposta em evidência de uma forma que não foi natural, pode ser um motivo para que essa pessoa não volte ao teatro e engrosse as estatísticas do cinema. Se 9 em cada 10 espectadores escolhem o cinema em vez do teatro quando saem à noite, tratemos bem essa percentagem mínima que ainda resiste e arrisca numa ida ao teatro. Se em vez do baile a seco tivessem convidado o público para beber um copo à saúde dos noivos, comendo uns petiscos colocados no palco a preceito, o público sentir-se-ia acarinhado e até ia de boa vontade dar um pezinho de dança. É assim, com carinho e humanidade, que se entrelaçam as almas.

A moura de Salir

Salir convidou os visitantes a privarem, tanto uma realidade rural pouco íntima, como um tempo afastado que ficou no nosso imaginário colectivo como a época da magia: a Idade Média. Época obscura quanto à razão e à ciência, tornou-se luminosa pela literatura que chegou até aos nossos dias. Com as lendas do Rei Artur vieram os feitos maravilhosos de Merlin e Morgana. Com os feitos históricos de Afonso III chegaram as histórias das mouras encantadas. Segundo a lenda, ameaçado pelas tropas de D. Afonso III, o alcaide fugiu do castelo, tendo antes enterrado o seu tesouro, tendo em vista voltar mais tarde, quando conseguissem expulsar os cristãos usurpadores, para o resgatar. Quando os cristãos abordaram o castelo, encontraram-no abandonado, ocupado apenas pela jovem filha do alcaide, que rezava com fervor. Interpelada, explicou aos seus captores que havia preferido ficar no castelo a “salir”. Do alto de um monte vizinho, Aben-Fabilla avistou a filha cativa dos cristãos e, com a mão direita, traçou no ar o signo de Salomão, enquanto proferia uma fórmula mágica. Nesse momento, o cavaleiro D. Gonçalo Peres, que falava com a moura, viu-a transformar-se numa estátua de pedra. A notícia da moura encantada espalhou-se e, um dia, a estátua desapareceu. Em memória desse estranho sucesso ficou aquela terra conhecida por Salir, em homenagem à coragem da jovem moura. Ainda hoje se acredita que, em certas noites, a moura encantada aparece no Castelo de Salir. Dia 5 de Setembro foi uma dessas noites encantadas, nas quais a moura se desocultou perante a multidão. Às 23h30, conforme anunciado, surgem três imagens da moura, em sítios inesperados, acompanhadas de fumos coloridos com uma luz rosa. A moura explica que sempre viveu feliz naquelas terras, onde não havia fome e a terra era generosa, oferecendo figos, amêndoas, e outros frutos com que o mais comum dos mortais se podia deleitar. Conta o ataque dos cristãos e o encantamento feito pelo pai. Desaparece do cimo do torreão maior do Castelo, deixando no ar um fumo de saudade. Esta intervenção juntou genuinamente centenas de populares que quiseram confrontar-se com a bela ilusão da moura. Ouvir, uma vez mais, a história que sabem de cor, verem uma vez mais a imagem quem adivinham, mas passarem pela experiência do imaginário mágico que marca o prazer de fingir que se acredita.
Esta aparição da moura foi precedida por uma pequena animação teatral para manter atento o público que entretanto se tinha juntado ao torreão do castelo de Salir. No final a euforia da aparição conduziu os visitantes a uma festa em que todos os grupos intervenientes na animação deste evento se juntaram, tocando um tema para pular e saudar a despedida.
É sempre tocante quando, com poucos meios, se consegue mobilizar uma multidão a visitar um local recôndito e a acreditar numa ilusão. A entrada foi livre e o espírito saiu mais preenchido.

