Friday, November 26, 2010

Escrita na paisagem

É já o sétimo festival Escrita na Paisagem que o projecto colecção B, dirigido por José Alberto Ferreira apresenta em três cidades diferentes: Arraiolos, Évora e Fundão. Segundo o director deste festival, “Escrever na paisagem é o gesto cultural mais continuada e aprofundadamente repetido pelo ser humano na sua relação com o território. (…) Sobrepõem-se ao longo do tempo narrativas, pontos de vista e marcas de actividades que são formas, espaços, pessoas e movimentos, ora presentes ora ausentes, constituindo o que pode pensar-se como um imenso arquivo geológico, mas também antropológico, político, cultural, performativo, ma exacta medida em que é dos homens, das suas opções de vida e das suas práticas culturais e performativas que resulta o que chamamos paisagem.”
Foi integrado neste festival que a companhia Philippe Genty apresentou um curso intensivo ao longo de duas semanas e que teve a sua apresentação final no dia 13 de Agosto. Neste curso os participantes foram introduzidos à linguagem visual da companhia. No trabalho final, Memória de uma Amnésia, os participantes manipularam objectos, marionetas, e exploraram as relações do próprio corpo com objectos do quotidiano, como tostas, candeeiros, grãos de café ou malas de viagem.
No exercício final os participantes actores começaram por descrever ilhas que ao longo da performance se vão diluindo, estabelecendo ligações entre os corpos. Os corpos estão espalhados ao longo do palco. Entra um marionetista que, armado de asas, conduz uma boneca. A boneca toca nos corpos espalhados, que despertam e ganham vida. Uma vida que os obriga a saírem da sua própria ilha, do seu isolamento e a relacionarem-se como o outro, a comunicar. Uma apresentação plena de significados simbólicos, de ligações entre os objectos, de exploração do corpo com o eu próprio e com o fora de si próprio. Um resultado excelente que aliou a qualidade de representação à entrega dos actores ao projecto.

Os grandes textos


Um pouco através do conhecimento empírico verificamos que é na época de férias que temos disponibilidade mental para pegar nos grandes clássicos e nos dedicarmos à leitura. Daí talvez a edição de tantos romances clássicos com a edição de alguma imprensa semanal. Em relação ao Teatro, verificamos que o panorama a nível nacional conta com o CITEMOR, a decorrer entre 24 de Julho e 13 de Agosto. Em Almada, um dos festivais de referência a nível europeu, este ano tendo como eixo principal a poesia, desenrolou-se entre 4 e 18 de Julho. O Festival de Teatro de Braga de 2 a 11 de Julho. Em Espanha, se procurarmos quantos festivais de teatro se organizam no Verão, a resposta é imensa. De 16 de Julho a 29 de Agosto, o anfiteatro romano de Mérida acolhe a 56.ª edição do Festival de Teatro Clássico da capital da Extremadura espanhola, uma vez mais com o apoio do governo regional. O Festival de Teatro Clássico de Cáceres é um dos festivais de Teatro mais importantes de quantos se celebram em Extremadura tendo como eixos fundamentais as representações de obras de Teatro Medieval e do Século de Ouro, apresenta-se todas as noites do mês de Junho. Grec, em Barcelona, abre os seus palcos de 13 de Junho a 1 de Agosto. E Cádiz, Almagro, e até Castillo de Niebla, tão próximo da fronteira algarvia, apresentam os seus trabalho nos meses de Verão, conseguindo atrair milhares de turistas para esses eventos. Fazendo uma leitura breve da programação desses festivais verifica-se que a escolha é eclética e não se menosprezam os textos clássicos mais trágicos e cruéis. Tito Andronico, Antígona, Prometeu, Édipo, apresentam-se regularmente com lotação esgotada nos festivais de Verão em Espanha.
Desta vez a escolha recaiu sobre o Festival de Teatro e Dança Castillo de Niebla. O espectáculo foi Calígula, de Albert Camus. Recordando a encenação de Paulo Moreira para a ACTA em 2000 pareceu apropriado fazer um exercício comparativo entre as duas encenações. A encenação que foi apresentada no dia 7 de Julho em Niebla teve encenação de Santiago Sánchez. Teve música ao vivo, executada por uma violoncelista e pelos próprios actores que tocavam tambores a um ritmo alucinante, com uma sincronia perfeita. Teve uns figurinos onde de destacava o bom gosto e uma cenografia belíssima, com uma roda gigante a circular de um lado ao outro do palco, simbolizando o domínio do poder material, a grande roda da vida, a ambição do poder em detrimento da vida humana. Tinha umas coreografias memoráveis, onde se denotava um domínio do corpo e da técnica da máscara. O espectáculo tinha tudo isto mas não teve a direcção de actores que marcou Paulo Moreira como encenador de referência. Cesónia, interpretada pela actriz e cantora Garbiñe Insausti era fraquíssima. Não tinha projecção de voz nem atitude em cena. Era apenas uma presença bonita. A Mereia faltava o lado perverso que lhe faz ser o negativo de Calígula. A Calígula faltava a loucura misturada com a inteligência e agudez de espírito que lhe permitiu utilizar a lógica a seu bel prazer, justificando a sua barbárie.
É bom de vez em quando podermos sair da nossa região e percebermos o privilégio do Algarve em ter uma companhia como a ACTA e um actor como Luís Vicente que nos deu o Calígula mais verosímil a que pude assistir. Um texto de referência que pode e deve ser apreciado em qualquer altura do ano.
É também para reflectirmos nisto que servem os festivais de Teatro. E para não nos esquecermos que, como lembrou José Monléon, um dos organizadores de Festivais de Teatro no fórum sobre este tema no Festival de Almada, “o teatro existe para relembrar a democracia, a solidariedade e a cultura humanista, que se encontra cada vez mais descaracterizada nas sociedades europeias”. Este é, de facto, um dos verdadeiros objectivos dos festivais de teatro e das manifestações artísticas no seu todo, uma responsabilidade que não pode ser esquecida pelos artistas nem pelos programadores culturais.

