Hoje, em Tavira, continua o Teatro no Inverno, promovido pela companhia de Teatro Al-Maserah, com o apoio da autarquia tavirense. Assim, pelas 23 horas, no REF Café TIXA, partilhará com a público a história da bela contadora Sherazade, que pelo poder da palavra conseguiu salvar a sua vida e a de centenas de outras jovens casadoiras. Sexta, dia 30, será a vez do Espectáculo Só, com encenação de Marta Inocentes, da companhia Bruxa Teatro, de Évora, no espaço da Corredoura, às 21h30. No Sábado 31, às 16h30, haverá uma Conversa com Mário Barradas, sobre Descentralização Teatral. Às 21h30 repete o espectáculo Só da Companhia A Bruxa Teatro. No Domingo, às 16h00, o espaço da Corredoura passa o documentário de Margarida Cardoso Era Preciso Fazer as Coisas. O Teatro no Inverno também promove Oficinas de Formação. No fim-de-semana de 31 de Janeiro e 1 de Fevereiro o enfoque será dado à Interpretação, Orientada por Isolda Ruiz Barrios. Partindo da exploração de técnicas de trabalho do actor, trabalhar através de exercícios de improvisação a contracena, o texto dramático, as múltiplas formas e estilos de representação, abrindo assim caminhos criativos para criação da personagem. Os participantes têm oportunidade de experimentar, improvisar, construir pequenas cenas e descobrir grandes momentos.
Por outro lado, no extremo do Barlavento, haverá lugar para se juntarem centenas de amantes da arte dramática, que farão parte do III Fórum Permanente de Teatro de Amadores. Este encontro ocorrerá entre 30 de Janeiro a 1 de Fevereiro de 2009, em Lagos, numa organização da ANTA - Associação Nacional de Teatro de Amadores, em parceria com o Teatro Experimental de Lagos, e com o apoio da autarquia local. Ao longo dos três dias, a organização propõe um conjunto de painéis de formação, espectáculos de teatro e actividades paralelas, bem como um espaço dedicado à divulgação da actividade dos diversos grupos presentes.
Sexta, dia 30 de Janeiro pelas 21h30, os participantes assistirão ao espectáculo do grupo anfitrião (TEL) Auto da Vida e da Morte, de António Aleixo. No dia seguinte os participantes poderão usufruir de diversos painéis, como a Formação de Actores em áreas diferentes que vão desde O Jogo Dramático, à criação do eu, até à Iniciação à Morfo-Psicologia Actoral. Para além da formação de actores existem também formações em Iluminação, em Produção, e em Adereços. No Sábado haverá também lugar para a apresentação de um livro com peças de teatro inspiradas no Algarve, assim como uma tertúlia sobre teatro.
Também em Faro a noite é de Teatro. Dia 30, no Centro de Artes Performativas do Algarve (CAPa) a companhia de teatro Te-Atrito irá estrear uma produção. O Babete Real é um projecto que se baseia no texto homónimo de Raul Malaquias Marques, escritor português contemporâneo, texto esse que mereceu uma menção honrosa no Prémio Garrett de Teatro para a Infância e Juventude em 1988. Com encenação de José Carlos Garcia, director artístico e actor da Companhia de teatro Chapitô, e com larga experiência no ensino pela arte, este espectáculo resulta de uma parceria com a DEVIR / cAPA – Centro de Artes Performativas do Algarve, a DREALG, as Câmaras Municipais de Faro e Lagoa, a ARC Músicos de Faro e o Instituto Português da Juventude – Delegação de Faro. São objectivos deste projecto contribuir para um maior conhecimento e divulgação da dramaturgia portuguesa e para o desenvolvimento da reflexão crítica sobre questões relacionadas com as práticas dos poderes instituídos e seu efeito sobre os cidadãos, a liberdade, a responsabilidade política, a intervenção cívica e a reflexão sobre a própria existência e a sociedade em que vivemos. O espectáculo tem a duração de 55 minutos e nele participam três actores, um dos quais músico. A música não só é tocada ao vivo, como também foi composta propositadamente para este trabalho. À apresentação, segue-se um debate sobre o teatro e a sua prática, sobre os temas atrás referidos e sobre a obra de Raul Malaquias Marques, escritor e jornalista, com a presença do encenador. A simplicidade e a economia de meios (nomeadamente de espaço e de equipamento) presentes neste espectáculo servem também como incentivo ao desenvolvimento da prática do teatro na escola.
Por esta amostra de uma agenda parcial se pode ver que o Teatro no Algarve está a ter outro fôlego. Há vontade, há público. Falta o financiamento que a vontade e o público merecem.
Sunday, March 15, 2009
Já não há herois
No dia 24 de Janeiro o teatro das Figuras trouxe a Faro o último trabalho de Beatriz Batarda. De Homem para Homem é o título de um espectáculo encenado por Carlos Aladro, baseado no texto Jacke wie Hose, do dramaturgo alemão Manfred Karge, que por sua vez se inspirou numa história real. É a história de uma sobrevivente. Numa época em que o trabalho escasseava, Ella Gericke, uma jovem mulher, depois de se ver viúva, tenta vencer a penúria através de sucessivos enganos. Assume a identidade do marido morto, trabalhando na condução de uma grua. Põe uma braçadeira nazi para não lhe fazerem perguntas indiscretas, adopta a postura de um guarda num campo de concentração para fugir à inspecção militar, volta à identidade de mulher para não ser acusada de desertora, prostitui-se por um prato de grão, chora copiosamente a morte de um coelho e obriga os prisioneiros a caminharem sem descanso ao longo da sua cela. No final da sua vida descansa em paz, na pele de uma personagem dos seus contos infantis.