Uma república singular

Manuel Teixeira Gomes foi o autor homenageado pela ACTA por ocasião do aniversário do centenário da República. O primeiro presidente da República algarvio, homem de cultura acima da média, desempenhou um papel determinante na criação de um Estado de Direito no que se convencionou chamar a Primeira República. Alexandre Honrado, a convite da ACTA, tentou fazer um cruzamento de alguns dos momentos singulares da vida deste homem com excertos da sua obra literária. Momentos em forma de instantâneos que decoraram a vida e a obra do presidente literato. Procurando no livro das Actas do teatro, fornecido pela companhia, não encontramos a referência exacta das obras de que se socorreu Alexandre Honrado para construir o alinhamento dos textos de Teixeira Gomes. Mas a memória das descrições inesquecíveis remetem-nos para páginas do Inventário de Junho, Gente Singular, Novelas Eróticas, Maria Adelaide, Cartas Sem Moral Nenhuma, entre outros. Porém, para quem ainda não despertou para a beleza dos textos de Teixeira Gomes, uma referência directa aos textos incluídos no acerto dramatúrgico de Alexandre Honrado, seria certamente pedagógico, tal como a descrição do processo de descoberta que o dramaturgista fez acerca do autor. Alexandre Honrado focou o seu olhar em instantâneos de um Algarve grotesco, pontuando-o com outras de cariz mais sensual ou outras ainda de feição mais politizada como a referência directa ao discurso de Brito Camacho. Poder-se-ia perguntar porquê a escolha da conversa entre o jovem comerciante de frutos secos na Holanda e o judeu, em detrimento das descrições, ora de uma sensualidade estonteante, ora de uma graça fantástica, retirada do conto “Deus Ex-Machina”, integrado nas Novelas Eróticas, esquecendo a jovem Camila, patinando como criança e descobrindo-se como mulher nos braços do escritor. Ou a descrição do seu desesperado amor com a noiva sevilhana, ameaçado logo desde o início pelo pai desta que o achava indigno da filha por ele não ter “eira, nem beira, nem folha de figueira”. Uma descrição do capricho da menina em detrimento daqueloutra pesada e arrepiante, quando Teixeira Gomes a adivinha num cinema, acompanhada pelo então marido, incapaz de se voltar para trás para a ver, tal era ainda o peso da sua paixão… Poderíamos discutir até ao infinito quais os excertos que nos tirariam o melhor instantâneo deste homem singular.
Uma relação discutível ao nível do trabalho dramatúrgico foi a da assunção textual da personagem Maria Adelaide com a figura real de Belmira das Neves, bem como a evidência da figura de Teixeira Gomes no vilão Ramiro d’Arge. Quem leu o romance Maria Adelaide decerto encontra traços comuns nas suas personagens com Teixeira Gomes e aquela que foi a mãe de suas filhas. No entanto, uma ligação tão directa é abusiva, sobretudo quando no final do romance Ramiro d’Arge confessa ter recebido a notícia da morte de Maria Adelaide com euforia, chegando a saltar de alegria. Para além de não corresponder à verdade, não abona em favor da sensibilidade e da humanidade reconhecidas no escritor. Os romances são construídos com base em vivências, mas por serem uma construção que o escritor faz da realidade, não são a sua realidade enquanto vida mas a sua realidade enquanto criação poética. E retirar o fio que liga Maria Adelaide a Belmira das Neves é retirar a poesia à obra de Teixeira Gomes. E porquê modificar a imagem da despedida do mar, confundindo-a com as cores do rio, desvirtuando desta forma uma das imagens mais tocantes do romance, pois é no momento em que Maria Adelaide pede a Ramiro d’Arge para se despedirem “do nosso mar” que o protagonista do romance começa a olhar para a sua jovem amigada com um deslumbramento que vai para além do desejo puramente carnal, transformando-se nessa altura numa admiração estética. As cores com as quais gostaria de andar vestida são as do rio, pelo sol postinho, mas a ânsia da despedida antes da “viagem” é pelo mar.
Mas se o texto fica aquém de um olhar mais abrangente sobre a figura acutilante e deslumbrante de Teixeira Gomes, a encenação preencheu, de alguma forma, os hiatos deixados pelo texto. Como se estivessem no interior de uma câmara fotográfica gigante, as personagens sucedem-se umas às outras, mostrando a beleza captada do momento num tempo que é efémero. Foi pena não termos sido surpreendidos pelo clarão da explosão das lâmpadas de magnésio, essenciais ao ritual do retrato.
