Sunday, March 15, 2009

O Tempo dos demiurgos


Ponto, linha, plano. Poderia ser o título de uma obra de Kandinski mas aplica-se, neste caso, ao trabalho de um jovem português que se dedicou ao novo circo e à técnica do mastro chinês. Num espectáculo de 40 minutos João Paulo Santos faz o espectador passar por estas três dimensões, assumindo o risco de trabalhar sem rede. Um tempo que corre mais devagar. O tempo do criador de universos.
João Paulo Santos tem um olhar vivo que fala, transmitindo toda a emoção e força de viver. Acrobata em fulgurante ascensão, João Paulo Santos iniciou a formação em Artes Circenses no Chapitô, em Lisboa. Aos 20 anos rumou para França onde se formou ao nível superior na consagrada escola francesa Centre Nacional des Arts du Cirque, em Châlons-en-Champagne. Com a sua companhia “O Último Momento”, criou “Peut-être” com Guillaume Dutrieux, que foi seleccionado para Jeunes Talents Cirque em 2004. Contigo é uma obra criada por dois homens que gostam de inventar novas linguagens para o corpo. João Paulo Santos convidou Rui Horta para entrar nesta aventura de criação, o que constituiu um desafio para os dois. João Paulo teve de se libertar da rigidez da acrobacia, presente na arte do mastro chinês. Rui Horta é o homem que, desde cedo, nos habituámos a ver reinventando a dança contemporânea. Juntos, segundo João Paulo Santos, criaram um espectáculo assemelhando-se a duas crianças a construir um castelo. A música, admirável, foi criada para este espectáculo por Victor Joaquim e Tiago Cerqueira e o figurino esteve a cargo de Pedro Pereira dos Santos.
No espectáculo Contigo há uma dimensão onírica que advém da noção de tempo que o acrobata desenvolve. Há um sentido de alteridade no qual se brinca com o plano vertical, impossível de alcançar para a maior parte dos espectadores. João Paulo observa o mastro, salta e agarra-se à linha vertical, para logo a seguir se separar dela, como se de um jogo de sedução se tratasse. Parte para uma distância maior e de novo se aproxima de um salto do objecto desejado, abraçando-o. Mais uma vez se separa, desta vez para uma distância maior. E o salto é mais convicto, carregado de uma vontade que o faz abraçar-se com mais força. E finalmente desenvolver um diálogo mais próximo com o plano vertical.
João Paulo sobe pelo mastro com uma leveza e uma subtileza desconcertantes. Faz-nos pensar que é fácil o desafio vertical. No entanto, quando chega ao topo, mostra que a queda dos graves é um facto real e que a gravidade é uma lei da física. Quando atira uma pedra para o chão e ela cai ruidosamente o espectador apercebe-se que só ao acrobata é dado o poder de desafiar as leis da física. Só no instante em que a pedra cai, o espectador se confronta com o perigo de se trabalhar sem rede.
João Paulo Santos articula alguns objectos que entram em diálogo com o mastro chinês. A cadeira transforma-se em mochila, transportada até ao topo do mastro, para aí se deter qual posto de vigia e repouso do guerreiro. Para além da cadeira João Paulo leva consigo uma vara que transforma em remo, em monóculo, em pau de chuva, em vara de equilibrista. Os objectos jogam um jogo de diferentes identidades, ajudando o acrobata a assumir também várias personalidades. Assim, João Paulo Santos é um explorador que assume o risco da aventura, desocultando várias faces do humano. Ele é, a um tempo, Galileu estudando a queda dos graves, o Principezinho, explorando o universo do seu pequeno planeta, o aventureiro pronto a gritar “Terra à vista!” depois da proeza de cruzar o oceano. E é apenas a criança que reinventa o sentido dos objectos, alterando a sua essência dentro de um jogo de sentidos e significados.
Com a sua vara, João Paulo Santos cria um elo entre o Céu e a Terra, os dois arquétipos primordiais que unidos, conceberam a multiplicidade do real. Recuando aos mitos mais antigos que criam o imaginário colectivo da humanidade, Mircea Eliade conta que numa tribo nómada da Austrália, os Achilpa, os homens acreditavam que o ser divino Numbakula tinha aberto um buraco no céu, descido por uma vara até à Terra e, depois de ter criado a vida e toda a multiplicidade do real, ungiu a vara com o seu sangue, subiu por ela e desapareceu num buraco no céu. A partir daí a tribo passou a olhar a vara como um objecto sagrado que unia os dois mundos. Neste espectáculo João Paulo Santos devolveu ao espectador o olhar inocente do mito cosmogónico. Em contigo nós fomos a tribo dos Achilpa que assistiu maravilhada à criação do mundo pelo ser divino Numbakula. Nos 40 minutos de terror sagrado o público sentiu o poder do objecto sagrado, dominado por um ser que, não sendo sagrado, tem o dom de chegar aos nossos corações.
João Paulo Santos tem levado este espectáculo a todos os continentes. E, com uma linguagem que ultrapassa a palavra, tem conseguido chegar à emoção daqueles que assistem à verdade e ao risco deste acrobata. João Paulo brinca com as várias potencialidades deste jogo do mastro. Agarra-se, desliza, enrola-se, deixa-se cair. Neste espectáculo a destreza física foi articulada com a leveza de uma coreografia concebida para o espaço. Um espectáculo em que se sustém a respiração e se suspira de alívio, reconciliando o ser consigo mesmo.
Estreado no Festival de Avignon em 2006, onde foi muito bem acolhida pelo público e programadores internacionais, o espectáculo assume o perigo. É que em palco não há rede de segurança nem fios de metal presos à cintura, adivinhando-se ocasiões de fazer suster a respiração. É como se o tempo no topo de tudo corresse mais devagar. O tempo do demiurgo.
O Teatro Municipal de Portimão está a preparar uma residência artística com João Paulo Santos e apresta-se a ser um dos primeiros teatros a programar uma rede internacional de Novo Circo.