A cenografia de Manuel Aires Mateus, arquitecto que também assinou o cenário do espectáculo Turismo Infinito, é imponente, exibindo uma mão gigante, que ocupa grande parte do palco, cujos dedos caem da boca de cena para a plateia, e ao longo da qual a actriz vai evoluindo, no seu ser frágil, perante o poder simbolizado. Ella Gericke apenas um joguete, um ponto minúsculo no meio de uma engrenagem dominante. Os dedos da mão escondem os diversos adereços que a actriz utiliza ao longo do seu desempenho.
O desenho de luz de Nuno Meira desoculta os vários matizes com que a actriz pinta o seu desempenho. São 26 quadros. 26 retratos de uma mulher que usou de tudo para sobreviver.
A música de Manuel Aires Mateus consegue evocar as sensações adequadas ao momento que o público está a viver.
Beatriz Batarda tem o desempenho esperado de uma actriz com a sua experiência. Uma noção de ritmo adequada, uma presença que se impõe pelas sucessivas metamorfoses do corpo. As transmutações da voz, porém, não fazem justiça ao papel que lhe é exigido. Beatriz Batarda prendeu o público num monólogo de 90 minutos. Mas faltou-lhe o génio de Maria João Luis no espectáculo Stabat Mater. Faltou-lhe a força de Ana Leitão no espectáculo Stabat Mater Furiosa. Faltou-lhe a versatilidade de Telma Saião no espectáculo Valsa nº6. Faltou-lhe a poesia de Cláudia Nóvoa no espectáculo Ela uma vez. Monólogos com textos fortes sobre a coragem de mulheres que não aceitaram ser mais um dedo na grande mão que domina. Textos que apontaram mulheres que, a seu modo, foram mais um grão de areia na engrenagem. Mulheres vulgares que se tornaram heroínas. Tal com dizia Fernado Mora Ramos, “Manfred Karge, que trabalhou no Berliner Ensemble, conhece bem a lição brechtiana, a lição contida na famosa A Boa Alma de Setsuan, que demonstra como os bons neste mundo são considerados tolos. E esta peça é isso, uma manobra global de estranhamento no sentido brechtiano. (…) Ella foi uma criatura que amou, foi desejada, foi solidária, que não optou, mas não quis a guerra, que teve de matar, que foi perseguida, que vendeu o corpo, que se meteu debaixo das mantas com um empresário, que traficou… É a história de uma sobrevivente num mundo que impede a vida, a história de uma vida solitária e clandestina que se multiplicou em identidades forjadas ao sabor dos condicionamentos.” Mas se esta é uma encenação sobre a dignidade humana, faz parte de um estranhamento não só brechtiano interrogarmo-nos como o próprio encenador o fez quando coloca em questão o seguinte dilema: “Às vezes pergunto- me se o autor entende que é melhor morrer dignamente do que viver indignamente”. Esta é a história de uma mulher que não tem a mínima piedade pela pessoa humana. Mantém os seres humanos sob um penoso cárcere e tortura e liberta coelhos da sua prisão. É a história dos que não merecem ficar na história. Para quê então elevá-la à condição de grande dilema universal?
A cenografia de Manuel Aires Mateus, arquitecto que também assinou o cenário do espectáculo Turismo Infinito, é imponente, exibindo uma mão gigante, que ocupa grande parte do palco, cujos dedos caem da boca de cena para a plateia, e ao longo da qual a actriz vai evoluindo, no seu ser frágil, perante o poder simbolizado. Ella Gericke apenas um joguete, um ponto minúsculo no meio de uma engrenagem dominante. Os dedos da mão escondem os diversos adereços que a actriz utiliza ao longo do seu desempenho.
O desenho de luz de Nuno Meira desoculta os vários matizes com que a actriz pinta o seu desempenho. São 26 quadros. 26 retratos de uma mulher que usou de tudo para sobreviver.
A música de Manuel Aires Mateus consegue evocar as sensações adequadas ao momento que o público está a viver.