No princípio a República, nua, é adornada com a sua saia vermelha por Teixeira Gomes, como se fosse este presidente o primeiro a descobrir a sua força, a sua beleza, a sua sensualidade. De seguida o passar de testemunho da bandeira do Presidente à jovem República. Mas, se raciocinarmos de forma inversa, é a República que investe o Presidente com a sua bandeira e as suas cores para que ele possa governar o país. É de facto singular a jovem república, que já tinha nascido treze anos antes, receber das mãos de um presidente, a sua bandeira.
Os quadros sucedem-se com a qualidade a que os actores da ACTA já nos habituaram e confluem para um dos momentos altos em que, no silêncio, o corpo da bailarina Ana Filipa Antunes, coreografada por Evgeni Beliaev, irrompe do escuro lançando à multidão a luz da esperança, a luz que o povo faminto e iletrado do primeiro quartel do século XX precisava.
No quadro com Belmira das Neves, o discurso da sofrida mulher foi ilustrado pela imagem em vídeo da deambulação da República pelas arribas da costa algarvia. Este cruzamento leva-nos à questão: terá sido a República para Teixeira Gomes como o deslumbramento que se tem naturalmente por uma jovem que a rotina e o hábito vão destruindo aos poucos? Teixeira Gomes saiu de Portugal após dois anos de mandato na Presidência da República. Dois anos foi o tempo que durou a relação descrita no romance Maria Adelaide, que se iniciou nos segredos do amor aos dezasseis anos. Trocada dois anos mais tarde por uma rapariga de 14 anos, a jovem mulher sucumbiu de amor. Teixeira Gomes pode ter trocado a sua jovem república por um país onde tudo era novo e livre. Saiu de Portugal sem um apontamento ou livro. Nada que o fizesse lembrar o antigo literato ou político. Mas a jovem República não sucumbiu. Quase morreu de desgosto, teve uma crise de 48 anos, mas conseguiu renascer pela vontade de um povo que a amou e a fez sentir de novo jovem e bonita.
O convite feito a um aluno das escolas secundárias por onde o espectáculo irá passar no sentido de ler o texto inicial do espectáculo constitui uma boa estratégia de aproximação com os mais jovens, despertando-os para esta realidade tão próxima mas já tão longínqua da sua memória histórica.

A origem da tragédia


Património da Humanidade, classificada pela Unesco, a cidade de Mérida é o palco para o Festival de Teatro Clássico, o maior evento cultural da cidade e de Espanha, entre Julho e Agosto. Ano após ano vemos obras de autores clássicos serem revestidas por encenadores contemporâneos, dando uma nova roupagem aos problemas que com que a humanidade sempre se deparou. A questão académica que se coloca à partida, quando se começa a estudar uma obra de teatro clássico é se a tragédia poderá, em si mesma, conter a essência do pensamento contemporâneo. Quando nos deparamos com as obras de Sófocles, nas quais nos deparamos com uma construção dramatúrgica perfeita, percebemos que as questões essenciais da humanidade estão abordadas nesses textos. Édipo Rei desoculta inúmeros problemas relacionados com a questão da liberdade do Homem, com a sua capacidade de escolher ou não o seu destino, e com a capacidade de se perdoar a si próprio por um crime que cometeu sem uma deliberação intencional. Este tema foi retomado ao longo da história da humanidade, contudo sem a poderosa escrita original que colocou Sófocles na galeria dos imortais. Graças ao seu prestígio, foi tesoureiro da Liga de Delos e estratega ao lado de Péricles. O herói de Sófocles era dotado de uma humanidade irrepreensível e, por isso mesmo, incompreendida pelos outros homens. Os deuses, apesar de serem referidos, pouco interferem na acção da tragédia. A tragédia do rei Édipo confronta o homem com a sua incapacidade perante a força mais poderosa que os gregos acreditavam existir: o destino. Nem os deuses poderiam alterar a força do destino. Édipo tentou lutar contra o seu destino e acabou enredado nas suas malhas, de forma inconsciente, contra a sua própria vontade.