Monday, November 24, 2008

A culpa da fantasia


O espectáculo Sonho, produzido pelo “Projecto Novos Actores” teve por base o derradeiro filme de Kubrick, para muitos cinéfilos filme de culto, para grande parte da crítica, uma desilusão enquanto filme. Por ter sido um projecto que despertou amores e ódios tão intensos foi um acto de coragem Renato Godinho ter pegado na visão de Kubrick de Traumnovelle, de Arthur Schnitzler e fazer dela uma adaptação para teatro. O elenco foi constituído por cinco jovens actores, formados na Escola Profissional de Teatro de Cascais, com alguma experiência de palco e com a ousadia necessária para arriscarem num projecto desta complexidade. A Escola Profissional de Teatro de Cascais facultou também os sete figurantes necessários à produção do espectáculo.
Esta produção apresentou-se no magnífico espaço do museu Castro Guimarães, em Cascais. É um espectáculo de itinerância, no qual os espectadores são convidados a seguir os actores desde o claustro do museu até ao seu interior, passando por inúmeras salas de decoração requintada. Os espectadores entram e é-lhes facultado um folheto concebido com apuro, onde são convidado a participar naquele ambiente de emoções que será o espectáculo. No claustro do museu ouvem-se soar acordes jazzísticos, serve-se leite em copos de cocktail e entram personagens vestidas com requinte, que convidam os espectadores a partilhar com o corpo as sonoridades sentidas. Há pares a dançar dentro do claustro. Público que foi convidado a partilhar aquele momento por bonitas raparigas envergando vestidos de noite. De repente chegam as personagens principais. Também participam na festa mas começam a dar-nos conta das suas conversas. Um médico que está a ser insistentemente assediado por duas raparigas encantadoras diverte-se mas não consegue disfarçar o embaraço de não lhes poder dizer educadamente que não está interessado no seu convite. Pelo seu lado, a mulher do médico está também a ser vítima de uma provocação por parte de um homem com quem dança e de quem se despede educadamente. Depois deste episódio o público é conduzido para uma sala no interior, onde se recria o quarto do casal em destaque na festa do claustro, Artur e Sofia, interpretado por Joana Castro e Romeu Vala. Vêm divertidos da festa, contando um ao outro as peripécias vividas. Perguntam-se mutuamente se deveriam ter motivos para ter ciúmes e é aqui que o verdadeiro enredo começa. O ciúme, fruto da imaginação e da construção de fantasias faz-se sentir no médico Artur Fridick a partir do momento em que a sua mulher lhe confessa ter tido uma fantasia erótica com um desconhecido enquanto estavam a passar férias num local distante. Artur fica ferido no seu orgulho e confessa a sua esposa, Sofia, que nessas mesmas férias também ele tinha tido um deslumbramento estético por uma rapariga desconhecida que passeava na praia. Diónisos a quebrar a ordem apolínea, As circunstâncias, tanto para um como para outro, não permitiram que nada de físico acontecesse. Mas ficou instalada a dúvida: será que se eu tivesse oportunidade me manteria fiel à pessoa que realmente amo? A partir da formulação dessa dúvida na consciência de ambos o espírito de festa e alegria modifica-se e começa a pairar uma nuvem negra de dúvida, propícia à destruição da confiança entre os dois. O médico recebe um telefonema informando-o que um colega acabou de falecer e sai abruptamente de casa. O público é convidado a segui-lo através de corredores que vão desocultando o desejo através da apresentação de fotografias a preto e branco de um par amoroso envolvendo-se numa praia deserta. Um trabalho lindíssimo de um erotismo latente que acompanha a escalada de emoção do espectáculo.
