Saturday, August 18, 2007

Descobrindo a Fada Formosa


Todos os dias, a empresa de animação ANIMARIS faz dois passeios pela Ria Formosa, que pretendem ser uma autêntica lição de educação ambiental. E para além dos adultos as escolas também podem marcar uma aula diferente e dar a descobrir às crianças os segredos da fada formosa.
Batiam as onze horas na igreja da Sé quando um grupo de visitantes, quase todos estrangeiros, esperava ansiosamente pelo embarque no cais da Porta nova, em Faro, para iniciar a aventura da descoberta da Ria Formosa. Embarcámos na pequena embarcação, um catamaran de 15 metros e fomos apresentados à nossa monitora, Adelaide Fonseca, mais conhecida por Milai, que foi desocultando os pontos de interesse ao longo do passeio. Milai, contadora de histórias, aspirante a fada nos passeios em que se descobre a fada formosa, elucidou-nos sobre o ponto mais a Sul de Portugal.Continental.
Com ela ficámos a saber que o Parque Natural da Ria Formosa foi fundado em 1987, após ter sido considerado uma Reserva Natural desde 1978. Estende-se ao longo de 60Km pela costa algarvia, entre o Ancão (concelho de Loulé) e a Manta Rota (concelho de Vila Real de Sto António). Ocupa, actualmente, uma área de cerca de 18.400 hectares e abrange partes dos concelhos de Faro, Loulé, Olhão, Tavira e Vila Real de Sto António.
A maior parte da sua área é constituída pelo sistema lagunar da Ria Formosa; um cordão de ilhas e penínsulas arenosas, alinhadas paralelamente à costa, protegendo uma laguna que constitui um labirinto de sapais; canais; zona de vasa e ilhotes. O cordão é formado, essencialmente, pela Península do Ancão (que inclui a “ilha de Faro”), as ilhas da Barreta, Deserta, Farol-Culatra, ilhas da Armona-Fuseta, de Tavira, Cabanas e, por fim, Península de Cacela.
Esta área foi classificada como Zona Húmida de Interesse Internacional, pela Convenção de Ramsar.
O passeio pela Ria é agradável, permitindo desfrutar de toda uma multiplicidade de cheiros e matizes que enquadram todos os tons de azul.
A bordo disponibilizam-nos binóculos, através dos quais podemos apreciar mais de perto a fauna que depende do sistema lagunar de sapal que é a Ria Formosa. Ali se podem observar em todo o seu esplendor garças brancas, garças pequenas, maçaricos galegos, andorinhas do mar, Fuselos, Ostraceiros e Corvos marinhos. A nossa monitora ia traduzindo os nomes para inglês, mas de vez em quando também o faz para francês ou castelhano.
O passeio inclui uma visita à ilha deserta, onde o visitante pode deambular pela praia ou então seguir os trilhos e penetrar no coração da ilha.
Um mau cartão de visita é o lixo que acena ao visitante logo que este põe o pé na ilha. Espólio do desleixo de visitantes menos conscienciosos, os sacos esperam pacientemente que uma entidade camarária faça uso do seu dever e os venha, por fim, recolher. Não é um bom sinal para que ensina às crianças as regras básicas da educação e do civismo.
De regresso a Faro os visitantes puderam provar algum do sabor das terras algarvias. A amêndoa, servida em doce fruto ou em licor, fez as delícias dos palatos dos marinheiros de ria. As crianças, quando regressam, preenchem um caderno de actividades relacionadas com o que aprenderam no passeio, pintam os desenhos das aves que reconheceram nos sapais. Regressam mais ricas, porque ficaram detentoras de um saber que não se aprende nos livros mas que a Fada Formosa ajudou a permanecer na sua memória.