A versão apresentada no Festival Internacional de Mérida é de Jorge Lavelli e de José Ramón Fernandes. Uma visão que segue o texto original pontuando-o com um coro surpreendente, dirigido por Guilhermo González e com figurinos arrojados de Maria Luisa Engel. A encenação não restringe a cena ao espaço do palco. As personagens também desenvolvem o seu trabalho na orquestra, na própria plateia e nas colunas que ornamentam o antiteatro romano. O espectáculo começa com a inquietação do povo, prestando sacrifícios ao deus Apolo pelos tempos de devastação que a cidade está a sofrer: há pestilência, a terra está estéril, os animais não conseguem procriar e aos poucos a cidade está a morrer. Édipo é um rei amado pelo seu povo e este pede-lhe que salve pela segunda vez a cidade. Édipo diz que tudo fará para que a cidade volte a ser próspera e consulta um adivinho para que este lhe diga qual é a razão daquela devastação conjunta. O adivinho permanece diante do soberano e diz-lhe que a cidade está a sofrer porque está por vingar a morte do seu anterior rei: Laio, o primeiro marido de Jocasta. Édipo envida então todos os esforços para encontrar o assassino de Laio e proceder ao seu castigo, pois assim os deuses o exigem. Em confronto com um vidente cego, Tirésias, Édipo é acusado de ter sido ele próprio a assassinar Laio, facto de que não tem consciência. Depois desta terrível revelação o resto da tragédia é um contínuo caminhar para a verdade brutal: Édipo foi abandonado pelos seus próprios pais por causa de um oráculo terrível. Foi encontrado por um pastor que o levou aos seus soberanos de um reino distante, que o criaram como sendo seu filho. Quando quis saber o seu destino, Édipo consultou um oráculo. Confrontado com o seu terrível destino, fugiu para o mais longe que pôde, a fim de se libertar dessa maldição. Anos mais tarde confrontou-se com a consumação do seu destino profetizado mal nascera: tinha de facto matado o seu pai e casado com a sua própria mãe, de quem tinha tido uma descendência amaldiçoada. Laio era o seu pai e Jocasta a sua mãe. O destino estava cumprido. Para não ver mais a realidade que o tinha castigado daquela maneira Édipo vazou os olhou numa atitude de auto-mutilação, banindo-se a si próprio da cidade que o amava. O actor Ernesto Alterio interpreta um Édipo que vive de uma movimentação corporal muito especial. A sua movimentação leva-nos a pensar que se desloca constantemente no arame, procurando um equilíbrio que não tem. Creonte, interpretado por Paco Lahoz e Tirésias, interpretado por Juan Luis Galiardo são os dois sustentáculos deste espectáculo, oferencendo ao público uma belíssima visão de representação clássica. Creonte aparece como um general fiel, que detém o poder mesmo não exercendo o cargo de rei. Tirésias surge na cena preso numa camisa-de-forças, simbolizando o medo que os homens têm de ouvir a verdade, acusando-os amiúde de loucura. Curiosamente, desde a antiguidade clássica que os detentores da verdade são cegos, pois estes conseguem ver a essência do real para além das aparências. O coro, constituído por 15 elementos, é o elemento de destaque deste espectáculo. Aparece amarrado, conduzido pelo corifeu, simbolizando o senso comum. Este conjunto produz sonoridades surpreendentes, perfeitamente harmónicas, contrastando com o caos que acontece em cena. A sua movimentação em cena também é coreografada de forma harmónica, constituindo assim momentos essenciais para o equilíbrio da tragédia. Jocasta, interpretada por Carme Elias, tem uma movimentação estranha, condicente com a negação da realidade que está a antecipar. Ela mantém uma relação de cumplicidade muito próxima com o marido, recusando-se a aceitá-lo como seu filho. A aceitação desta verdade coincide com a sua recusa, obrigando-a ao suicídio.