Beatriz Batarda tem o desempenho esperado de uma actriz com a sua experiência. Uma noção de ritmo adequada, uma presença que se impõe pelas sucessivas metamorfoses do corpo. As transmutações da voz, porém, não fazem justiça ao papel que lhe é exigido. Beatriz Batarda prendeu o público num monólogo de 90 minutos. Mas faltou-lhe o génio de Maria João Luis no espectáculo Stabat Mater. Faltou-lhe a força de Ana Leitão no espectáculo Stabat Mater Furiosa. Faltou-lhe a versatilidade de Telma Saião no espectáculo Valsa nº6. Faltou-lhe a poesia de Cláudia Nóvoa no espectáculo Ela uma vez. Monólogos com textos fortes sobre a coragem de mulheres que não aceitaram ser mais um dedo na grande mão que domina. Textos que apontaram mulheres que, a seu modo, foram mais um grão de areia na engrenagem. Mulheres vulgares que se tornaram heroínas. Tal com dizia Fernado Mora Ramos, “Manfred Karge, que trabalhou no Berliner Ensemble, conhece bem a lição brechtiana, a lição contida na famosa A Boa Alma de Setsuan, que demonstra como os bons neste mundo são considerados tolos. E esta peça é isso, uma manobra global de estranhamento no sentido brechtiano. (…) Ella foi uma criatura que amou, foi desejada, foi solidária, que não optou, mas não quis a guerra, que teve de matar, que foi perseguida, que vendeu o corpo, que se meteu debaixo das mantas com um empresário, que traficou… É a história de uma sobrevivente num mundo que impede a vida, a história de uma vida solitária e clandestina que se multiplicou em identidades forjadas ao sabor dos condicionamentos.” Mas se esta é uma encenação sobre a dignidade humana, faz parte de um estranhamento não só brechtiano interrogarmo-nos como o próprio encenador o fez quando coloca em questão o seguinte dilema: “Às vezes pergunto- me se o autor entende que é melhor morrer dignamente do que viver indignamente”. Esta é a história de uma mulher que não tem a mínima piedade pela pessoa humana. Mantém os seres humanos sob um penoso cárcere e tortura e liberta coelhos da sua prisão. É a história dos que não merecem ficar na história. Para quê então elevá-la à condição de grande dilema universal?
O bobo, o ministro e o Rei
Foi no dia 30 de Janeiro que a companhia de teatro Te-Atrito estreou a sua última produção. Tratou-se de um espectáculo baseado no texto de Raul Malaquias Marques Um bobo para o Reino e encenado pelo director artístico do Chapitô, José Carlos Garcia.
O texto é uma fábula irónica que discute a legitimidade do poder por governantes que perderam as competências essenciais para o exercer. A perda da voz é a alegoria das sucessivas perdas de capacidades fundamentais para o exercício de uma boa governação. O rei perdeu a voz e entregou o governo do seu país ao bobo. Este aceitou o pesado fardo da governação a contra gosto mantendo, contudo, uma relação de lealdade para com o seu soberano. O Rei tem a clareza de espírito para perceber que a sua incapacidade o impede de governar e foge do seu país, juntando-se a uma trupe de saltimbancos onde imita vozes de animais. O bobo continua a manter o espírito crítico ao serviço da governação e o seu ministro é elevado à categoria de bobo, porém, sem conseguir exercer a sua função de forma correcta. É um bobo sem piada. Teve de ser despromovido e continuar a ser ministro.
Esta história é transmitida através de uma economia de meios que contribui para o ritmo do espectáculo. Os actores Pedro Monteiro, Rita Neves e Igor Martins desdobram-se em várias personagens que a encenação simbólica de José Carlos Garcia redescobre através do adereço, do pormenor no figurino, do suporte musical. Assim, os três actores são indiferenciadamente as empregadas de limpeza, o ministro, o bobo, o rei, o médico. A música assume-se como uma personagem. O babete é o símbolo do poder e passa do pescoço do rei para o do bobo, quando este assume o poder. Mas o babete é também o toucado de uma das empregadas da limpeza. Um carrinho de transporte de bagagem é palanque, veículo de transporte do soberano, mesa de operações, trono real. A operação em que o médico verifica as cordas vocais do rei é hilariante, pois retira da garganta do soberano um molho de cordas embaraçadas ao mesmo tempo que se ouvem uns ruídos distorcidos de guitarra eléctrica. Veredicto: as cordas vocais do soberano estão desafinadas.
Os sons que preenchem o espectáculo, concebidos e transmitidos pelo actor Igor Martins são também elementos que contribuem para penetrar no imaginário do espectador. As vozes do povo chamando pelo Rei, as diferentes sonoridades da guitarra eléctrica, os guizos do bobo são pormenores relevantes para a assunção das várias mensagens que o texto quer transmitir. A consciência do Rei quando percebe que chegou a sua altura de abdicar do trono, entregando-o à pessoa mais arguta do reino: o bobo, que através da observação atenta da realidade aponta os pormenores a serem modificados. O Rei, personagem apolínea, porque racional, coloca sobre os ombros de Diónisos o pesado fardo da ordem. O bobo passa a Rei e o Rei segue, livremente, com a sua vida divertindo as pessoas através dos sons estranhos que solta da sua garganta. Depois dos sons de guitarra eléctrica passou a imitar animais. A contenção no gesto de Rita Neves quando imita o gato, o cão, o porco, é equilibrada, anunciando a parte que faz perceber o todo.
No final o ministro que é especialista no protocolo e dá sentenças com pronúncia francesa só consegue desempenhar o papel de ministro, pois não tem o espírito suficientemente arguto para ser engraçado. Só tem perfil para ministro.
O texto foi adaptado à realidade dos três actores, preservando-se contudo a sua mensagem original. É importante saber acabar e saber o tempo exacto para o fazer. Delegar o poder quando as competências se nos falham enquanto não lesamos a coisa pública com a nossa incapacidade de discernimento.