Artur chega a casa do falecido colega e consola de forma polida e educada a sua filha, Anya, interpretada por Lia Carvalho. Foi um momento intenso, de comoção, no qual, inesperadamente, Anya lhe revela o seu afecto, beijando-o repentinamente. Artur escusa-se com estupor e, quando regressa o noivo de Anya, o ambiente volta aparentemente à normalidade. Artur sente-se perturbado com o encadeamento de todas estas revelações e, quando abordado por uma prostituta, interpretada por Sara Matos, segue-a sem pensar. No quarto conversam. Artur, incapaz de lhe tocar fisicamente, toca-a profundamente na alma. Sai, e incapaz de voltar para casa vai para um bar a fim de tentar pôr as ideias em ordem. O público segue-o até uma sala de jantar com uma mesa posta ricamente adornada com loiça refinada, onde todos os pormenores eram dispostos com esmero. Foi nessa sala que Artur decidiu ter a aventura da sua vida. Reencontrou um antigo colega de medicina, interpretado por Ricardo Alas, que se dedica a tocar piano de olhos vendados em festas onde o ambiente é no mínimo suspeito. As mulheres são deslumbrantes e os participantes, envoltos num imenso secretismo, só podem entrar na festa se usarem máscara e disserem a palavra-passe. A fantasia de Artur começou a trabalhar e encontrou um estratagema para entrar na festa mistério. O público foi convidado a deslocar-se de novo ao claustro onde, para entrar, teve de colocar uma máscara neutra. Tornou-se parte do ritual. Dentro do claustro seis jovens raparigas envergavam, para além de uma máscara veneziana, uma capa de cetim que as cobria da cabeça aos pés. A música que Kúbrick utilizou no filme De Olhos Bem Fechados foi a música utilizada para criar a ambiência de ritual orgiástico que estava prestes a acontecer. A um sinal do líder do ritual as raparigas abrem as capas e revelam os seus corpos num tango coreografado por Natacha Tchitcherova, ao som de uma música utilizada noutro filme protagonizado por Nicole Kidman: Moulin Rouge. Pouco ousado, quer nos figurinos, quer na atitude das jovens dançarinas, à qual faltava o olhar perturbador da sedução. Mas é no meio desta festa que Artur é desmascarado e enxovalhado perante a multidão. É obrigado a retirar a máscara, revelando-se como intruso numa festa só para convidados. Sai da festa vexado e, a partir desse momento, o rumo dos acontecimentos modifica-se e Artur vê-se envolvido num vórtice vertiginoso de eventos que o perturbam: o desaparecimento do seu amigo pianista, o desaparecimento da prostituta com a qual conversou, a morte de uma rapariga que o tinha defendido na festa. Fora de si vai falar com o amigo Henrique Gussman, que o alerta para os perigos de alguém que quer passar a frequentar um mundo ao qual não pertence. Henrique revela a Artur uma série de peripécias, criadas para o proteger, incluindo a prestação de Lena, contratada para dissimulamente o afastar de perigos reais. Artur volta a casa e conversa demoradamente com a sua mulher. Percebe finalmente porque não pertence àquele mundo, conseguindo ultrapassar a fantasia do sonho com a efectiva consumação da carne. O fim do caos é consumado com o regresso a Diónisos, instalando-se finalmente a ordem apolínea.
Esta obra que Renato Godinho adaptou para teatro revelou inteligência na adaptação do espaço do Museu Castro Guimarães, conjugando o interior daquele espaço histórico com o suporte artístico das fotografias a preto e branco do casal na praia. Reconhece-se o trabalho intenso dos jovens actores na manifestação das emoções requeridas a um texto tão complexo. O jovem cicerone Igor Sampaio e Melo cumpriu de forma adequada o seu papel. Sóbrio, elegante e atento aos espectadores com mais dificuldades na deslocação entre as cenas, foi o cicerone ideal. Às raparigas figurantes ainda falta aquela atitude e aquele olhar insinuante que provoca em quem as vê a capacidade de sonhar. Um projecto que cumpre os seus objectivos e convida o espectador a penetrar de forma carnal no mundo do sonho.

