Wednesday, July 2, 2008

O regresso do Bataclan ao teatro Lethes


Há muito tempo que não se via um espectáculo assim. A produção prometia um espectáculo que convidava a “um mergulho num universo contagiante onde a música, o gesto e a palavra invadem os sentidos. Ao som da música popular brasileira uma homenagem à Mulher nas palavras de Alberto Caeiro, Tom Jobim, Chico Buarque, Luís Gonzaga, Vinícius de Morais, Djavan e Lenine, entre outros. A produção prometeu e nós acreditámos. Mas aquilo que se viu não foi uma homenagem à Mulher, como o tinha feito Cláudia Andrade no belíssimo espectáculo “Ela uma vez”, também apresentado no Teatro Lethes. O que se viu foi uma mulher, Valéria Carvalho, com uma voz bonita mas a precisar de muito trabalho ao nível da afinação, acompanhada por João Ferreira e por Virgílio Gomes, homenageando-se a si própria. Gemendo, abanando as ancas, subido para cima de cubos negros de forma a melhor podermos apreciar as suas pernas e dizendo os poemas com omissões de versos e erros que mudam o sentido por completo ao texto. O ambiente no palco lembrava o de um bar, com cortinas vermelhas e uma cadeira de que Valéria se servia amiúde. Para além da cadeira havia um espaço para a percussão e outro para o guitarrista. Um cabide e dois cubos negros que serviam de plataforma para Valéria subir. Sem nenhuma razão dramatúrgica que o impusesse recitou o poema de Chico Buarque Ana de Amsterdam de cima de uma plataforma elevada. Sempre com microfone. E coloca umas meias de seda preta enquanto recita um outro poema, para logo a seguir as tirar, quando já toda a plateia pôde apreciar com detalhe as suas pernas. Pôs as meias e tirou-as sem nenhuma razão dramatúrgica que o obrigasse. Foi buscar duas colheres de sopa, com as quais brincou, sem qualquer relação com a fala do poema que lhe estava subjacente. O poema Folhetim, de Chico Buarque que foi dado a conhecer por Gal Costa, foi transposto para a voz de Valéria Carvalho de forma grosseira e desafinada, tal como o tema celebrizado por Maria Bethânia Sem Açúcar, igualmente de Chico Buarque, foi cantado sem se dar o devido peso à letra forte, homenageando as mulheres vítimas de violência doméstica. Senão, vejamos: “Todo dia ele faz diferente, não sei se ele volta da rua /Não sei se me traz um presente, não sei se ele fica na sua /Talvez ele chegue sentido, quem sabe me cobre de beijos/ Ou nem me desmancha o vestido, ou nem me adivinha os desejos /Dia ímpar tem chocolate, dia par eu vivo de brisa/ Dia útil ele me bate, dia santo ele me alisa / Longe dele eu tremo de amor, na presença dele me calo / Eu de dia sou sua flor, eu de noite sou seu cavalo/A cerveja dele é sagrada, a vontade dele é a mais justa/ A minha paixão é piada, sua risada me assusta / Sua boca é um cadeado e meu corpo é uma fogueira/ Enquanto ele dorme pesado eu rolo sozinha na esteira /E nem me adivinha os desejos/ Eu de noite sou seu cavalo”. Este poema traduz a vida de uma mulher infeliz, sujeita aos caprichos e às tareias de um homem sem valores e, por si só, não traduz uma homenagem à Mulher, como dizia a produção. Com a encenação do homem vestido de branco e chapéu à Borsalino a entrar, sentar-se, beber uma cerveja e ir-se embora a cambalear, é uma homenagem a todos os malandros que passam incólumes pelo palco da vida abusando das mulheres e prosseguindo, considerados heróis pelos seus congéneres.
O célebre tema de Luís Gonzaga Saia Bastiana serviu para que Valéria partilhasse uma vez mais com os espectadores as suas pernas, ao subir a saia à medida que ia cantando o tema. Em cima de uma plataforma, claro!
O tema “Mania de você”, de Rita Lee fez-nos desejar correr até ao coliseu de Lisboa no próximo dia 1 de Julho para assistir a um concerto da própria Rita, cantando este tema afinado e com os agudos que lhe são próprios.
O heterónimo pessoano Alberto Caeiro foi inserido nesta colectânea de suposta homenagem à Mulher porque é sempre de bom-tom inserir Fernando Pessoa num espectáculo de poesia, mas mesmo assim com erros. Valéria, ao citar um excerto do “Guardador de Rebanhos” disse: “Eu não tenho filosofia, tenho sentido” em vez de empregar a palavra correcta: sentidos. O que faz toda a diferença ao nível do esquema semântico do poema. Também Florbela Espanca, que nem sequer consta da folha de sala, sendo remetida para o confortável “entre outros”, não foi tratada de forma mais dilecta. Antes pelo contrário, pois a única poetisa portuguesa que constou da colectânea foi citada omitindo um verso do seu soneto Amar e baralhando pronomes. É sabido e estudado que o último verso do soneto Amar, “Que me saiba perder para me encontrar”, encerra em si significado pouco evidente, filosófico, do âmbito da ontologia. Florbela precisa de se libertar de si entregando-se a outros para finalmente se encontrar na sua essência de Mulher. Valéria disse: Que me saiba perder para te encontrar, o que suja todo o sentido original do poema.
Não é assim que se homenageia a Mulher. Para se dizer poesia é preciso sabê-lo. Fazer desse acto um ritual sagrado, saboreando as palavras e dizendo-as como o poeta as escreveu. Para se cantar é preciso trabalhar a afinação. Para se homenagear a Mulher e a Língua Portuguesa é preciso respeitar as duas. Talvez este espectáculo fosse adequado para o extinto “Zé das Couves”, espaço sociologicamente interessante para um estudo de uma Lisboa decadente. Não se enquadra para a dignidade do Teatro Lethes e muito menos para a dignidade da Mulher ou da Língua Portuguesa. Maria João dá dignidade à mulher e à Língua Portuguesa. Cláudia Nóvoa presenteou todas as mulheres com “Ela uma vez”: uma autêntica pérola com poesia escrita por sete mulheres, portuguesas e brasileiras. Eugénia de Melo e Castro ganha prémios no Brasil homenageando a Mulher e a Língua Portuguesa. Não precisamos de quem se homenageie a si própria sem sentido dramatúrgico nem cénico. Nem de quem se engana nos textos de referência de poetas de sentido universal, nem de quem desafine. Precisamos de actores honestos.