Este é um projecto de educação pela arte que convida a reflectir sobre valores como o respeito pelo serviço do poder, sobre a cidadania, sobre o exercício da governação. Um trabalho que convida os jovens a voltarem ao teatro e os mais velhos a descobrirem em si a capacidade de brincar. Um trabalho de puro prazer que obriga a pensar com seriedade nos valores ético-políticos a partir dos quais se constrói a sociedade. Este espectáculo resulta de uma parceria com a DEVIR / cAPA – Centro de Artes Performativas do Algarve, a DREALG, as Câmaras Municipais de Faro e Lagoa, a ARC Músicos de Faro e o Instituto Português da Juventude – Delegação de Faro.
O Tempo dos demiurgos

Ponto, linha, plano. Poderia ser o título de uma obra de Kandinski mas aplica-se, neste caso, ao trabalho de um jovem português que se dedicou ao novo circo e à técnica do mastro chinês. Num espectáculo de 40 minutos João Paulo Santos faz o espectador passar por estas três dimensões, assumindo o risco de trabalhar sem rede. Um tempo que corre mais devagar. O tempo do criador de universos.
João Paulo Santos tem um olhar vivo que fala, transmitindo toda a emoção e força de viver. Acrobata em fulgurante ascensão, João Paulo Santos iniciou a formação em Artes Circenses no Chapitô, em Lisboa. Aos 20 anos rumou para França onde se formou ao nível superior na consagrada escola francesa Centre Nacional des Arts du Cirque, em Châlons-en-Champagne. Com a sua companhia “O Último Momento”, criou “Peut-être” com Guillaume Dutrieux, que foi seleccionado para Jeunes Talents Cirque em 2004. Contigo é uma obra criada por dois homens que gostam de inventar novas linguagens para o corpo. João Paulo Santos convidou Rui Horta para entrar nesta aventura de criação, o que constituiu um desafio para os dois. João Paulo teve de se libertar da rigidez da acrobacia, presente na arte do mastro chinês. Rui Horta é o homem que, desde cedo, nos habituámos a ver reinventando a dança contemporânea. Juntos, segundo João Paulo Santos, criaram um espectáculo assemelhando-se a duas crianças a construir um castelo. A música, admirável, foi criada para este espectáculo por Victor Joaquim e Tiago Cerqueira e o figurino esteve a cargo de Pedro Pereira dos Santos.
No espectáculo Contigo há uma dimensão onírica que advém da noção de tempo que o acrobata desenvolve. Há um sentido de alteridade no qual se brinca com o plano vertical, impossível de alcançar para a maior parte dos espectadores. João Paulo observa o mastro, salta e agarra-se à linha vertical, para logo a seguir se separar dela, como se de um jogo de sedução se tratasse. Parte para uma distância maior e de novo se aproxima de um salto do objecto desejado, abraçando-o. Mais uma vez se separa, desta vez para uma distância maior. E o salto é mais convicto, carregado de uma vontade que o faz abraçar-se com mais força. E finalmente desenvolver um diálogo mais próximo com o plano vertical.
João Paulo sobe pelo mastro com uma leveza e uma subtileza desconcertantes. Faz-nos pensar que é fácil o desafio vertical. No entanto, quando chega ao topo, mostra que a queda dos graves é um facto real e que a gravidade é uma lei da física. Quando atira uma pedra para o chão e ela cai ruidosamente o espectador apercebe-se que só ao acrobata é dado o poder de desafiar as leis da física. Só no instante em que a pedra cai, o espectador se confronta com o perigo de se trabalhar sem rede.
João Paulo Santos articula alguns objectos que entram em diálogo com o mastro chinês. A cadeira transforma-se em mochila, transportada até ao topo do mastro, para aí se deter qual posto de vigia e repouso do guerreiro. Para além da cadeira João Paulo leva consigo uma vara que transforma em remo, em monóculo, em pau de chuva, em vara de equilibrista. Os objectos jogam um jogo de diferentes identidades, ajudando o acrobata a assumir também várias personalidades. Assim, João Paulo Santos é um explorador que assume o risco da aventura, desocultando várias faces do humano. Ele é, a um tempo, Galileu estudando a queda dos graves, o Principezinho, explorando o universo do seu pequeno planeta, o aventureiro pronto a gritar “Terra à vista!” depois da proeza de cruzar o oceano. E é apenas a criança que reinventa o sentido dos objectos, alterando a sua essência dentro de um jogo de sentidos e significados.
Com a sua vara, João Paulo Santos cria um elo entre o Céu e a Terra, os dois arquétipos primordiais que unidos, conceberam a multiplicidade do real. Recuando aos mitos mais antigos que criam o imaginário colectivo da humanidade, Mircea Eliade conta que numa tribo nómada da Austrália, os Achilpa, os homens acreditavam que o ser divino Numbakula tinha aberto um buraco no céu, descido por uma vara até à Terra e, depois de ter criado a vida e toda a multiplicidade do real, ungiu a vara com o seu sangue, subiu por ela e desapareceu num buraco no céu. A partir daí a tribo passou a olhar a vara como um objecto sagrado que unia os dois mundos. Neste espectáculo João Paulo Santos devolveu ao espectador o olhar inocente do mito cosmogónico. Em contigo nós fomos a tribo dos Achilpa que assistiu maravilhada à criação do mundo pelo ser divino Numbakula. Nos 40 minutos de terror sagrado o público sentiu o poder do objecto sagrado, dominado por um ser que, não sendo sagrado, tem o dom de chegar aos nossos corações.