Este espectáculo tem, ainda no século XXI, um efeito devastador. Apesar de já sabermos a história, estamos ali até ao último minuto na esperança de que Édipo siga o conselho de Jocasta e não procure escavar nas entranhas da verdade, ou que os pastores que trocaram a criança abandonada entre si já não estejam vivos, ou que Tirésias se cale e não revele o que sabe. Esperamos até ao último minuto que a verdade não se revele cruel e sofremos com Édipo e com Jocasta o castigo da revelação. É o momento da expiação e apiedamo-nos das personagens que sofreram tão cruel destino. Está cumprido o objectivo da tragédia: a nossa própria purificação.

ACTA - Trabalhar para o futuro


A ACTA está a retomar a sua função de educadora através da Arte com a reposição dos espectáculos Auto da Frequentada, espectáculo baseado no texto de Gil Vicente Auto da Índia, e O Longo Sono da Heroína, espectáculo baseado no conto A Bela Adormecida, adaptado por Sissel Paulsen e Ana Paula Baião.
Descrevendo um pouco a interacção que se vive nessas intervenções da ACTA, posso referir o efeito que a ACTA operou num grupo turma do 10º ano de Humanidades com o qual trabalhava na disciplina de Introdução à Filosofia. O estímulo era, a partir do espectáculo O Longo Sono da Heroína, encenado por Ana Paula Baião, fazer com que os alunos encontrassem soluções, colocassem questões e mesmo descobrissem um final para a história de uma adolescente que começou a ter problemas com droga. As situações eram várias: uma mulher que foi abandonada por um médico que a engravidou, tornando-se revoltada e alcoólica; a visão da infância de uma criança amada, em paralelo com uma criança desprezada; a entrada em coma da adolescente. Cabia aos alunos a tarefa de decidir se ela iria morrer ou não. A observação que fiz surpreendeu-me, pois alunos que nunca se manifestavam nas aulas cooperaram entusiasticamente nas tarefas propostas pelos actores, discutindo em grupo, apresentando depois os resultados das suas polémicas, sob a forma de uma dramatização, comentando as suas vivências. De uma forma talvez um pouco incipiente, conseguiram ultrapassar o bloqueio da expressão oral, levando-me a crer que a motivação a partir de estímulos propostos pela Expressão Dramática poderá ser mais eficaz que os métodos mais tradicionais e, desta forma, acreditar que esses estímulos devam ser aplicados amiúde, nomeadamente nas aulas de Filosofia.
O espectáculo O Longo sono da heroína, foi buscar inspiração ao imaginário do conto infantil da Bela Adormecida. Começava por mostrar um homem feliz com o nascimento da sua filha. Esse homem, nesse dia, recebeu um telefonema de uma outra mulher, exigindo-lhe as mesmas condições de vida que ele ia dar a essa menina, para o outro filho que havia tido um ano antes, com essa mulher. Ele respondia que tinha sido um erro e que não tinha mais responsabilidades, pois já lhe tinha dado dinheiro para se desembaraçar da criança. A mulher, então, jurava vingança. Os alunos, divididos em grupos, eram então solicitados a ilustrar como seria a reacção dos respectivos pais perante uma e outra criança em situações tais como a primeira doença e o primeiro dia de aulas. Depois de mais uma intervenção dos actores em que se mostrava o cuidado que os pais tinham em relação à rapariga, que se tornava numa super protecção e o desprezo que a mulher abandonada dava ao filho, os alunos eram convidados a fazer perguntas às personagens (à mulher abandonada e ao homem que a abandonou, que era médico) segundo a técnica do hot sit. Aqui surgiram questões interessantes como a contradição ao nível da ética por parte do médico, uma vez que ele, defendendo a vida, tinha pago para se fazer um aborto. Continuando a história e o imaginário da Bela Adormecida, quando a rapariga faz dezasseis anos, o irmão é convidado para a sua festa de aniversário. Este dá-lhe a provar substâncias alucinógenas e ela fica em estado de coma. Os alunos são então convidados a representar o final, decidindo se ela morre ou se sobrevive a esta experiência. Todos os alunos participaram activamente, fazendo questões espontaneamente aos actores e dando o seu contributo de forma séria e conscienciosa.
Esta experiência foi mais um contributo para a minha crença na tese de que um ensino que não só não esqueça mas sobretudo privilegie estratégias baseadas na estética teatral, concorrerá para um maior gosto pela aprendizagem por parte dos alunos e, sobretudo, uma maior consciência dos problemas / questões com que todos nos debatemos no mundo contemporâneo.