Um projecto de coragem

Quatro mulheres de coragem é a tradução de António Henrique Conde do texto Bold Girls, premiado com o Most Promising Playwrigth Award pela comissão de críticos de teatro de Londres. Levar à cena este texto foi um desafio de coragem que Figueira Cid propôs encenar a quatro actrizes: Ana Leitão, Josefina Massango, Marta Inocentes e Sara Costa, esta última aluna do mestrado de teatro da Universidade de Évora. Quatro actrizes que conseguiram dar, ao longo de duas horas, a sensação de que todos estávamos debaixo do fogo cruzado de Belfast. Quatro mulheres a quem levaram os homens. Mortos ou presos, eles são a ausência que elas têm de ultrapassar num mundo povoado pelo medo. Em Quatro Mulheres de Coragem O universo feminino permanece intocável malgrado os autocarros a arder, os tiros a rondar a casa, os bloqueios da estrada. O pão continua a entrar em casa e as crianças continuam a espalhar os brinquedos pela sala. A generosidade intrínseca não permite que se negue uma chávena de chá às amigas nem um pouco do calor da lareira a uma desconhecida, fugida das balas que, ensanguentada, pede guarida.
Este texto fala da vida. De uma vida difícil que as mulheres furam e decidem tornar mais leve. E rir. Riem das suas misérias, dos seus medos, das cenas trágicas e brutais por que passaram. Os tiros ouvem-se ao longe e ao perto, o medo é constante. No entanto, estas mulheres conseguem fantasiar com uma noite diferente. Conseguem pôr um vestido bonito para dançar, conseguem sonhar com uma vida diferente olhando para o verniz espelhado nas unhas. A história põem em confronto mulheres que descobrem segredos inenarráveis e que, mesmo assim, ultrapassam o ódio e continuam a amparar-se.
A caracterização das personagens está rigorosa e real. Elas são quatro mulheres irlandesas, que se vestem como mulheres irlandesas católicas, que se preocupam com a maledicência alheia, contribuindo para ela.
O espectáculo Quatro Mulheres de Coragem conduz o espectador a uma vertigem de violência interior absorvente. No texto debatemo-nos com duas viúvas, uma órfã e a mulher de um prisioneiro político. As amigas traem-se, mãe e filha acusam-se mutuamente, a órfã vem destabilizar a rotina quotidiana. No final a órfã encontra uma nova mãe, a viúva uma nova consciência, a mulher do prisioneiro uma nova vida e a mãe uma nova paz.
A cenografia, realista, recria o interior de uma casa modesta de Belfast e o interior de uma discoteca onde se sorteiam electrodomésticos. Na casa se prepara o chá, se lava e engoma ainda roupa de homens que morreram, se estende numa longa corda improvisada as vestes de viúva, pressagiando a saída para a noite. A madrugada traz consigo os seus despojos e o estendal é transformado noutro mais pequeno, com vista para a rua, anunciando uma mudança. A mudança de perspectiva do olhar, simbolizada pela roupa ocultando a vista que se tem da janela, abarca todos os intervenientes na história. A rapariga que olhava a vida da casa a partir do seu exterior passa a fazer parte integrante dela. A mãe de Cassey descobre que a filha sempre apoiou o pai, mesmo quando a encontrava a sangrar depois de uma sova. Marie retira finalmente a fotografia do marido, assassinado por motivos políticos, e exprime toda a sua raiva na imagem do homem intocável que criou. Confronta-se com a mentira, vivida ao longo de anos, e muda o seu código de valores. Cassey assume-se perante a mãe, revela-se perante a amiga e parte à procura de outra terra, longe da miséria moral que a envolve.
O desenho de luz de Henrique Martins e Figueira Cid é rigoroso, colorindo e ocultando as cenas na justa medida da sua intensidade dramática.
O equilíbrio entre as quatro actrizes é uma marca deste trabalho e a emoção prende o espectador do primeiro ao último momento. Desde a conversa banal do quotidiano feminino até ao momento da rusga no nigth-club da terra, estas quatro actrizes são genuínas e conseguem passar as diferentes emoções. Foi tocante ver estas quatro mulheres chorarem, rirem, acocorarem-se com o medo, gritarem de raiva. Um desempenho de excelência. Uma encenação de coragem. Um prazer para o espectador.