João Paulo Santos tem levado este espectáculo a todos os continentes. E, com uma linguagem que ultrapassa a palavra, tem conseguido chegar à emoção daqueles que assistem à verdade e ao risco deste acrobata. João Paulo brinca com as várias potencialidades deste jogo do mastro. Agarra-se, desliza, enrola-se, deixa-se cair. Neste espectáculo a destreza física foi articulada com a leveza de uma coreografia concebida para o espaço. Um espectáculo em que se sustém a respiração e se suspira de alívio, reconciliando o ser consigo mesmo.
Estreado no Festival de Avignon em 2006, onde foi muito bem acolhida pelo público e programadores internacionais, o espectáculo assume o perigo. É que em palco não há rede de segurança nem fios de metal presos à cintura, adivinhando-se ocasiões de fazer suster a respiração. É como se o tempo no topo de tudo corresse mais devagar. O tempo do demiurgo.
O Teatro Municipal de Portimão está a preparar uma residência artística com João Paulo Santos e apresta-se a ser um dos primeiros teatros a programar uma rede internacional de Novo Circo.
Monday, November 24, 2008
A culpa da fantasia

O espectáculo Sonho, produzido pelo “Projecto Novos Actores” teve por base o derradeiro filme de Kubrick, para muitos cinéfilos filme de culto, para grande parte da crítica, uma desilusão enquanto filme. Por ter sido um projecto que despertou amores e ódios tão intensos foi um acto de coragem Renato Godinho ter pegado na visão de Kubrick de Traumnovelle, de Arthur Schnitzler e fazer dela uma adaptação para teatro. O elenco foi constituído por cinco jovens actores, formados na Escola Profissional de Teatro de Cascais, com alguma experiência de palco e com a ousadia necessária para arriscarem num projecto desta complexidade. A Escola Profissional de Teatro de Cascais facultou também os sete figurantes necessários à produção do espectáculo.
Esta produção apresentou-se no magnífico espaço do museu Castro Guimarães, em Cascais. É um espectáculo de itinerância, no qual os espectadores são convidados a seguir os actores desde o claustro do museu até ao seu interior, passando por inúmeras salas de decoração requintada. Os espectadores entram e é-lhes facultado um folheto concebido com apuro, onde são convidado a participar naquele ambiente de emoções que será o espectáculo. No claustro do museu ouvem-se soar acordes jazzísticos, serve-se leite em copos de cocktail e entram personagens vestidas com requinte, que convidam os espectadores a partilhar com o corpo as sonoridades sentidas. Há pares a dançar dentro do claustro. Público que foi convidado a partilhar aquele momento por bonitas raparigas envergando vestidos de noite. De repente chegam as personagens principais. Também participam na festa mas começam a dar-nos conta das suas conversas. Um médico que está a ser insistentemente assediado por duas raparigas encantadoras diverte-se mas não consegue disfarçar o embaraço de não lhes poder dizer educadamente que não está interessado no seu convite. Pelo seu lado, a mulher do médico está também a ser vítima de uma provocação por parte de um homem com quem dança e de quem se despede educadamente. Depois deste episódio o público é conduzido para uma sala no interior, onde se recria o quarto do casal em destaque na festa do claustro, Artur e Sofia, interpretado por Joana Castro e Romeu Vala. Vêm divertidos da festa, contando um ao outro as peripécias vividas. Perguntam-se mutuamente se deveriam ter motivos para ter ciúmes e é aqui que o verdadeiro enredo começa. O ciúme, fruto da imaginação e da construção de fantasias faz-se sentir no médico Artur Fridick a partir do momento em que a sua mulher lhe confessa ter tido uma fantasia erótica com um desconhecido enquanto estavam a passar férias num local distante. Artur fica ferido no seu orgulho e confessa a sua esposa, Sofia, que nessas mesmas férias também ele tinha tido um deslumbramento estético por uma rapariga desconhecida que passeava na praia. Diónisos a quebrar a ordem apolínea, As circunstâncias, tanto para um como para outro, não permitiram que nada de físico acontecesse. Mas ficou instalada a dúvida: será que se eu tivesse oportunidade me manteria fiel à pessoa que realmente amo? A partir da formulação dessa dúvida na consciência de ambos o espírito de festa e alegria modifica-se e começa a pairar uma nuvem negra de dúvida, propícia à destruição da confiança entre os dois. O médico recebe um telefonema informando-o que um colega acabou de falecer e sai abruptamente de casa. O público é convidado a segui-lo através de corredores que vão desocultando o desejo através da apresentação de fotografias a preto e branco de um par amoroso envolvendo-se numa praia deserta. Um trabalho lindíssimo de um erotismo latente que acompanha a escalada de emoção do espectáculo.