*Com Ana Isabel Pacheco

O regresso das Cenas na Rua



Tavira abriu mais um festival Internacional de Teatro e Artes na Rua. Quinze dias cheiinhos de animação com programas para todos os gostos é o que a cidade do Gilão oferece ao seu público. Este ano a autarquia apostou em nove estreias que irão certamente surpreender o transeunte menos atento.
O recém-criado anfiteatro da Praça da República de Tavira foi pequeno para acolher o público que se juntou para admirar Niño Costrini, o artista argentino que desconcerta o público com o seu sentido de humor politicamente incorrecto. Saturados de um humor que se apoia no texto mais ou menos conseguido, na piada fácil, foi uma lufada de ar fresco ver Niño Costrini a roubar gelados aos transeuntes, a lançar o sapato de um espectador para o meio do público, a pedir por tudo para que os pais das crianças as agarrassem, pelo perigo do manuseamento do fogo, a interagir de forma saudável com o público. Excelente nos malabares, contundente no humor, Niño Costrini teve um desempenho excelente, provocando o riso espontâneo nos espectadores que assistiram à abertura do evento.
Dia 5, na Calçada da Galeria pôde-se assistir ao espectáculo O Pai do Gigante, pelo grupo ENTREtanto Teatro. Dia 6 foi a vez do Teatro Extremo actuar no Jardim do Coreto com o espectáculo Velho Palhaço Precisa-se. Sábado e Domingo, foi a vez do grupo sedeado em Tavira, Al-Masrah Teatro, apresentar a sua mais recente produção em estreia absoluta. Trata-se do espectáculo Carne para Cargueiro, baseado numa história verídica e que continua a mexer com o público.
O Teatro das Beiras surgiu na Praça da República dia 9 com o espectáculo de rua Os Piratas, ao que se lhe seguiu o grupo Alatak, que levou a Tavira um espectáculo baseado nas técnicas de vídeo jamming. Dia 11, com honras de fecho será a vez do espectáculo O Empresário, co-produzido pela ACTA e pela orquestra do Algarve ter a sua apresentação na Praça da República.
Herdeira de Faro Capital da Cultura, esta iniciativa permite olhar a cidade de Tavira de uma forma mais cosmopolita, assumindo-se como uma verdadeira cidade europeia.

Friday, August 17, 2007

O empresário - Um espectáculo completo



O espectáculo O Empresário, a partir da obra Der Schauspieldirektor, de Mozart, foi levado à cena três dias seguidos em três cidades algarvias. Este espectáculo, da responsabilidade conjunta da Orquestra do Algarve e da ACTA, assume-se como um espectáculo para as famílias onde a música se encontra com o teatro.
A Orquestra do Algarve e A Companhia de Teatro do Algarve, em associação com o Ópera Estúdio de Lisboa levaram a cena o espectáculo O Empresário, a partir da semi ópera de Mozart Der Schauspieldirektor. A encenação, tradução e dramaturgia estiveram a cargo de Paulo Matos que, com a maestria de um encenador experiente adaptou de forma exemplar o texto de Mozart à realidade contemporânea portuguesa. Os problemas de financiamento das companhias de teatro, a discussão sobre os critérios de qualidade, as cedências a que alguns directores se têm de sujeitar para poderem manter as suas companhias e poderem pagar os salários aos seus actores foram apontados com exactidão, expondo a nu os dramas diários de quem fez sua a profissão de actor.
Luis Vicente apresenta os seus dramas diários num registo sentido e quase comovente. Com o financiamento aceite, começam os malabarismos para se cumprirem todas as exigências do Ministério da Cultura e que, parecendo texto de comédia, de tão absurdas que são, na verdade, são bem reais.
Começa a preparação para o espectáculo com a elaboração do Casting, a que não são alheias todas as discussões inerentes à qualidade que se exige de um actor ou de um cantor, alimentadas pelos assistentes do director da Companhia, João Jonas e Afonso Dias. Os músicos aparecem, vindos do público, para se sujeitarem às audições, submetendo-se de imediato às instruções do maestro. O Casting começa e irrompe voluptuosa e sensual Elisabete Martins, interpretando uma actriz medíocre que se vale da sua ligação com um empresário para conseguir um papel de relevo na companhia. Interpreta Frei Luis de Sousa de forma histriónica e o poder do cheque faz com que ela seja aceite na companhia. Elisabete Martins expõe a sua graça natural neste papel, soltando-se e divertindo a plateia. O empresário Azevedo, interpretado por Luis Miranda também faz as delícias da assistência, com o seu ar assustado e submisso perante a sua insidiosa amante. Tânia Silva está muito consistente na jovem estudante de teatro que interpreta um grande texto clássico, com a sua candura que se transforma em força ao soltar o monólogo da Medeia.
Pelo seu lado, o maestro também parece sucumbir aos encantos de uma cantora que exige para si o papel de prima donna, interpretada por Lara Martins. Quando a cantora é confrontada com outra candidata igualmente virtuosa, Carla Caramujo, há uma disputa entre as duas candidatas a prima donna e acontece um fantástico duelo que tem por base a área da Rainha da Noite, da Flauta Mágica, de Mozart.
Não faltou a homenagem à Revista à Portuguesa pela mão de Glória Fernandes, divertida e solta num dos mais ousados textos levados a palco. Hilariante a reconstrução do clássico português O Costa do Castelo, na cena em que os jovens apaixonados, já envelhecidos, se reconhecem. Fernando Guimarães, para além da voz poderosa que mostrou revelou-se um actor de comédia bastante convincente.
A orquestra encantou nos pequenos trechos musicais que executou e os cantores brindaram os espectadores com as suas vozes de excelência.
Os figurinos de Rafaela Mapril dão ao espectáculo a dignidade que ele merece. Adequadíssimos, fazendo elevar a personagem de dentro do actor. A cenografia de Tó Quintas evoca o ambiente maçónico que se vivia na época de Mozart. A luz de Vasco Mósa realçou, no caso de Loulé, as arcadas do claustro da cerca do castelo onde o espectáculo decorreu. E nem o vento que se fez sentir distraiu o espectador do que era fundamental: o espectáculo.
Os quarenta e dois intervenientes, entre cantores, actores e músicos, contribuíram para que os espectadores regressassem a suas casas mais ricos, mais reconciliados com a vida, não deixando de lado o convite à reflexão.