Wednesday, June 11, 2008

Teatro Fórum


No passado dia 31 de Maio a associação portuense A Pele levou a Lagoa uma proposta de espectáculo pouco habitual. Tratou-se de uma produção que tem por base o Teatro Fórum, criado por Augusto Boal, e tinha como objectivo convidar os espectadores, não só a reflectir mas sobretudo a agir, de modo a criar soluções para acabar com o drama da violência doméstica. O Teatro Fórum é a principal técnica do Teatro do Oprimido, criado pelo brasileiro Augusto Boal (TO). Essa técnica procura retratar fatos reais para desenvolverem as peripécias do seu espectáculo. Nesse enredo há a criação de personagens oprimidos e opressores, que entram em conflito, de forma clara e objectiva, quando procuram defender os seus desejos e interesses. Neste confronto, o oprimido fracassa e o público é convidado a entrar em cena, substituindo o Protagonista (o oprimido) e procurar alternativas para o problema encenado. É um método, um instrumento de resistência e libertação que pretende fazer com que os oprimidos encontrem, por si mesmos, caminhos para lutarem contra as opressões que sofrem. Além disso, o TO permite ainda ensaiar essas mesmas formas de libertação e resistência e projectar através da imaginação e da acção teatral as aspirações, e as acções de transformação da realidade . É uma estratégia de partilha e discussão grupal e/ou pública de opressões que muitas vezes nos são “invisíveis”, ou foram tornadas naturais. Estratégia essa que pretende fornecer instrumentos de comunicação, reflexão e acção libertadora os participantes, na medida em que a linguagem teatral é a linguagem humana por excelência.
O Teatro-Fórum pretende romper os rituais tradicionais do teatro que limitam o público ao imobilismo, à passividade. A ideia é o estabelecimento de um diálogo entre palco e a plateia, onde os espectadores se activariam ao entrar em cena para transformar a peça. Em função disso, Boal sugere que no Teatro do Oprimido não há espectadores, mas "espect-atores". Este diálogo é mediado por um "coreuta", pessoa que actua como interlocutor entre o espectáculo e a plateia.
Para quebrar o gelo entre os espectadores, que não se conheciam, os actores propuseram um jogo entre os espectadores, que implicava levantarem-se dos seus lugares, interagirem com desconhecidos e brincarem uns com os outros. As crianças aderiram logo mas os mais velhos pouco mais demoraram para admitir que aquela proposta era divertida. Quando a timidez começou a ir embora estavam então criadas as condições para dar início ao espectáculo. O espectáculo era composto por três actores. Um interagia com o público, explicando o enredo e convidando-o a dar início à função. Os outros dois actores, sem cenário, apresentaram-se como dois jovens adolescentes na fase de início de namoro. Tímidos, ingénuos, com vontade de serem amados. As primeiras confissões, os olhares trocados, o primeiro beijo. Tudo parece avançar de forma enternecedora. Mas logo nesse primeiro enleio há um prenúncio de que algo iria mudar. O rapaz, de 17 anos, quando a rapariga de 15 lhe diz que o pai não quer que ela chegue tarde a casa diz-lhe prontamente: “acho muito bem. Miúda minha tem de se portar com juízo!”. Ela não se apercebe desta primeira manifestação de opressão e fica exuberante com a conquista do seu primeiro namorado. A partir desse momento, as cenas entre os dois começam a entrar numa escalada de violência verbal, que culmina numa primeira intenção de passar para a violência física. Nesse quadro, antes do rapaz concretizar a acção que se destinava, a imagem congela e fica a noção bem real de que a rapariga está prestes a ser vítima de violência física por parte do seu namorado. A primeira parte do espectáculo termina nessa imagem congelada e o público é convidado, pelo 1º actor, que estabelece a relação entre a cena e o público, a intervir e a tomar o partido da personagem oprimida. Depois de mais uma proposta de jogo ao nível da expressão dramática, o público é confrontado com questões simples, que o impele a discutir a acção. Quando um espectador diz: “Eu acho que ela deveria agir de outra maneira…” é convidado a tornar-se no “espect-actor” e a substituir o oprimido na situação. As propostas foram muitas e o entusiasmo contagiante. Surpreendente foi a prestação de uma jovem menina, que confrontou o opressor, defendendo que uma relação se deveria basear na confiança e que ele não lhe deveria vasculhar o telemóvel. É evidente que a firmeza de uma atitude numa rapariga de 15 anos apaixonada e dependente emotivamente é difícil e é essa a base da construção de uma relação que vai ter como fundo permanente a violência física. As raparigas, que se tornam mulheres, crescem na esperança de que os seus namorados e companheiros mudem, aguentando toda a espécie de violência, quer verbal quer física. E cada vez se torna mais difícil a ruptura com o laço opressor. É neste sentido que o teatro fórum pode intervir, dando conselhos, descobrindo soluções, para que o oprimido se liberte e o opressor deixe de dominar. O espectáculo terminou passada uma hora e meia, mas o público tinha vontade de continuar a intervir. Ficou no público a vontade de mudar alguma coisa à sua volta e no final foram distribuídos alguns folhetos do núcleo de Portimão da APPAV, à qual as pessoas podem recorrer.
Entre os actores figurava João Correia, jovem algarvio, que iniciou o seu contacto com o teatro passando por grupos como a Associação Ideias do Levante, o grupo escolar Improviso e mesmo a criação do grupo de teatro A Gorda, com João Evaristo. João Correia completou os seus estudos de teatro de nível superior no Porto, tendo integrado recentemente a Associa cão A Pele, que se dedica ao teatro fórum. Este é mais um exemplo de um criador algarvio que construiu o seu percurso com sucesso fora da região, contribuindo para a afirmação do Algarve no resto do país
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Monday, May 19, 2008