Friday, November 21, 2008

Benvindos ao Paraíso


Uma mulher com um vestido elegante e sapatos de salto alto empurra um homem que se encontra acocorado num carrinho de transportar mercadorias. O homem toca um pequeno acordeão e atravessa o palco transportado nesse lento empurrar, lembrando o regresso aos primeiros tempos de ligação quase uterina, em que fazia parte de um outro corpo. Aqui a mulher assume-se como a condutora de decisões e de seres. Seres que se deixam conduzir entoando uma melodia triste. Esta é uma imagem que atravessa todo o espectáculo, uma vez que assumidamente nele se vai brincar com a identidade de género. Paraíso é a referência ao estado que o comum dos mortais persegue quando assiste a um musical norte-americano. O cliché é assumido para se discutir a questão da identidade sexual.
As mulheres de Olga Roriz assumem habitualmente uma identidade marcadamente feminina, trajando vestidos que lhes marcam a figura e calçando sapatos de salto alto que, tal coturnos da antiga Grécia, lhes eleva a personagem. Os três tipos de relação abordados de forma caricatural pelo casal de apresentadores eram: o casal em que ambos olham na mesma direcção, não havendo uma subjugação. O segundo, era o casal em que olham um para o outro, conduzindo-se como um tango. Neste caso a mulher é conduzida, subjugada pelo homem. No terceiro caso, a relação é do tipo que um depende do outro. Neste caso a mulher é altamente dependente do homem. Partindo desta imagem Olga Roriz constrói toda uma teia de relações complexas onde o corpo se alia à voz e ao movimento, resultando desse misto uma leitura que desoculta um significado ambíguo.
Olga Roriz joga com a atitude perante a vida. Metáfora esperada da atitude num palco: a cantora inexperiente, que se sujeita ao julgamento mais impiedoso, e a diva que passa incólume a toda a cena e se assume como detentora de plenos poderes do palco. No palco, tal como na vida, o que conta é a atitude. O movimento procura ilustrar o conteúdo de uma ideia, fugindo ao virtuosismo de um tecnicismo estéril. Assim, Astaire e Rogers dançam em palco exibindo os passos da ilusão, assim como os encalhados da vida esperam no seu confortável maple o par ideal que os puxa para o encontro com o Paraíso. A sátira de Olga Roriz é contundente quando nos recorda a carta de um desertor, da autoria de Boris Vian, interpretado por Maria Cerveira, enquanto Pedro Santiago Cal vai atirando com flores para trás das costas. E esta imagem forte, de uma realidade brutal entra em confronto com a canção de amor My Funny Valentine, interpretada também por Maria Cerveira. Uma canção perante a qual se sente a entrega de um coração apaixonado, esperando uma resposta em conformidade. Às vezes essa resposta é artificial, como o são os paraísos, como o são os fetos disfarçados de palmeiras. Mas a música continua, assim como a esperança. A esperança é a única centelha que faz com que a cantora inexperiente receba uma humilhação desmedida, ao ponto de ficar encharcada e continuar a dançar. Contrastando com a imagem da rapariga humilhada pelo seu par assume-se a ideia de felicidade quando os bailarinos deslizam alegremente nos seus confortáveis sofás, poiso de figuras teatrais que sorriem promovendo o paraíso e de figuras etéreas, mostrando ao mesmo tempo como é fugaz.
Um dos momentos marcantes de todo este Paraíso revela-se na dança sensual entre duas bailarinas, executando um tango assumidamente como mulheres. Ambas de vestido preto e elegante, de saltos altos, rodopiam ao som de um tango, ultrapassando um dos ideais convencionais do relacionamento heterossexual: na dança, como na vida, há um que domina e outro que é dominado. Assim como é tocante o solo que Pedro Santiago Cal desenvolve dançando à volta de um poste, trocando os papéis convencionais.
Porém, a ousadia e a provocação atingem o auge na canção de Ana Carolina Homens e Mulheres, interpretada por Catarina Santana. A atitude da bailarina é provocadora e no palco desenvolve-se um misto de encontros e desencontros pouco convencionais. Quando se ouve “eu gosto de homens e de mulheres. E você o que prefere?” o nosso olhar convencional desliga e começa a perspectivar noutras direcções. Por fim a bailarina abate-se ao cantar o tema Bang-Bang, imortalizado por Nancy Sinatra no filme Kill Bill. E permanece exposta e derrotada no seu vestido lamé até ser expulsa do paraíso.
O final é o fechar de um ciclo. O homem regressa pelo seu próprio pé e senta-se confortavelmente a tocar o pequeno acordeão. Depois de uma passagem pelo Paraíso o regresso à música genuína, à vida. O regresso, enfim, à imortalidade.
Com desenho de luz de Celestino Verdades, arranjos musicais de Renato Júnior e cenário de Olga Roriz e Pedro Santiago Cal, este Paraíso envolve o espectador numa viagem iniciática onde se confronta com o seu próprio desejo e regressa à vida transportando novas emoções. Um tributo à vida. Plena e condimentada de vários aromas.