O prazer de ver o teatro meridional



No dia Internacional do Teatro Loulé recebeu o Teatro Meridional com o seu espectáculo Por Detrás do Montes, encenado por Miguel Seabra. O segundo espectáculo do projecto províncias que procura mostrar a singularidade identitária que marca as diferentes regiões de Portugal. Um espectáculo onde a música e o corpo simbólico tiveram os papéis principais.
A voz profunda e humana começou a tomar conta do cineteatro louletano. Vindas de trás dos espectadores, os cantos intensos e penetrantes invadiram o espaço que já tinha a dimensão vibrante da música de Fernando Mota. Depois da música e das vozes os corpos dos actores começaram a tomar conta da cena, sendo por fim pintados pela luz de Miguel Seabra. O espectáculo Por Detrás dos Montes, encenado por Miguel Seabra, tem como referência o distrito de Bragança, no Nordeste Transmontano. Este é um espectáculo em que se sente a contaminação da matriz cultural transmontana. Como afirmou Natália Luiza, responsável pela dramaturgia do espectáculo, “este espectáculo visa falar de nós, saber de nós, aproximar-nos de uma matriz cultural que, embora comum, sempre esteve por detrás do granito dos Montes e que, sendo naturalmente permeável às exigências do mundo, mantém especificidades muito singulares.
Tal como no espectáculo anterior, não tivemos a veleidade de sustentar o trabalho numa recolha de informação antropológica, histórica, narrativa, mas antes deixarmo-nos contaminar por isso tudo e, pela observação sensorial, pelas sonoridades, pela paisagem, pelos sotaques, pela musicalidade, pelos rostos e pelas estórias. Formulámos então, subjectivamente, a forma como fomos tocados pelo Espírito do Lugar. O que escolhemos tornar narrativa cénica, primeiro intuída, e depois encontrada nos corpos e entendimento dos criadores.” Pelo decurso do espectáculo podemos dizer que esta equipa de criadores foi tocado pelo génio do local. Apesar de não utilizar a palavra como o meio privilegiado da comunicação cénica, o espectador tem a possibilidade de penetrar dentro da alma transmontana através da plasticidade do espectáculo. Como adiante Natália Luiza, o espectáculo “Serve-se e constrói-se nos corpos dos actores – aqui múltiplos no serviço da cena, das intenções e dos gestos, da música, da plasticidade do cenário e dos objectos, como que querendo pôr no lugar do palco, a energia guardada no silêncio das pedras. Põem-se e tiram-se as máscaras, para dizermos deste duplo significado que é a possibilidade de sermos mais outro, neste lugar onde o religioso e o profano, a verdade e a mentira, a ausência e o excesso se jogam na vida, tal como nós a jogamos no teatro.
Não tem um tempo diacrónico, antes fragmentado. Mas o espaço da cena é sempre lá, é aí, onde queremos estar, nesta visitação de quem atravessa e olha o lugar dos montes na geografia de quem os habita. Sabemos, porém, que embora queiramos estar e olhar por dentro das coisas, teremos sempre o olhar do visitante, aquele que é estrangeiro ao verdadeiro segredo. E trabalhar sobre o segredo, como conceito inerente à nossa percepção do lugar, foi uma das linhas condutoras da construção deste espectáculo. Porém, no lugar onde a matéria da intimidade se torna comunicação, queremos reafirmar o privilégio que é sentir, ser e interpretar os sinais de um lugar que é também nossa pertença, na geografia, na história e nos genes.”
Para o espectador foi um grato prazer penetrar nos mistérios do linho, da roca, da oração. Ver a oração transformar-se em coro grego e a máscara tornar-se rosto e corpo, pelo efeito da transformação operada pelo imaginário colectivo. Os tons castanhos e ocres das vestem redimensionam o olhar para a agrura das terras transmontanas. Os caretos impuseram-se na celebração festiva que dava origem à punição social. Uma punição que contribuía para a paz social, acabando tudo no baile da celebração do linho. Miguel Seabra disse a propósito desta sua encenação: “Encenar este espectáculo foi encaminhar invisivelmente uma procura colectiva que descobriu e propôs caminhos, que desenhou mapas, que inquietou certezas adquiridas, que alargou horizontes, que rasgou fronteiras e provocou instabilidades.
Foi fazer um percurso pelos segredos Detrás dos Montes e descobrir um sentido de identidade socialmente mais consciente e culturalmente mais humanizado.” Para o espectador, este foi um espectáculo que contribuiu para descobrir o humano que há dentro de si.