O Dia das Mentiras


Foi no dia 16 de Maio que a autarquia de Lagoa recebeu o espectáculo “O Dia das Mentiras”, encenado por Fernando e baseado num texto de Rui Mendes a partir de dois textos de Almeida Garrett.
O pano abriu e o público deparou com um cenário pouco usual. Um cenário de época, retratando o interior de um hotel em Lisboa no ano de 1932, da autoria de Fernando Gomes, enquadra o espectador no tempo da acção. Rui Mendes recriou O noivado no Dafundo e Falar verdade a Mentir, reenquadrando-os num musical passado na época do começo da ditadura em Portugal. A cena acontece no dia da tomada de posse de Presidente do Conselho de Ministros por António de Oliveira Salazar. Esse momento foi sendo anunciado ao longo do espectáculo com a introdução de registos magnéticos que as personagens ouviam através da sua telefonia. O autor fez o cruzamento desse dia, que foi o grande dia das mentiras para o país, com as comédias de Garrett. A vida do país real tinha de ser encarada como uma comédia, dada a dimensão trágica do contexto político-social. O português médio ocupava-se de ninharias, esquecendo-se do grande perigo que ameaçava o país. As aparências, o faz de conta, as ilusões de uma classe média baixa que se antevia numa outra estratificação são uma realidade temporalmente transversal e Garrett escreveu estes textos no princípio do séc. XIX como o poderia ter feito na primeira metade do séc. XX ou mesmo nos dias de hoje. A “glória de mandar e a vã cobiça” acompanham a humanidade, impedindo-a de ter a consciência crítica em pleno para poder discernir os perigos de uma ditadura que se disfarça de democracia, contribuindo para o atraso de um povo. Num mesmo hotel de Lisboa cruzam-se duas histórias imaginadas por Almeida Garrett: o casamento festivo da filha de um comerciante das ruas da Baixa alfacinha; e o encontro entre um pai e uma filha que acabam de chegar do Porto, com o galã lisboeta com quem ela sonha casar. Só que o jovem tem um enorme defeito: mente a torto e a direito. Tanto num caso como no outro as coisas não correm nada bem e as peripécias que acontecem acabam em engraçadíssimas situações de comédia. Verdades e mentiras misturam-se por entre os corredores deste hotel que cruza a história da comédia de costumes lisboeta com a tragédia anunciada de um país à beira de ser consumido pela ditadura.
O elenco, constituído por Ângela Pinto, Bruno Batista, Elsa Galvão, Igor Sampaio, Joana Brandão, João Braz, João Didelet, Luís Mascarenhas, Rogério Vieira, Rui Santos e Sofia Petinga, está equilibrado, notando-se ao longo de todo o espectáculo uma grande e bonita cumplicidade entre os actores. As canções, da autoria de João Paulo Soares, as coreografias, as brincadeiras anunciaram-nos uma ligação afectiva que foi sendo construída ao longo de alguns meses. Mas João Didelet destacou-se mostrando a multiplicidade de personagens que foi capaz de interpretar para conseguir tornar verdade as mentiras construídas por um dos galãs do espectáculo. Muito interessante o pormenor das fotografias retiradas às personagens quando estas entram em cena. O cenário realista transportou o espectador para a ambiência fascinante dos anos 30 bem como o guarda-roupa cuidado da autoria de Rafaela Mapril.