O Cabaret da Estrada


Nos passados dias 27 e 28 Tavira teve a oportunidade de receber o último espectáculo da digressão inicial da produção Caravan Cabaret. Um espectáculo encenado por Marta Pazos para divertir, dirigido a toda a família, ideal para as noites de Verão.
O espectáculo começa com uma pequena intervenção junto do público: os actores deambulam por entre a assistência, assumindo diversas personagens. Umas um pouco diferentes do cidadão comum, outras adoptando as suas caricaturas mais frequentes. O homem armado, cuja mulher, de cabeça coberta por um lenço, o segue como uma sombra, que olha de forma intimidatória para os espectadores. A rapariga que corre toda a plateia a gritar pelo Chico, a menina pequena que ainda usa o horrendo penso nos óculos para corrigir o estrabismo, o “pintas” de óculos escuros, sempre a morder o esquema. Depois a famosa brasileira, professora de aeróbica, de rádio ao ombro, muito enérgica, a puxar pelo “alto astral” e preocupada com a hidratação. Esta última personagem sobe ao palco e convida dois voluntários, que pertencem ao elenco, para “aquecer” o público. Aquecer os pulsos para treinar as palmas, e aquecer as gargalhadas. Como cenografia, apenas a imagem de uma caravana prateada, com as letras Caravan Cabaret iluminadas por cima. A encenação propõe, então, uma visão teatral do interior do cabaret com os actores já como personagens, a aquecerem fora da caravana, sem a luz de cena a incidir. Depois entra um ciclista que, apesar de prenunciar um número de perícia, dá duas voltas ao palco, cai, e traz a reboque, presas por uma corda, as personagens do elenco que integra o Cabaret. Nesse momento o elenco interpreta um dos temas imortalizados por Liza Minnelli no filme Cabaret. Assume-se, assim, o início desse tipo de espectáculo específico, bem como a falta de uma voz potente que nos faça esquecer esse momento memorável do filme de Bob Fosse. Após esta entrada, na qual os actores mostravam ao público folhas de papel com várias palavras escritas como “petróleo”, “desemprego”, “Portugal” e, ao chegarem à boca de cena, as rasgavam com ar de desafio, Susana Nunes, interpretando a personagem Alorna Vegante, faz as introduções da praxe e anuncia um dos números mais divertidos da noite: a domadora de leoas. Esta personagem, munida de chicote, traz consigo duas actrizes vestidas de leoas e simula um número muito divertido, geralmente utilizado nos circos, de subjugação de animais. O espectáculo desenvolve-se numa sequência de números característicos de cabaret, havendo, não obstante, um desequilíbrio notório entre eles. Há números bem conseguidos e engraçados, como o das gémeas siamesas, o do cantor de charme que diz um poema e é secundado por uma mulher, cantando o clássico italiano “paroles, paroles, paroles...”, recriando um número que esteve muito em voga num dos programas de variedades da RAI nos anos 70, bem como o tema “Fly me to the moon”, interpretado por Marco Ferreira, o número de ilusionismo de Pedro Ramos, interpretando um mágico decadente, e o striptease de Susanas Nunes, que motivou a corrida de uma criança para junto da boca de cena, tentando recolher todos os pormenores, que lhe deleitavam a vista, para a memória do seu telemóvel! Os restantes números, começando pela outra dupla de diferentes, que para além de serem anões, ainda tinham de se defrontar com a visão atroz e repugnante de uma mulher com barba, e acabando numa coreografia do corpo de baile feminino, à qual faltava coordenação, deveriam ter sido mais trabalhados. O número da cantora que se expressava mal, desafinando diante do pára-quedas mal iluminado, contendo corpos no seu interior que nada faziam a não ser manter o pára-quedas com volume, era descabido e completamente desnecessário. O quadro da boneca, misto de ventríloquo com Chaplin, era fraco e, como tal, desnecessário, bem como o da espanhola que cantava mal, acolitada por dois bailarinos, sobressaia apenas, pelos actores pelo que, deveriam incluir neste número uma cantora ou uma actriz que cantasse sem desafinar. Valeu ao espectáculo no final, a rábula sobre a ASAE e a coreografia arrojada dos três actores, que divertiu o público. O problema dos pontos mais fracos deste espectáculo prende-se, sobretudo, com o conceito de diversão, ou seja, este conceito atinge mais o público quando os intérpretes sabem de facto cantar, ou dançar, ou representar. A partir deste pressuposto, podem brincar com as canções, com o corpo, ou mesmo com as palavras, assegurando um resultado divertido. Quando os intérpretes não sabem manter uma canção até ao fim o público fica preso na desafinação e o resultado global perde-se. Foi o que aconteceu com a coreografia do corpo de baile quando interpretavam um tema retirado do filme “Quem tramou Roger Rabbit”. Já tive a oportunidade de apreciar inúmeras coreografias deste género em grupos não profissionais, com cinco ou seis bailarinas dançando com cadeiras, que elevavam os braços e as pernas à mesma altura, assumindo uma atitude em cena que contagiava o público. Neste espectáculo isso não aconteceu, parecendo uma coreografia de final de ano numa récita escolar, o que é imperdoável numa estrutura profissional. Tal como Coco Chanel dizia, “Se uma mulher se veste de uma forma horrível, as pessoas reparam no vestido. Se o fizer de forma elegante, reparam na mulher”. Neste espectáculo escapou ao público a essência do Cabaret porque não houve o cuidado de apurar os pormenores. Os sons desafinados invadiram as canções, despojando-as do seu sentido lúdico e divertido. A falta de coordenação nas coreografias sujou a atitude que se requeria em palco. E depois de nos termos deleitado com o espectáculo “Com Muito Amor e Carinho”, esse sim, um espectáculo cuidado, com o ritmo certo, e com um contexto português muito interessante, esperava-se mais deste projecto. É que mesmo que a linha do espectáculo fosse um piscar de olho ao neo-realismo italiano, recordando o belíssimo filme de Fellinni La Strada, o facto é que mesmo esses artistas de “estrada” tinham uma capacidade que os elegia como únicos. Zampano quebrava as correntes com a força do seu tórax, proeza que mais ninguém fazia. Quando vemos uma intérprete cantar desafinadamente o público pensa: mas não havia ninguém que cantasse melhor para fazer aquele número?
Uma palavra de apreço ao programa, muito completo, com a contextualização histórica do conceito de Cabaret e com textos divertidos sobre as personagens. Este é um espectáculo para rodar nos próximos dois anos. Tempo para afinar vozes e pormenores. Esperemos que daqui a dois anos este seja, de facto, um espectáculo de Cabaret. Divertido, com crítica social, mas ao qual não falte a elegância nem o profissionalismo.