Artur chega a casa do falecido colega e consola de forma polida e educada a sua filha, Anya, interpretada por Lia Carvalho. Foi um momento intenso, de comoção, no qual, inesperadamente, Anya lhe revela o seu afecto, beijando-o repentinamente. Artur escusa-se com estupor e, quando regressa o noivo de Anya, o ambiente volta aparentemente à normalidade. Artur sente-se perturbado com o encadeamento de todas estas revelações e, quando abordado por uma prostituta, interpretada por Sara Matos, segue-a sem pensar. No quarto conversam. Artur, incapaz de lhe tocar fisicamente, toca-a profundamente na alma. Sai, e incapaz de voltar para casa vai para um bar a fim de tentar pôr as ideias em ordem. O público segue-o até uma sala de jantar com uma mesa posta ricamente adornada com loiça refinada, onde todos os pormenores eram dispostos com esmero. Foi nessa sala que Artur decidiu ter a aventura da sua vida. Reencontrou um antigo colega de medicina, interpretado por Ricardo Alas, que se dedica a tocar piano de olhos vendados em festas onde o ambiente é no mínimo suspeito. As mulheres são deslumbrantes e os participantes, envoltos num imenso secretismo, só podem entrar na festa se usarem máscara e disserem a palavra-passe. A fantasia de Artur começou a trabalhar e encontrou um estratagema para entrar na festa mistério. O público foi convidado a deslocar-se de novo ao claustro onde, para entrar, teve de colocar uma máscara neutra. Tornou-se parte do ritual. Dentro do claustro seis jovens raparigas envergavam, para além de uma máscara veneziana, uma capa de cetim que as cobria da cabeça aos pés. A música que Kúbrick utilizou no filme De Olhos Bem Fechados foi a música utilizada para criar a ambiência de ritual orgiástico que estava prestes a acontecer. A um sinal do líder do ritual as raparigas abrem as capas e revelam os seus corpos num tango coreografado por Natacha Tchitcherova, ao som de uma música utilizada noutro filme protagonizado por Nicole Kidman: Moulin Rouge. Pouco ousado, quer nos figurinos, quer na atitude das jovens dançarinas, à qual faltava o olhar perturbador da sedução. Mas é no meio desta festa que Artur é desmascarado e enxovalhado perante a multidão. É obrigado a retirar a máscara, revelando-se como intruso numa festa só para convidados. Sai da festa vexado e, a partir desse momento, o rumo dos acontecimentos modifica-se e Artur vê-se envolvido num vórtice vertiginoso de eventos que o perturbam: o desaparecimento do seu amigo pianista, o desaparecimento da prostituta com a qual conversou, a morte de uma rapariga que o tinha defendido na festa. Fora de si vai falar com o amigo Henrique Gussman, que o alerta para os perigos de alguém que quer passar a frequentar um mundo ao qual não pertence. Henrique revela a Artur uma série de peripécias, criadas para o proteger, incluindo a prestação de Lena, contratada para dissimulamente o afastar de perigos reais. Artur volta a casa e conversa demoradamente com a sua mulher. Percebe finalmente porque não pertence àquele mundo, conseguindo ultrapassar a fantasia do sonho com a efectiva consumação da carne. O fim do caos é consumado com o regresso a Diónisos, instalando-se finalmente a ordem apolínea.
Esta obra que Renato Godinho adaptou para teatro revelou inteligência na adaptação do espaço do Museu Castro Guimarães, conjugando o interior daquele espaço histórico com o suporte artístico das fotografias a preto e branco do casal na praia. Reconhece-se o trabalho intenso dos jovens actores na manifestação das emoções requeridas a um texto tão complexo. O jovem cicerone Igor Sampaio e Melo cumpriu de forma adequada o seu papel. Sóbrio, elegante e atento aos espectadores com mais dificuldades na deslocação entre as cenas, foi o cicerone ideal. Às raparigas figurantes ainda falta aquela atitude e aquele olhar insinuante que provoca em quem as vê a capacidade de sonhar. Um projecto que cumpre os seus objectivos e convida o espectador a penetrar de forma carnal no mundo do sonho.
Friday, November 21, 2008
Benvindos ao Paraíso

Uma mulher com um vestido elegante e sapatos de salto alto empurra um homem que se encontra acocorado num carrinho de transportar mercadorias. O homem toca um pequeno acordeão e atravessa o palco transportado nesse lento empurrar, lembrando o regresso aos primeiros tempos de ligação quase uterina, em que fazia parte de um outro corpo. Aqui a mulher assume-se como a condutora de decisões e de seres. Seres que se deixam conduzir entoando uma melodia triste. Esta é uma imagem que atravessa todo o espectáculo, uma vez que assumidamente nele se vai brincar com a identidade de género. Paraíso é a referência ao estado que o comum dos mortais persegue quando assiste a um musical norte-americano. O cliché é assumido para se discutir a questão da identidade sexual.
As mulheres de Olga Roriz assumem habitualmente uma identidade marcadamente feminina, trajando vestidos que lhes marcam a figura e calçando sapatos de salto alto que, tal coturnos da antiga Grécia, lhes eleva a personagem. Os três tipos de relação abordados de forma caricatural pelo casal de apresentadores eram: o casal em que ambos olham na mesma direcção, não havendo uma subjugação. O segundo, era o casal em que olham um para o outro, conduzindo-se como um tango. Neste caso a mulher é conduzida, subjugada pelo homem. No terceiro caso, a relação é do tipo que um depende do outro. Neste caso a mulher é altamente dependente do homem. Partindo desta imagem Olga Roriz constrói toda uma teia de relações complexas onde o corpo se alia à voz e ao movimento, resultando desse misto uma leitura que desoculta um significado ambíguo.