Prestando mais atenção ao actor de Lagoa, formado por encenadores como Figueira Cid e Rui Sérgio através da Associação Ideias do Levante, pode dizer-se que foi com muita emoção que o público de Lagoa viu um dos seus filhos integrar-se numa estrutura de renome da capital, voltando à sua terra natal com uma prestação digna de registo. O paquete, personagem interpretada por Bruno Baptista, presente ao longo de todo o espectáculo, é o suporte essencial de toda a companhia. Consegue perceber-se a procura de seriedade da personagem, pois notou-se alguma diferença entre a sessão apresentada em directo pela RTP no dia 27 de Março e a sessão de Lagoa. Bruno Baptista esteve mais sóbrio, não perdendo, contudo, o toque burlesco próprio da personagem. Bruno Baptista faz o retrato da sua própria personagem: "Gomes é um rapaz que nunca gostou de fazer nada. O seu pai ,não sabendo o que fazer com ele, falou com o seu amigo Ezequiel que era dono de um Hotel em Lisboa, e arranjou trabalho ao seu filho como paquete no Hotel. E assim lá foi o Gomes para Lisboa trabalhar. A vontade de fazer alguma coisa no Hotel é pouca. Gomes arrasta-se pelos corredores do hotel e faz tudo muito lentamente. O seu patrão, Ezequiel por vezes quase perde a paciência. Gomes não tem um feitio fácil, respondendo muitas vezes de forma imprevista às pessoas, sendo até arrogante e malcriado. Afinal, ele detesta que lhe dêem ordens ou que se "armem em importantes". Outra coisa que também detesta é que lhe chamem "menino". Ah, e também não suporta portas abertas pois acha que provocam correntes de ar. Quanto ao que ele gosta...bem, para além de não fazer nada, gosta também de escutar as conversas dos hospedes do Hotel, gosta de quem aprecie um bom vinho, bebendo também o seu copinho (apesar de ter de o fazer às escondidas pois Ezequiel não quer os empregados a beber). A relação com o seu patrão, Ezequiel, é de amor/ódio. Ezequiel é um segundo pai para o Gomes. Gomes até simpatiza com ele mas detesta receber ordens ou ser apressado nos seus afazeres." No final o público que lotou o auditório municipal de Lagoa aplaudiu entusiasticamente o espectáculo, acarinhando o actor que viu crescer em prestações que ficaram na memória da história cultural daquele concelho como Afonso III, de Ernesto Leal encenado por Figueira Cid ou O Solário, de Fernando Augusto, encenado por Rui Sérgio. Bruno Baptista falou com emoção da sua prestação neste espectáculo: “Quase não acredito no que me está a acontecer. Trabalhar a sério no teatro sempre foi um sonho de criança. Vê-lo agora concretizado desta maneira e com os actores que sempre admirei deixa-me muito feliz e quase sem palavras. Sinto-me mais vivo do que nunca. Afinal, viver é lutar para concretizar os sonhos. As emoções e os sentimentos estão ao rubro.” Entrando nesta produção devido a um acaso ocorrido no espectáculo A desobediência, também encenado por Rui Mendes, no qual fazia uma figuração, a vida foi acontecendo como se estivesse dentro de uma das histórias que se habituou a contar no Algarve. Todos esperamos que a história tenha um final feliz porque sabemos que Bruno Baptista o merece. Parabéns Bruno!