Amar a Terra


“(…) O essencial é saber ver, / saber ver sem estar a pensar, / saber ver quando se vê, /nem ver quando se pensa.(….)” É com estes versos de Fernando Pessoa que a Companhia de Dança Kamu Suna se apresenta. Esta companhia, fundada por antigos bailarinos do Ballet Gulbenkian e dirigida por César Augusto Moniz, criou uma coreografia, apoiada pela UNESCO, no sentido de contribuir para uma consciência mais responsável acerca do equilíbrio sustentável do nosso planeta.
Para este coreografia a Kamu Suna Ballet Company recorreu a sete bailarinos e a um cantor lírico, Manuel Brás da Costa, que interpretou ao vivo alguns temas de Vivaldi, como o Stabat Mater, ajudando e despertar no espectador uma luz interior de que só este compositor é capaz de fazer sentir.
As coreografias tiveram o apoio de imagens do planeta Terra projectadas numa tela ao fundo do palco. Árvores, o oceano, a fauna, a flora, a cidade com a velocidade que a caracteriza. A Terra, o Amor, o Homem, são conceitos que os bailarinos desenvolvem em palco através dos seus corpos e das suas emoções. O coreógrafo assume que a coreografia brota da Consciência Universal. A partir deste sentimento podemos ver na tela a síntese perfeita entre o movimento e a imagem daquilo que nos faz reconhecer, não só como humanos, mas como pertencentes a um organismo total e global que nos encerra.
Os bailarinos chamam-nos a atenção para a necessidade de reduzir, reutilizar, reciclar e refazer. As letras são projectadas no écran e o bailarinos dançam sobre as palavras chave para a manutenção do planeta.
Os momentos altos foram aqueles em que os bailarinos actuaram tendo como suporte a voz do contra-tenor Manuel Brás da Costa. A voz e o movimento dos bailarinos atingiram momentos de uníssono perturbantes que contribuíram para a elevação da tal consciência Universal que se busca.
Segundo a produção, este é um espectáculo onde se pretende “identificar, reflectir sobre – as condutas, as aspirações e os imaginários que movem os indivíduos e as sociedades nos dias de hoje induzindo a uma mudança consciente e positiva do pensamento humano em relação ao futuro do nosso planeta.”


A KAMU SUNA Ballet Company foi fundada em Lisboa a 4 de Janeiro de 2006 pelo Primeiro bailarino e Coreógrafo do Ballet Gulbenkian César Augusto Moniz. Composta por 8 bailarinos, alguns dos quais solistas e primeiros bailarinos oriundos do Ballet Gulbenkian, pretende irromper das nossas raízes ancestrais para unificar a multiplicidade de linguagens de expressão, fortemente inspiradas no reencontro do Oriente com o Ocidente. A nova proposta artística aposta num processo criativo que parte da experimentação do movimento original, fazendo emergir um novo vocabulário corporal e anímico na dança.
Outra prioridade da Companhia é “desenvolver um trabalho dedicado às crianças, mediante a realização de workshops e bailados em que os mais novos têm a oportunidade de participar activamente, absorvendo e transmitindo tudo o que a música e a dança podem expressar. Os espectáculos respiram e revelam-se a partir das várias formas de arte como a escultura, o teatro, a dança, a ópera, a pintura ou a poesia. A dimensão de representação atravessa o tempo e o espaço como paisagem que religa o corpo ao espírito”.
Num diálogo entre movimento, música e imagens visuais, a Companhia desenha-se livre de preconceitos, diferente e igual a si própria, a caminho de uma nova concepção do Mundo, onde a inovação e a criatividade propõem a cada espectador uma reflexão que pode induzir a um processo de transformação pessoal, social e cultural.
Relativamente ao espectáculo Amar a Terra, no Centro Cultural de Lagos, foi pena não ter sido distribuída uma folha de sala contendo contributos para a leitura do espectáculo, ou a identificação do suporte musical, a que os espectadores devem ter direito, ou à distribuição do elenco da companhia. Foi pena também os cortes que a emoção do espectador sofreu com o visionamento de um écran de projecção do dvd azul, onde se podiam ver as indicações técnicas. Quando vemos profissionais de longa craveira e com a excelência que nos deu o Ballet Gulbenkian não esperamos confrontar-nos com estas falhas técnicas. É por isso que por vezes o corpo, em si mesmo, ultrapassa qualquer artifício técnico, tornando-o desnecessário.