Novos actores


Em tempos de crise é sabido que as expressões artísticas se tornam amiúde motores de vontades e pólos de desenvolvimento de regiões mais desfavorecidas. A Escola Secundária Pinheiro e Rosa apostou num curso profissional, que terá a sua continuidade no triénio 2011/2015, no qual os alunos têm acesso a ferramentas que lhes permitem contribuir para o desenvolvimento cultural da sua região. Este ano a escola Pinheiro e Rosa, de Faro, formou os primeiros jovens com capacidade para mudarem a face cultural da terra de onde são originários, uma vez que esta escola da capital algarvia recebeu alunos de vários concelhos da região, desde Vila Real de Santo António a Loulé, passando por Olhão e Loulé.
Se o Algarve está carenciado de Companhias de Teatro com programação regular, que possam apresentar o seu trabalho em todos os concelhos, é necessário também que os equipamentos culturais se comecem a abrir a novas estruturas que surjam e que venham colmatar o hiato existente entre a necessidade que as populações sentem de ver novas propostas e o aparecimento de novos actores capazes de responder aos desafios mais audazes.
Durante o curso estes 14 jovens ultrapassaram vários obstáculos, desde a distância que tinham de percorrer de sua casa até à escola, até a exigência que lhes foi feita pelo carácter complexo das disciplinas teóricas. Passaram por provas públicas avaliadas por júris especialistas nas matérias, aprenderam a ouvir as críticas e a pensar sobre um espectáculo. Voz, Movimento, Interpretação, foram as disciplinas técnicas do curso que lhes permitiu apresentarem-se perante um júri composto por elementos exteriores à escola, impressionando-os com a qualidade dos trabalhos expostos.
Estes jovens criaram projectos prontos a ser desenvolvidos em qualquer autarquia da região que foram acreditados por entidades independentes, externas à escola. É justo que a região comece a acreditar no potencial criativo dos seus jovens e na possibilidade da cultura, e da expressão dramática em particular, poder ser geradora de postos de trabalho e de riqueza.
Os jovens actores integraram, ao longo de 420 horas, estruturas ligadas à cultura, profissionais e não profissionais, que os acolheram com a generosidade que lhes é própria. A Companhia de Teatro do Algarve, ACTA, integrou 6 destes jovens num espectáculo, A Cova dos Ladrões, que circulou por quase todas as salas de espectáculo da região, e um outro jovem para o VATE, a subestrutura que ganhou merecidamente o prémio Gulbenkian para a educação. A companhia de teatro Al-Masrah acolheu duas jovens que, mesmo após a conclusão oficial do seu estágio profissional, apresentaram um espectáculo em Tavira, Min-Mal-Show, e irão entrar em itinerância no mês de Agosto, a partir de dia 19 no Convento do Carmo, em Tavira. O grupo de teatro Te-Atrito acolheu dois estagiários, que desenvolveram um intenso trabalho de acompanhamento de grupo de teatro em Faro, Quarteira e Alte, culminado o seu trabalho com a apresentação de uma versão do texto Chama Devoradora, de John Steinbeck. Por fim, a Associação Cultural Música XXI acolheu três estagiários que ao longo de seis meses desenvolveram quatro produções, dentre as quais o espectáculo Maria Adelaide, apresentando-as em várias cidades e vilas da região como Alcoutim, Vila Real de Santo António, Albufeira, Faro e Lisboa, tendo já agendado espectáculos para Setembro.
Estes catorze jovens têm o saber, têm a experiência. Agora só lhes falta terem os órgãos decisores da sua região a acreditar no seu talento.