O outro espectáculo, O Auto da Frequentada, encenado por Luís Vicente, também tem contribuído para o desenvolvimento da imaginação nos alunos. Depois da apresentação do espectáculo os alunos conversaram com os actores sobre o que sentiram.

Falaram dos figurinos contemporâneos e compreenderam que tinha sido uma escolha deliberada para melhor dar a perceber uma relação directa dos textos com a maneira de sentir e agir dos homens de hoje.
Ao falar de cada um dos figurinos perceberam que a ama vestia um vestido que era a sua cama porque naquela altura as pessoas recebiam as visitas no quarto. Como ela estava sempre a receber visitas, estava sempre na cama. Referiram também o figurino do castelhano, com um cachecol de penas e um chapéu vermelho, lembrando um galo. Essa figura tinha esse aspecto porque simbolicamente era como um galo, vaidoso, cantando para impressionar.
Finalmente falaram da questão ética. Os actores começaram por perguntar por que é que os amigos da Constança entravam sempre pelas traseiras. Os alunos disseram que só o marido podia entrar pela porta de frente. E porquê, porque era contra a moral e os bons costumes receber homens em casa com o marido fora. Quando questionados sobre a questão da legitimidade de se pedir a uma pessoa para esperar por ela quatro anos, as opiniões dividiram-se. Alguns alunos disseram que sim, que se duas pessoas se amavam tinham de esperar uma pela outra. Outros disseram que dependia do que eles tivessem combinado entre si. Outros ainda disseram que perante uma situação dessas deveriam divorciar-se para estarem mais livres para o que pudesse acontecer. No fundo, a moral entre duas pessoas dependia directamente dos acordos e das regras estabelecidas entre elas, desde que não prejudicassem o resto da sociedade.
É minha convicção que os exercícios de expressão dramática levam à assunção de uma maior consciencialização sobre o conceito de cidadania, numa dinâmica de aprendizagem por descoberta. A estética, assume-se assim, desde as origens, como conceito estruturante da maturidade do Homem, concorrendo para a abstracção de uma realidade que se quer representar e descrever.

Desassossego na comuna


Fernando Pessoa escreveu, João mota encenou, Carlos Paulo interpretou. A obra nasceu. Bernardo Soares, o heterónimo mais próximo de Pessoa anuncia: “Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto."
Inteiramente baseado no “Livro do Desassossego” de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, Desassossego é um espectáculo de teatro, interpretado pelo actor Carlos Paulo e pelo músico Hugo Franco, que desperta no espectador emoções díspares.
Fernando Pessoa, ele próprio, será o músico, sem palavras, mas que através da execução musical de temas originais e, recorrendo aos mais variados instrumentos, preencherá silêncios, anunciará as mudanças marcará os ritmos - maestro por excelência – dos seus heterónimos. Carlos Paulo interpretou seis personagens que compõem o imenso caleidoscópio de vivências que “O Livro do Desassossego” propõe; O Escriturário, A Criança, O Mendigo, O Palestrante, Homem/Mulher, Revoltado. Dono de uma extraordinária presença em palco, Carlos Paulo convida-nos a fazer uma reflexão sobre um século que acabou e que teve em Fernando Pessoa um dos maiores expoentes, pela clareza, a inteligência, a frieza com que soube interrogar e interrogar-nos: no fundo, o Desassossego Português através da palavra do maior poeta da língua portuguesa do século que findou. Terrivelmente individualista, por vezes dolorosamente individualista, cenário pregado nas paredes de papel, de um homem que sofre e se lamenta poeticamente no escuro da sua sala abandonada de quarto alugado, o LD é em rigor a grande peça de teatro em monólogo sussurrado de uma alma que nunca se dá a conhecer no seu intimo
No cenário, o músico Hugo Franco está sentado dentro do quadro de Almada, escrevendo na mesa da brasileira, lendo em voz alta o que os seus pensamentos vão construindo. E escreve, sempre. E não deixa de dizer: "Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior."