Mar Encantado


A Companhia Mar Encantado apresentou em Albufeira o espectáculo “Uma Aventura no Fundo do Mar”.Este espectáculo, encenado por Jan Gomescom música de Carlos Barreto Xavier, baseia-se no Texto homónimo de José Carlos Completo. O espectáculo revestiu-se de música, dança e, sobretudo, um cenário esplendoroso da autoria de Anésia Medeiros e Neila Kiilli feito de aproveitamento de materiais recicláveis apelando a uma mensagem ecológica de preservação dos oceanos. O espectáculo começa com dois mergulhadores, Patrícia Gaspar e Tiago Nogueira, a acordarem numa praia, recordando-se da aventura que tiveram entre os serem marinhos. O pano está fechado e eles tentam lembrar-se se foi um sonho ou se foi realidade. Verificam que, tendo tido o mesmo sonho, só pode ter sido verdade e convidam a audiência a penetrar nos mistérios dos oceanos, conduzindo-a a uma orgia de cores, própria do fundo do mar. O pano abre e o público penetra no cenário fantástico, todo feito à mão, que recria a beleza do fundo do mar. Vemos as medusas, cardumes de peixes e voltearem no espaço aquático, polvos, cavalos-marinhos nadando entre corais e algas. Os mergulhadores perdem-se no meio de tanta beleza. Denunciados pelas três medusas, defendidas por Ana Lázaro, Ana Penitência e Andreia Ventura, os mergulhadores defrontam-se com Neptuno, o rei dos mares, interpretado por Rui Ventura, que resolve vigar-se deles, aprisionando-os, pois andava zangado com toda a poluição e estragos que os humanos têm provocado. Depois de terem tentado escapar dizendo uma palavra mágica, como no teatro, e verificando que tal não resultava, os mergulhadores foram soltos pelas medusas com uma condição: a de levarem a toda a humanidade a mensagem de preservação dos oceanos. Uma história simples que pretende difundir uma mensagem essencial é suportada, não pela consistência dos actores nem pelo ritmo das canções mas por um cenário deslumbrante. Os adereços cenográficos desta aventura são totalmente feitos a partir de lixo reciclado. Estes cenários são pintados com tintas fluorescentes o que, com a luz negra, produz um efeito absolutamente mágico. Esta é uma das especialidades da Mar Encantado, companhia existente há três anos mas que só agora saltou para o palco - a fabricação manual de cenários e adereços com materiais reciclados. Outra é a execução de workshops para crianças, com temáticas de sensibilização ambiental e reciclagem, ensinando as crianças a fazer artigos úteis a partir de lixo. Totalmente feito a partir de resíduos, trabalhado à mão, um fundo do mar brilhante e mágico ali estava, com rochas, corais, algas, medusas, tubarões e muitos outros peixes e pormenores. Os cenários até encobriram algumas falhas, como a perda da garrafa de oxigénio do mergulhador, recuperada pela mergulhadora, o regresso do mergulhador sem a garrafa de oxigénio, o que, em última instância pode ser perigoso, uma vez que estamos a passar mensagens de vária ordem ao público mais novo. Os seres marinhos podem viver no fundo do mar sem botijas de oxigénio, mas é bom que, mesmo a um nível subliminar, as crianças tenham consciência de que os mergulhadores não sobrevivem se não levarem com eles oxigénio para respirarem debaixo de água.
O aproveitamento do breack dance, muito em voga, foi aceite de forma efusiva pelo público mais jovem, e os figurinos, sobretudo o de Neptuno, fizeram furor entre as crianças. A articulação entre a luz negra, realçando o fluorescente das tintas, e a “luz de aquário”, perfeitamente adequada, possibilitou que, ao mesmo tempo que as crianças tivessem uma consciência do aspecto do fundo do mar, fossem seguindo a história saindo momentaneamente da obscuridade. Nas canções, apesar de haver uma certa vivacidade, a voz da mergulhadora feria um pouco os ouvidos mais sensíveis, uma vez que não dispunha de uma colocação adequada. No geral foi um espectáculo cativante, que conseguiu despertar as crianças para uma mensagem fundamental de defesa dos oceanos e do nosso planeta. No final do espectáculo as cenógrafas explicaram às crianças algumas maneiras de transformar uma garrafa de plástico num tubarão, ou um monte de trapos numa medusa. Uma boa articulação entre o teatro e a educação cívica e ecológica.