O Sotaque de Olhão


A cidade de Olhão está a comemorar, neste segundo semestre, os duzentos anos da Restauração do domínio francês. Teatro, música e cinema são algumas das propostas para que os visitantes possam usufruir culturalmente de tão honorífico título, concedido à então vila pelo príncipe regente D. João, por esta ter servido de rastilho e lançado a revolta que expulsou as tropas francesas da região.
Dentre todas essas comemorações foi também convidado o actor e encenador João Evaristo para conceber um espectáculo sobre a sua cidade natal. João Evaristo lançou o repto ao seu companheiro de palco de há vários anos Joaquim Parra e lançou mãos e ideias ao trabalho. Investigou as histórias típicas olhanenses que passam de boca em boca mas que não têm registos escritos e propôs-se escrevê-las para as mostrar sob a forma de um espectáculo de teatro. Segundo João Evaristo, “A peça retrata uma cena quotidiana de dois pescadores que enquanto remendam as redes queixam-se da vida, das dores da alma e do corpo e recordam várias histórias humorísticas do imaginário olhanense. A Carta do Marítimo, S’aquile era Marroques e O Camujinhe, são histórias que, entre outras, se vão enredando numa conversa humorada, onde ainda há lugar para referências a figuras como o Candinhe Lêtere e O Coxo da Muleta.” O espectáculo decorre num pequeno palco que foi coberto de areia. A ocupar o lugar de destaque em cima do palco está uma pequena embarcação: o sustento da maior parte das famílias de Olhão. Quando o público entra na pequena sala com lotação de 50 lugares depara com a cenografia e com uma imagem da Ria Formosa, projectada no ciclorama. Quando o espectáculo começa apaga-se a imagem da Ria, remetendo o protagonismo para os dois actores. Entra João Evaristo ouvindo um rádio portátil. Mal se lhe junta Joaquim Parra, começam as histórias, as partilhas, as cumplicidades. E como as palavras são como as cerejas as histórias sucedem-se entre risos e piscares de olho. Balançando entre a brejeirice do “diz que disse” e as memórias trágicas do tráfico ilegal de passageiros para Marrocos os actores aguentam um ritmo coloquial que permite um ambiente de boa disposição que provoca o sorriso e a gargalhada. Destaca-se a proverbial disputa entre os “filhos de Olhão” e os “filhos de Faro”, apresenta-se o preocupante flagelo da bebida entre os pescadores, aponta-se a descriminação negativa entre os pescadores e os outros filhos da terra. Estas histórias surgem a propósito da descrição mais ou menos maldosa de alguns incautos espectadores, que servem de ponto de partida para a descrição de figuras tipo da cidade. “Olha, aquele ali à frente, diz que é sobrinho do outro que está ali atrás com a cabeça rapada. É como o outro que também diz que tem um sobrinho, mas afinal, parece que não é…” E recomeça toda a história do “diz que disse” que, entre anedotas mais ou menos conhecidas, vai dando a conhecer alguma da história do povo de Olhão.
Hilariante foi o momento em que Joaquim Parra fez de Santo padroeiro e não atendeu às preces egoístas de um pescador. Através de uma marosca, o sacristão conseguiu baralhar o pescador, que tinha como intuito destruir a igreja e o Santo. O pescador ameaçou o suposto filho do Santo padroeiro, prometendo voltar mais tarde para ajustar contas com um Santo que não cumpre com o prometido.
A caracterização que realça os maus dentes e a expressão corporal dos dois actores contribuem para que este espectáculo seja um retrato vivo do imaginário sócio cultural do povo de Olhão.
A cumplicidade sentida entre os dois actores provoca no espectador uma sensação de familiaridade, promovendo um ambiente que se deseja intimista e descontraído, onde se aprende em olhanense o que foi o sofrimento das gentes ligadas ao mar.
Este espectáculo assume-se como um documento histórico que desoculta as memórias escondidas na tradição oral, devendo ser publicado e disponibilizado em texto bilingue, com a respectiva grafia no alfabeto fonético assumindo a pronúncia específica de Olhão, em paralelo com a grafia do português padrão. Enquanto não vem o novo acordo ortográfico estas podem ser formas de preservar também a cultura de um povo através do seu linguajar específico.
Também na Sociedade Recreativa Olhanense está patente uma surpreendente exposição de fotografia. “Femmes: fotodrama” é um conceito que associa a fotografia e o teatro. Em termos práticos, é uma peça de teatro encenada para ser fotografada. Com fotografia de Marta Vilhena, encenação de João Evaristo e figurinos de Sabrina Ildefonso, a exposição permanecerá na Sociedade Recreativa Olhanense, até ao final do mês.