Escola de princesas


“Quem é a princesa do papá?” Esta poderia ser uma das frases com que começaria o espectáculo Escola de Princesas, com autoria e encenação de João Evaristo. Todas as meninas são as mais belas princesas do mundo para os seus pais. Mas… será que elas quereriam mesmo ser princesas? Em caso de dúvida a resposta é sim e as meninas adolescentes são enviadas para uma escola onde supostamente aprendem a ser princesas. Aprendem a andar, a manterem-se em forma, a mostrarem-se apetecíveis e desejáveis, a beijar. Estas são as aulas de dia, ministradas por uma preceptora, porque à noite, nos encontros sorrateiros, a escola é outra: é escola de mulheres que partilham experiências entre uma passa num cigarro e um copo de aguardente. E na escola da vida são os pais que aprendem através das conversas secretas das raparigas o que é ser adolescente hoje em dia. Já não se fala do primeiro beijo mas da experiência de andar com um homem mais velho, ou com uma mulher, ou como ultrapassar a dor de uma violentação. João Evaristo, para além de ter dividido a cena em dois momentos chave, o dia e a noite, dividiu a partilha da noite em dois instantes: o círculo das amigas e a rapariga que está em frente ao espelho de si própria, a desabafar com as suas memórias. E se o jogo da verdade ou consequência pode ser divertido, a catarse das memórias pode ser cruel. Na partilha continua a observar-se o mal-estar perante o elemento que decide não transgredir as regras. A rapariga que decide não fumar é apontada pelas outras e levada a retirar-se. No final a preceptora junta-se ao círculo de confiança e confidencia que, também ela, foi uma candidata a princesa, rejeitada pelo seu príncipe, que nunca a irá buscar montado num cavalo branco para serem felizes para sempre.
O texto foi construído a partir de testemunhos das próprias formandas e o jogo cénico que João Evaristo conseguiu construir foi bastante adequado. As actrizes, à excepção de Marta Vargas, que desde a sua iniciação teatral no grupo de escola secundária de Lagoa há 18 anos, não tem parado de nos surpreender, são todas estreantes. Como espectáculo resultante de uma formação de 50 horas está um trabalho limpo, com uma carga irónica e mordaz, adequada à idade das jovens alunas. O trabalho de interpretação ainda está incipiente mas com algum empenho e depois de soltarem o texto das suas preocupações principais, este trabalho poderá ser um alerta muito sério sobre a sexualidade na adolescência, neste caso, entre as jovens mulheres. Um espectáculo a rever e a apostar como ponto de partida para a educação sexual nas escolas.

Revisitando a cantora


Ionesco reflectiu sobre o problema da comunicação. A compreensão que está para além da palavra dita. Duval Pestana, nos dias 3 e 4 de Julho fez uma adaptação do texto A Cantora Careca, fábula da dificuldade de comunicação e introduziu um coro grego armado de um computador portátil.
O espectáculo começa com um texto em voz off sobre o problema da meta linguagem. Ao centro está um computador que domina a cena. Depois da voz integrar o espectador na cena um coro a duas vozes, descendo a escada da plateia até ao palco, cantando uma mnemónica para crianças. Instalam-se numa plataforma mais elevada que lhes permite fixarem-se como observadores da cena. Cada elemento do coro tem uma máscara neutra. Assim que se sentaram nas cadeiras que lhes estavam atribuídas retiraram a máscara e ligaram os computadores portáteis. Metáfora da máscara contemporânea, tanto ao nível linguístico como ao nível da imagem pessoal.
A luz transmuta-se e a acção passa para o casal do senhor e da senhora Smith. Nesse momento o diálogo começa criando um sentimento de absurdo entre a sua comunicação. Cada um tem o seu portátil e fala ao mesmo tempo que escreve. Tocam à porta e o casal retira-se para receber condignamente os convidados. A criada integra-os no território do casal Smith. Na sala de estar começam, através da linguagem ficam com a ilusão de que se conhecem. Igualmente com um computador portátil, conversam digitando o texto, com o olhar vítreo pousado no ecrã. Viajaram no mesmo compartimento de comboio, habitam a mesma residencial e dormem na mesma cama. Chegam à conclusão de que são casados quando referem a filha Alice que tem um olho branco e o outro vermelho. Chegam à conclusão de que são Donald e Elisabeth. A criada, que aparece em cena sem máscara nem portátil, vem a cena e explica que não houve um cuidado na especificação da linguagem. As cores dos olhos de cada filha estavam trocadas. Logo, o casal não é o mesmo. E aqui se começa a cair nas armadilhas da linguagem e dos meandros da lógica.
Quando os dois casais se encontram a relação da realidade com a linguagem formal intensifica o lado absurdo do texto. Os quatro utilizam computador portátil. Tocam à porta, a senhora Smith vai abrir e não é ninguém. A cena repete-se até à quarta vez, que é o comandante dos bombeiros. A conclusão lógica a retirar desta cena é que quando a campainha toca, nunca está ninguém do outro lado. Só à quarta vez é que está alguém do outro lado da porta. O bombeiro entra e começam a contar histórias caricatas até à entrada da criada, onde se chega à conclusão de que ela e o bombeiro se conhecem intimamente. Sem máscaras nem subterfúgios. Saem de cena, deixando os dois casais sozinhos e entregues a si próprios e aos seus portáteis. O espectáculo termina com a famosa frase que dá o título à peça: “E a cantora careca? – Continua a usar o mesmo penteado”.
Este espectáculo teve a possibilidade de ser apresentado com as condições ideais. Uma luz belíssima, que mudava de acordo com as alterações do discurso, uma cenografia que acentuava a função de observador do coro, figurinos feitos à medida dos actores, suporte musical que evoca o título do espectáculo. Se a todos estes atributos Duval Pestana tivesse podido juntar bons actores, teria sido certamente um excelente espectáculo. Os jovens actores ainda não têm um domínio da língua portuguesa para defenderem este texto como Ionesco merece. Há problemas de dicção, de projecção, de terminação das palavras na vogal correcta. Este é um trabalho que ao nível da encenação está profissional mas ao nível dos actores ainda se encontra muito incipiente. O público jovem, muito indisciplinado, divertia-se enviando mensagens pelo telemóvel e conversando distraidamente sobre as suas vidas em geral. Esta é a armadilha dos espectáculos com entrada gratuita. Assim não se educa o público a valorizar o produto cultural. De qualquer forma, perpassa sempre invisível a sombra acutilante da cantora careca.