Concertos Promenade:Saudades do Futuro

O Teatro Municipal de Faro começou a sua temporada dos concertos Promenade dedicada aos grandes compositores com O Barbeiro de Sevilha», de Gioachino Rossini. Neste concerto, Augusto Miranda, vereador da Cultura de Faro que neste concerto foi a personalidade convidada que sugeriu a obra, enalteceu a iniciativa e, dando voz ao seu entusiasmo mostrou ao público mais jovem como a chamada música erudita pode ser divertida, sem deixar de ser trabalhada e de difícil interpretação. O tenor ajudou à encenação do barbeiro, o que muito divertiu e entusiasmou os mais pequenos.
Um mês mais tarde foi Mozart , o compositor escolhido para atrair os mais jovens para o encanto da música clássica. Vivaldi tomou parte no rol dos grandes compositores, tendo a Orquestra do Algarve apresentado a sua obra mais conhecida, As Quatro Estações. Mendelssonh, com a sinfonia italiana e Bheethoven, com a sua Quinta Sinfonia, deixaram-se ficar para o fim, para melhor se saborearem com os aromas dos dias maiores.
Com Beethoven o Teatro Municipal de Faro decidiu convidar a comunidade holandesa no Algarve a fim de, ao som da rapsódia de Piet Hein, do compositor Peter van Anrooij, exaltar as glórias dos tempos em que rivalizavam com os portugueses as conquistas dos grandes mares.
Neste último evento esteve presente a senhora cônsul da Holanda e o secretário de Estado das Comunidades, que exaltaram as virtudes deste tipo de concertos, colocando a música na sua dimensão verdadeiramente universal.
Depois da jovem plateia ter sido interpelada a chamar a orquestra e o maestro Laurent Wagner, distinto director francês, que há três anos dirige a RTÉ Concert Orquestra em Dublin, pôde ouvir directamente de uma orquestra as quatro notas que se tornaram as mais famosas da música ocidental. E depois das quatro notas iniciais, toda a sinfonia se lhes seguiu, forte, irreverente e heróica, acordando os sentidos dos mais desprevenidos. Os quatro andamentos foram executados pela Orquestra do Algarve com a força que a alma de Beethoven exige à música. E, apesar dos segundos violinos terem tido alguma dificuldade no acompanhamento do ritmo entusiástico do terceiro andamento, a quarta sinfonia conseguiu empolgar o auditório do Teatro das Figuras.
Depois dos andamentos apaixonados de Beethoven a Orquestra do Algarve, em homenagem à comunidade holandesa no Algarve, interpretou a rapsódia de Piet Hein, o almirante da marinha holandesa, que ficou famoso pela conquista dos Galeões da Espanha em 1628. À medida que a música ia evoluindo, o público podia ir apreciando imagens típicas da Holanda, desde os moinhos que suportam os diques até aos campos floridos de túlipas ou às socas de madeira. O orgulho laranja desceu sobre as crianças do Teatro das Figuras sob a forma de balões, substituindo o hino dos concertos promenade.
Os concertos Promenade surgiram em Inglaterra como uma forma de tornar a música acessível a todos os públicos, insinuando-se nos jardins, nas praças, envolvendo as pessoas que, em traje de passeio, ao ar livre, desfrutando da Natureza, podiam juntar às delícias do ar livre o privilégio da boa música. É louvável o esforço que muitos teatros nacionais têm feito, nomeadamente o Teatro das Figuras, no sentido de promover a continuidade destes concertos informais, mas nem por isso menos sérios, contribuindo para a educação de públicos. De realçar as actividades preliminares dedicadas às crianças que o serviço educativo do teatro Municipal de Faro concebe para cada Concerto Promenade.
Resta-nos agora um vazio que se anuncia breve, até ao próximo ciclo deste tipo de concertos destinados à família.