Olga Roriz joga com a atitude perante a vida. Metáfora esperada da atitude num palco: a cantora inexperiente, que se sujeita ao julgamento mais impiedoso, e a diva que passa incólume a toda a cena e se assume como detentora de plenos poderes do palco. No palco, tal como na vida, o que conta é a atitude. O movimento procura ilustrar o conteúdo de uma ideia, fugindo ao virtuosismo de um tecnicismo estéril. Assim, Astaire e Rogers dançam em palco exibindo os passos da ilusão, assim como os encalhados da vida esperam no seu confortável maple o par ideal que os puxa para o encontro com o Paraíso. A sátira de Olga Roriz é contundente quando nos recorda a carta de um desertor, da autoria de Boris Vian, interpretado por Maria Cerveira, enquanto Pedro Santiago Cal vai atirando com flores para trás das costas. E esta imagem forte, de uma realidade brutal entra em confronto com a canção de amor My Funny Valentine, interpretada também por Maria Cerveira. Uma canção perante a qual se sente a entrega de um coração apaixonado, esperando uma resposta em conformidade. Às vezes essa resposta é artificial, como o são os paraísos, como o são os fetos disfarçados de palmeiras. Mas a música continua, assim como a esperança. A esperança é a única centelha que faz com que a cantora inexperiente receba uma humilhação desmedida, ao ponto de ficar encharcada e continuar a dançar. Contrastando com a imagem da rapariga humilhada pelo seu par assume-se a ideia de felicidade quando os bailarinos deslizam alegremente nos seus confortáveis sofás, poiso de figuras teatrais que sorriem promovendo o paraíso e de figuras etéreas, mostrando ao mesmo tempo como é fugaz.
Um dos momentos marcantes de todo este Paraíso revela-se na dança sensual entre duas bailarinas, executando um tango assumidamente como mulheres. Ambas de vestido preto e elegante, de saltos altos, rodopiam ao som de um tango, ultrapassando um dos ideais convencionais do relacionamento heterossexual: na dança, como na vida, há um que domina e outro que é dominado. Assim como é tocante o solo que Pedro Santiago Cal desenvolve dançando à volta de um poste, trocando os papéis convencionais.
Porém, a ousadia e a provocação atingem o auge na canção de Ana Carolina Homens e Mulheres, interpretada por Catarina Santana. A atitude da bailarina é provocadora e no palco desenvolve-se um misto de encontros e desencontros pouco convencionais. Quando se ouve “eu gosto de homens e de mulheres. E você o que prefere?” o nosso olhar convencional desliga e começa a perspectivar noutras direcções. Por fim a bailarina abate-se ao cantar o tema Bang-Bang, imortalizado por Nancy Sinatra no filme Kill Bill. E permanece exposta e derrotada no seu vestido lamé até ser expulsa do paraíso.
O final é o fechar de um ciclo. O homem regressa pelo seu próprio pé e senta-se confortavelmente a tocar o pequeno acordeão. Depois de uma passagem pelo Paraíso o regresso à música genuína, à vida. O regresso, enfim, à imortalidade.
Com desenho de luz de Celestino Verdades, arranjos musicais de Renato Júnior e cenário de Olga Roriz e Pedro Santiago Cal, este Paraíso envolve o espectador numa viagem iniciática onde se confronta com o seu próprio desejo e regressa à vida transportando novas emoções. Um tributo à vida. Plena e condimentada de vários aromas.
O Cabaret da Estrada

Nos passados dias 27 e 28 Tavira teve a oportunidade de receber o último espectáculo da digressão inicial da produção Caravan Cabaret. Um espectáculo encenado por Marta Pazos para divertir, dirigido a toda a família, ideal para as noites de Verão.