Na personagem do escriturário Carlos Paulo, acompanhado pelas sonoridades criadas ao vivo por Hugo Franco, chama-nos a atenção para a necessidade da banalidade da vida, elemento fundamental que repõe o equilíbrio de todo um mundo de escriturários banais e necessários. Todos com um patrão, também ele simples e banal: "Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.
E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução."
A cena em que Carlos Paulo interpreta a criança, órfã da vida, balançando-se constantemente, acompanhado por uma canção de embalar, é tocante. A elevação da plataforma que simboliza a cama contribui para a elevação do sentimento de perda perante a imensidão do mundo.
Quando Carlos Paulo interpreta o palestrante, com os seus “Conselhos às mal-casadas”, provoca um corte na acção do espectáculo, essencial para a construção do desassossego que lhe está inerente. Mas uma das cenas chave deste espectáculo é o quadro Homem/Mulher, que provoca a dualidade que existe em cada um de nós. O figurino. Composto por um vestido de cauda rosa-choque, que o actor exibe quando está de costas para o público, transforma-se em fato preto masculino quando este se vira de frente para a audiência. A enquadrar essa personagem ambígua estão dois espelhos que marcam o paradoxo do sentimento masculino/feminino no andrógino que existe em cada um de nós e que nos cria o desassossego inultrapassável perante a vida: “Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia como um diamante possível numa cova a que se não pode descer. É todo o peso e toda a mágoa deste universo real e impossível, deste céu estandarte de um exército incógnito, destes tons que vão empalidecendo pelo ar fictício, de onde o crescente imaginário da lua emerge numa brancura eléctrica parada, recortado a longínquo e a insensível.”
Por fim, o revoltado revela o desígnio a que está votado: o de ser o poeta visionário que antecipa a missão incómoda de anunciar o futuro. “Um dia talvez compreendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de intérprete de uma parte do nosso século; e, quando o compreendam, hão-de escrever que na minha época fui incompreendido, que infelizmente vivi entre desafeições e friezas, e que é pena que tal me acontecesse. E o que escrever isto será, na época em que o escrever, incompreendedor, como os que me cercam, do meu análogo daquele tempo futuro. Porque os homens só aprendem para uso dos seus bisavós, que já morreram. Só aos mortos sabemos ensinar as verdadeiras regras de viver.” Uma digna e brilhante homenagem ao poeta maior da língua portuguesa.

Agosto Azul


Dia 1 de Agosto Portimão acordou um pouco mais azul. E ao longo deste Agosto que convida ao veraneio, a cidade foi encantando os seus visitantes com as inúmeras instalações dispersas pelos seus inúmeros recantos. Um pouco mais azul e um pouco mais poética, tentando captar a essência do desejo que inspirou Manuel Teixeira-Gomes a descrever de forma única o âmago do Algarve.
A autarquia de Portimão convidou em Agosto de 2009 a associação A Pele – Espaço de Contacto Social e Cultural, para conceber um projecto comemorativo dos 150 anos do nascimento de Manuel Teixeira Gomes. João Pedro Correia, originário de Portimão, aceitou com entusiasmo o desafio e começou a gizar um projecto de arte comunitária que envolvesse a população em geral. Depois de algumas incursões por várias obras do autor, Agosto Azul foi o texto eleito, a partir do qual João Pedro Correia e Maria João Mota fizeram uma adaptação dramatúrgica. Em Março de 2010 foram feitos contactos com 4 centros de dia que acolheram o projecto de braços abertos, tornando-se os fiéis intervenientes para o produto final. Ao longo do ano foram distribuídos retalhos, pedaços de lãs, para que as antigas artes, processadas por mãos sábias, pudessem devolver à comunidade o saber único e ancestral.