Friday, May 2, 2008

O êxtase da Companhia Nacional de Bailado


Uma coreografia assente na música de Shostakovich é sempre um trabalho perturbador que desencadeia emoções profundas. O que aconteceu no Auditório Municipal de Portimão no passado dia 27 de Abril foi uma confirmação desse bater à porta da nossa emoção. A compania Nacional de Bailado começou o seu espectáculo com a coreografia Front Line, de Henri Oguike com música Música Dimitri Shostakovich - Quarteto de Cordas nº 9 EB major op.117- Desenho de Luz de Guy Hoare eFigurinos de Liliana Mendonça. Esta primeira coreografia, de apenas quinze minutos de duração, foi de uma intensidade perturbadora, dada a técnica dos bailarinos e os ritmos de Shostakovitch. Quinze minutos foi o tempo adequado para apreciar a intensidade daquele encontro entre a música e os corpos. Uma fusão muito bem conseguida, plena de energia de grupo, mostrando uma sincronia perfeita a acompanhar ritmos violentos e fortes. A coreografia de Henri Oguike juntou o corpo ao pulsar da música, permitindo um fluir dos sons também através dos corpos. Aqui se começou a vislumbrar a ligação de Ogike à expressão dramática, quando fez soltar os sons a partir dos seus bailarinos
A segunda coreografia, Lento para quarteto de cordas, de Vasco Wallenkamp, assenta em excertos de obras para cravo de Anton Webern. O magnífico Desenho de Luz foi assinado pelo olhar experiente e poético de Cristina Piedade, desta vez assessorada por Vasco Wellenkamp. Os figurinos tiveram, mais uma vez, a mão de Liliana Mendonça. A cenografia é composta por um pás de deux tocante que exprime a emoção do sentimento amoroso. Os figurinos tomaram uma especial dimensão nesta coreografia, criando uma figura etérea que flutua ao sabor do sentimento amoroso. Não é por acaso que esta coreografia nos evoca alguns momentos do bailado de Olga Roriz Pedro e Inês, uma vez que o desenho de luz foi também concebido por Cristina Piedade. O desenho de luz, a par da música de Webern, foram os intérpretes desta belíssima coreografia. O par de bailarinos dançava com a luz, gerando uma cumplicidade rara. A música, intimista, criava por si só uma atmosfera especial que se intensificava com o desenho de luz. Os corpos formavam o apontamento final, contribuindo com a dimensão humana para a carga orgânica que toda a coreografia já em si continha. Um momento prodigioso. É bem patente o diálogo que, neste caso, os figurinos têm, quer com os bailarinos, quer com a música de Webern. Esta coreografia foi a ideal para despertar no espectador sensações de bem-estar. A música de Webern convidava a uma alegre celebração e os corpos, possuídos de um entusiasmo muito próprio, transmitiam alegria e vontade de viver. A harmonia dos bailarinos que dançavam aquela música conciliadora e anímica, expressa pela coreografia e acompanhada pelos diferentes matizes desenhados pela luz foram a perfeita união de artes para uma coreografia perfeita. O preencher daquele espaço na nossa consciência que corresponde à pulsão de vida: a criação da vontade de viver. Cantata foi um dos grandes momentos da noite. Com Coreografia de Mauro Bigonzetti, Arranjo musical do Gruppo Musicale Assurd, a partir de música original e tradicional do sul de Itália, os figurinos foram concebidos por Helena Medeiros, e desenho de Luz por Carlo Cerri. Esta coreografia fala-nos dos jogos amorosos que existem em alguns grupos rurais. A origem da música está no Sul de Itália, mas poderia estar numa aldeia da Andaluzia ou em Trás-os-Montes. Bigonzetti criou "Cantata" a partir de canções tradicionais napolitanas do século XVIII. Para o coreógrafo italiano, a peça incide nas fortes semelhanças que considera existirem entre a cidade italiana de Nápoles e Lisboa: ambas são cidades litorais, com bairros antigos e mulheres parecidas na beleza, no espírito e no carácter apaixonado. O trabalho começa com uma formação em V, de onde se ouvem apenas as vozes dos bailarinos a entoarem um canto tradicional. Afinados, dentro do ritmo, cantando a duas vozes, introduziram o público no contexto de uma ruralidade quase remota. Depois deste cantar quase sagrado, os bailarinos começaram então a entregar-se à dança. E essa dança, plena de uma tensão sexual, geradora de uma energia especial, foi o retrato da alma latina. Sensuais, barulhentos, desordeiros, apaixonados, os bailarinos mostraram como, a par de uma técnica irrepreensível, mostrar a alma de um povo. Um ritmo alucinante, um sentido de humor constante contagiaram o auditório de uma vontade de dançar. O resultado foi uma ovação de pé por parte do público que quase lotou o Auditório Municipal de Portimão. Uma digna homenagem ao mês na dança neste evento da Dança na Primavera, de Portimão.