O Jogo dos Espelhos Partidos


O público entra na sala da Antiga Lota de Portimão e não se depara com o pano de boca. A curiosidade do espectador é espicaçada a partir de um pequeno painel, forrado a cortiça, que ocupa o centro do palco. É atrás do painel que a magia começa. E aqui fala-se em magia porque o texto é uma reflexão sobre a capacidade de provocar uma ilusão e de levar o outro a acreditar nela. Sobre a capacidade de iludir quem não tem a consciência tranquila.
Com base no entremez de Cervantes que deu origem mais tarde ao conto O Rei Vai Nú, no qual apenas uma criança teve a coragem de gritar a verdade, Jacques Prévert criou um texto contemporâneo que brinca com os comportamentos supostamente exemplares dos poderosos e dos governantes de um Estado. A virtude pode ser mensurável através de um retábulo maravilhoso, visível apenas para os puros em pensamentos e actos. Quem não quer ser reconhecido como virtuoso perante os seus pares e perante os seus súbditos?
Pedro Monteiro assumiu o espaço vazio e, a partir de um painel, construiu inúmeros cenários que o público conseguiu visualizar. O verdadeiro retábulo das Maravilhas foi o que se conseguiu criar através da sugestão da imagem, omitindo o óbvio e mostrando o fragmento. Através de um painel o público conseguiu visualizar a praça principal da cidade, o sítio dos sem-abrigo, o salão onde os governantes recebem os seus tributários. Alina Monteiro vestiu o espectáculo do mesmo tom da cortiça: elemento poroso que se deixa moldar e que isola dos sons e evita os choques eléctricos. Todos são vestidos do mesmo material: os que enganam deliberadamente e os que deliberadamente se deixam enganar. A causa do engano é comum e por isso todos usam a mesma veste. Os figurinos de Alina Monteiro, construídos a partir do trabalho da cortiça vão ao encontro da visão porosa e opaca do texto. O jogo de enganos é construído a partir da criação de um foco de sentido na linha oposta à que se está à espera, como se se tratasse de facto de um cruzamento de feixes luminosos, no qual a atenção é desviada e conduzida para onde o ilusionista deseja.
O elenco, constituído por André Canário, António Salvador, Filipa Rei, Igor Martins, Pedro Monteiro e Rita Neves, está equilibrado e consegue manter o ritmo do espectáculo de forma coerente e adequada. Este colectivo de actores fez jus ao desejo de Jacques Prévert que é, em última instância, denunciar as injustiças por demais visíveis que alguns ilusionistas insistem em manter de forma oculta e escamoteada. Jacques Prévert é incómodo nas sociedades que não assumem a transparência, preferindo a aparência do bem-estar ilusório, recusando encarar a realidade cruel.
Os dois mestres da ilusão chegam a uma cidade prometendo maravilhas. Chegam com a música, criada por uma criança que, segundo os saltimbancos, foi raptada, como é da tradição. Nesta visão crua da realidade também o artista é apanhado nas malhas de uma sociedade que lhe é adversa e que o julga de forma injusta. O artista é sempre alguém à margem, capaz de proporcionar os maiores prazeres mas também capaz de cometer os piores actos, como é o caso do rapto de uma criança. E aqui Prévert revê-se como um dos autores de uma linha de teatro que, através do absurdo, nos ajuda a ver a realidade em toda a sua magnificência e em toda a sua podridão.
É um pormenor interessante a criança-música ser rejeitada pelos poderosos. Quando a criança começa a tocar e a música começa a invadir a cidade, os governantes sentem-se mal e ordenam-lhe que pare. Talvez porque saibam que a música desbloqueia os sentidos e conduz a uma libertação interior, que é exactamente o que não interessa numa sociedade onde o medo domina.
A apresentação das maravilhas no painel é o momento alto do espectáculo. O ilusionista das emoções mostra imagens que sabe não existirem para um público que garante ver o que não existe. É exactamente como um espelho partido que, apesar de mostrar uma imagem, o faz de forma imperfeita. A configuração da cena neste quadro é significativa deste jogo de enganos, uma vez que os actores são dispostos numa linha que toca a linha do retábulo num ângulo recto, mas em faces contíguas. Mesmo fisicamente os habitantes dessa terra não poderiam estar a reconhecer coisa alguma na imagem sugerida pelo saltimbanco. No entanto, e para guardarem a sua virtude perante a opinião pública, vêem uma série de maravilhas. Bailarinas dançando com a arte de Salomé, animais maravilhosos, ratos invasores do bem-estar! E é só quando um soldado chega com novidades do mundo real é que os habitantes da cidade se apercebem de que estiveram o tempo todo a ser enganados à custa da sua pretensa virtude. Nessa altura já os impostores iam longe, desmascarando as falsas virtudes dos pseudo nobres e valorosos dirigentes que supostamente são o exemplo da nação. Hoje como no século XVI, hoje como em 1935, os dirigentes continuam a brincar com os seus cidadãos o jogo do retábulo das maravilhas, mostrando um contexto sociopolítico que se sabe não existir mas que é o garante da sua salvaguarda moral.
Um texto de carácter interventivo que denuncia as injustiças sociais e que, apesar de pôr o dedo na ferida, é divertido e contribui para uma das funções mais nobres da arte: aprender de forma lúdica indo ao encontro das inconsistências do ser humano. E o verdadeiro retábulo foi o facto do público se ter podido apoderar do conteúdo imaginário através do jogo do faz-de-conta de que só os actores detêm as regras.