Para a concretização do projecto a associação A Pele contou com o apoio e a participação de 50 instituições que puderam oferecer 170 participantes ao espectáculo comemorativo da figura de referência da sua terra. Dia 19 de Agosto, sob a direcção artística de João Pedro Correia, estreou na praça 1º de Maio, em Portimão o espectáculo Agosto Azul. Com bancadas amovíveis para 800 espectadores, enquadrando o edifício da câmara Municipal, o espectáculo inicia-se com uma criança abrindo a porta do edifício. Sai para o meio da praça, deita-se no chão e começa a escrever uma carta. É a imagem de Manuel Teixeira Gomes. Em 1901 e em 2010, como anuncia o seu alter-ego do cimo da janela dos paços do concelho. A criança adormece e, dos quatro cantos da praça, surgem vozes sem idade cantando uma canção de embalar. A canção “Noites de Luar” é entoada com a sabedoria e ternura dos avós, das jovens mães, dos irmãos mais velhos. A praça enche-se de personagens em camisas de noite e pijama embalando os sonhos do jovem presidente. A banda da Sociedade Filarmónica Portimonense, dirigida por Rogério dos Santos Marques interpreta um tema enquadrando os espectadores na época romântica do princípio do séc. XX ao mesmo tempo que a praça se compõe com peças cenográficas que evocam a intimidade do acto de vestir. Através do chamamento feito pelo coral Adágio a criança desperta para a procura. Espreita pelas gavetas encontrando as peças do seu traje de presidente e joga às escondidas consigo próprio. As personagens de diferentes idades entram também em camisas de noite vestindo o seu traje de passeio. Os candeeiros de época de pé alto compõem a ambiência romântica e envolvente que implica o compor a figura para viajar. E ei-los que pegam nas malas de viagem e se dirigem para a estação de comboios. Os destinos são diversos mas as personagens unem-se numa mesma viagem. Lenços brancos acenam numa despedida sentida para a longa viagem pela Europa. O coral Adagio reproduz os sons característicos do comboio. O comboio parte e a criança fica novamente só. E nessa solidão, encantada com o mistério do mar, ao som de uma sonata de Beethoven, a sua imaginação é despertada para a visão de bailarinas que dançam sobre as ondas, etéreas e diáfanas. A criança é acordada do seu deslumbramento pelas guias turísticas que conduzem os transeuntes, movidos pelo ímpeto de saber de Teixeira Gomes, a visitarem os locais de interesse turístico. A criança é novamente levada pela sua imaginação admirando exóticas bailarinas com os requebros característicos da dança do ventre a comer figos lançando olhares de desejo. Esse desejo que é chamado de uma forma mais viva e intensa, porque genuína, entregue nos corpos e na música do Rancho Folclórico da Figueira. Ao som do baile mandado os pares descobrem e ilustram o prazer de se enlaçarem, tendo como público privilegiado um Teixeira Gomes adolescente que se deixa seduzir por uma moça do povo mais sabida e atrevida. O rancho sai, despede-se e o adolescente fica só, reflectindo sobre o prazer dos corpos quando estes se envolvem com a água. É nesse momento que as fontes da praça 1º de Maio se erguem e albergam debaixo das suas águas os corpos belos dos adolescentes que dançam extasiados com a descoberta das sensações. E as sensações são invadidas de cor com os veraneantes a irromperem pela praça, transformando-a numa imensa praia colorida. A banda filarmónica acompanha os sons da praia que, aos poucos, deixa entrar o barco Agosto Azul, embarcação pesqueira. As mulheres esticam as redes que vêm repletas de peixe grado, interpretado por crianças que saltam sobre as redes. Os pescadores recolhem as redes e a embarcação regressa ao porto. Ao porto dos amores perdidos regressa também uma canção. O fado “ai quem me dera ter outra vez 20 anos” é entoado de forma tocante por uma senhora de avançada idade, seguida por um cortejo de mulheres amadas, desejadas, cobiçadas por Teixeira Gomes. Enfrentam-no mas não deixam de lhe reafirmar que gostariam de ter outra vez 20 anos para o amar outra vez. O final é marcado pela escrita das cartas. Numa homenagem à correspondência, cada intérprete entra escrevendo um postal que distribui ao público.
Uma grande produção que, com os meios adequados, conseguiu produzir um espectáculo de rua numa noite de Agosto Azul. Uma noite fantástica na qual o teatro comunitário prestou uma grande homenagem ao Homem e à Cidade.