Dançar Teixeira Gomes

Dançar a obra de um escritor amante da estética e das viagens foi o desafio lançado ao Quorum Ballet. Daniel Cardoso inspirou-se na vida e na obra de Manuel Teixeira Gomes para criar uma coreografia que posicionasse o espectador no limbo que o escritor viveu entre o séc. XIX e o séc. XX. O início do espectáculo mostra-nos um espaço cénico cortado ao meio por uma cortina translúcida e uma luz que evoca a espuma do mar. Há excertos de textos de Manuel Teixeira Gomes interpretados pelo actor Miguel Simões que, vestido com figurino da época vai evoluindo ao longo da coreografia, passando incólume por todos os bailarinos, como um observador atento da realidade. Há uma mágoa que transparece nas palavras do escritor, quando afirma que chegou tarde demais a num século demasiado velho. A convicção de que poderia ter usufruído mais da vida numa época em que se assistiu a uma das grandes revoluções no mundo artístico levou-o a lamentar esta sua passagem de transição entre dois mundos que quase se opuseram. No palco a cortina cai e a cena enche-se com as emoções do escritor recriadas pelos corpos dos bailarinos. As histórias de sedução que preencheram as memórias de Teixeira Gomes são evocadas com sensualidade e beleza. Margareta, Cecília, Cordélia, Inês, Susana, e tantas outras mulheres que a pena do literato elegeu, foram dançadas e devolvidas ao presente efémero que a dança oferece. O escritor senta-se à secretária e cria com intensidade, reproduz as histórias que a memória lhe guarda e os bailarinos tornam-se a matéria que dá corpo às reminiscências do autor. É muito interessante o plano em que se expõe o autor a escrever à secretária enquanto os bailarinos despertam a sua memória numa dança de sensualidade muito próxima do sentir deleitoso do viajante esteta.
No final o escritor é celebrado através de uma das suas belas descrições do Algarve ao mesmo tempo que cai sobre os bailarinos uma chuva de areia sobre a qual, voluptuosamente, dançam, e partilham com os espectadores a sensualidade e a languidez dos corpos quando se oferecem ao sol, acariciando a areia.
Mais uma brilhante criação de Daniel Cardoso que homenageia de forma adequada um dos mais talentosos e injustamente esquecidos escritores portugueses. Esta criação teve dramaturgia de Pedro Alves, música original de Jorge Silva, desenho de luz de Vitor Cândido cenografia de Hugo Matos e foi dançado por Theresa da Silva C., Filipe Narciso, Elson Ferreira, Inês Godinho, Inês Pedruco, Hannah Lagerway e Gonçalo Andrade.

Saturday, April 10, 2010

Os ensaios, a descoberta de um espaço

Este ano o clube resolveu apostar num texto que vai à procura do sentido onde aparentemente não existe: ao espaço vazio.
O texto pretende penetrar numa atmosfera de sonho e vamos ver se isso é possível.