O espectáculo começa com uma pequena intervenção junto do público: os actores deambulam por entre a assistência, assumindo diversas personagens. Umas um pouco diferentes do cidadão comum, outras adoptando as suas caricaturas mais frequentes. O homem armado, cuja mulher, de cabeça coberta por um lenço, o segue como uma sombra, que olha de forma intimidatória para os espectadores. A rapariga que corre toda a plateia a gritar pelo Chico, a menina pequena que ainda usa o horrendo penso nos óculos para corrigir o estrabismo, o “pintas” de óculos escuros, sempre a morder o esquema. Depois a famosa brasileira, professora de aeróbica, de rádio ao ombro, muito enérgica, a puxar pelo “alto astral” e preocupada com a hidratação. Esta última personagem sobe ao palco e convida dois voluntários, que pertencem ao elenco, para “aquecer” o público. Aquecer os pulsos para treinar as palmas, e aquecer as gargalhadas. Como cenografia, apenas a imagem de uma caravana prateada, com as letras Caravan Cabaret iluminadas por cima. A encenação propõe, então, uma visão teatral do interior do cabaret com os actores já como personagens, a aquecerem fora da caravana, sem a luz de cena a incidir. Depois entra um ciclista que, apesar de prenunciar um número de perícia, dá duas voltas ao palco, cai, e traz a reboque, presas por uma corda, as personagens do elenco que integra o Cabaret. Nesse momento o elenco interpreta um dos temas imortalizados por Liza Minnelli no filme Cabaret. Assume-se, assim, o início desse tipo de espectáculo específico, bem como a falta de uma voz potente que nos faça esquecer esse momento memorável do filme de Bob Fosse. Após esta entrada, na qual os actores mostravam ao público folhas de papel com várias palavras escritas como “petróleo”, “desemprego”, “Portugal” e, ao chegarem à boca de cena, as rasgavam com ar de desafio, Susana Nunes, interpretando a personagem Alorna Vegante, faz as introduções da praxe e anuncia um dos números mais divertidos da noite: a domadora de leoas. Esta personagem, munida de chicote, traz consigo duas actrizes vestidas de leoas e simula um número muito divertido, geralmente utilizado nos circos, de subjugação de animais. O espectáculo desenvolve-se numa sequência de números característicos de cabaret, havendo, não obstante, um desequilíbrio notório entre eles. Há números bem conseguidos e engraçados, como o das gémeas siamesas, o do cantor de charme que diz um poema e é secundado por uma mulher, cantando o clássico italiano “paroles, paroles, paroles...”, recriando um número que esteve muito em voga num dos programas de variedades da RAI nos anos 70, bem como o tema “Fly me to the moon”, interpretado por Marco Ferreira, o número de ilusionismo de Pedro Ramos, interpretando um mágico decadente, e o striptease de Susanas Nunes, que motivou a corrida de uma criança para junto da boca de cena, tentando recolher todos os pormenores, que lhe deleitavam a vista, para a memória do seu telemóvel! Os restantes números, começando pela outra dupla de diferentes, que para além de serem anões, ainda tinham de se defrontar com a visão atroz e repugnante de uma mulher com barba, e acabando numa coreografia do corpo de baile feminino, à qual faltava coordenação, deveriam ter sido mais trabalhados. O número da cantora que se expressava mal, desafinando diante do pára-quedas mal iluminado, contendo corpos no seu interior que nada faziam a não ser manter o pára-quedas com volume, era descabido e completamente desnecessário. O quadro da boneca, misto de ventríloquo com Chaplin, era fraco e, como tal, desnecessário, bem como o da espanhola que cantava mal, acolitada por dois bailarinos, sobressaia apenas, pelos actores pelo que, deveriam incluir neste número uma cantora ou uma actriz que cantasse sem desafinar. Valeu ao espectáculo no final, a rábula sobre a ASAE e a coreografia arrojada dos três actores, que divertiu o público. O problema dos pontos mais fracos deste espectáculo prende-se, sobretudo, com o conceito de diversão, ou seja, este conceito atinge mais o público quando os intérpretes sabem de facto cantar, ou dançar, ou representar. A partir deste pressuposto, podem brincar com as canções, com o corpo, ou mesmo com as palavras, assegurando um resultado divertido. Quando os intérpretes não sabem manter uma canção até ao fim o público fica preso na desafinação e o resultado global perde-se. Foi o que aconteceu com a coreografia do corpo de baile quando interpretavam um tema retirado do filme “Quem tramou Roger Rabbit”. Já tive a oportunidade de apreciar inúmeras coreografias deste género em grupos não profissionais, com cinco ou seis bailarinas dançando com cadeiras, que elevavam os braços e as pernas à mesma altura, assumindo uma atitude em cena que contagiava o público. Neste espectáculo isso não aconteceu, parecendo uma coreografia de final de ano numa récita escolar, o que é imperdoável numa estrutura profissional. Tal como Coco Chanel dizia, “Se uma mulher se veste de uma forma horrível, as pessoas reparam no vestido. Se o fizer de forma elegante, reparam na mulher”. Neste espectáculo escapou ao público a essência do Cabaret porque não houve o cuidado de apurar os pormenores. Os sons desafinados invadiram as canções, despojando-as do seu sentido lúdico e divertido. A falta de coordenação nas coreografias sujou a atitude que se requeria em palco. E depois de nos termos deleitado com o espectáculo “Com Muito Amor e Carinho”, esse sim, um espectáculo cuidado, com o ritmo certo, e com um contexto português muito interessante, esperava-se mais deste projecto. É que mesmo que a linha do espectáculo fosse um piscar de olho ao neo-realismo italiano, recordando o belíssimo filme de Fellinni La Strada, o facto é que mesmo esses artistas de “estrada” tinham uma capacidade que os elegia como únicos. Zampano quebrava as correntes com a força do seu tórax, proeza que mais ninguém fazia. Quando vemos uma intérprete cantar desafinadamente o público pensa: mas não havia ninguém que cantasse melhor para fazer aquele número?
Uma palavra de apreço ao programa, muito completo, com a contextualização histórica do conceito de Cabaret e com textos divertidos sobre as personagens. Este é um espectáculo para rodar nos próximos dois anos. Tempo para afinar vozes e pormenores. Esperemos que daqui a dois anos este seja, de facto, um espectáculo de Cabaret. Divertido, com crítica social, mas ao qual não falte a elegância nem o profissionalismo.
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