Libertar a partir da prisão

Sexta-Feira, os primeiros dias, foi o nome de uma oficina de criação e experimentação de múltiplas linguagens da cena com uma incidência particular na manipulação de formas e objectos e no movimento. Orientados pelos actores do Teatro do Ferro, os participantes nesta formação souberam libertar a alma de quem com eles partilhou as emoções da clausura.
Há muito tempo que não tinha oportunidade de assistir a um espectáculo tão bonito e intenso como o que aconteceu no Solar do Capitão-Mor no passado dia 12, às 18h00.
Entre 10 e 12 de Maio, entre o Solar do Capitão-Mor e o Teatro das Figuras desenvolveu-se uma experiência em função do colectivo e das suas especificidades. Esse espectáculo, da responsabilidade do Teatro do Ferro, foi o resultado de uma oficina de trabalho intenso que visa a preparação de um trabalho de longo fôlego para Novembro e que se irá chamar Sexta-Feira. Trata-se, como nos anuncia o nosso imaginário colectivo, de um trabalho que irá ter por base o texto Robinson Crusoé.
Para a preparação deste trabalho foi feito um convite à comunidade em geral. Não era preciso qualquer tipo de experiência e não fazia exigências ao nível da idade ou do sexo. Apenas era exigida disponibilidade total durante três dias. Feito o repto um grupo compareceu, com idades compreendidas entre os 9 e os sessenta. O desafio era recriar a sensação do náufrago quando se vê sozinho na ilha, de onde não consegue sair. A ilha torna-se uma prisão. Foi nesse sentimento de estar aprisionado que o grupo trabalhou, construindo as suas prisões interiores, visíveis através de pequenos objectos manufacturados pelos actores, numa oficina de construção de materiais.
No espectáculo entrava-se justamente pela oficina, passagem através da qual o público se confrontava com as ferramentas de que os actores se serviram para os ajudar a conceber os pequenos objectos com os quais iam interagir. Depois dessa passagem pelo mundo material passou-se para o mundo espiritual e simbólico. Este ficava oculto numa pequena sala que estava parcialmente coberta por panejamentos pretos. O público tinha de se posicionar da melhor maneira possível, estando atento à acção, que poderia surgir de qualquer lado. Os actores, um a um, iluminados por um único projector móvel, mostravam a sua relação com a prisão que tinham construído. Um diálogo intenso do actor com o objecto, mantido ao nível do corpo, mostrando que neste caso a palavra era supérflua. Os actores seguiam-se uns aos outros em silêncio e o público, também em silêncio, orientava os seus sentidos da melhor maneira possível. Da sala parcialmente coberta a preto, passámos a outra totalmente coberta de panos pretos, onde aconteceram mais duas interacções com os objectos, mantendo a ideia de prisão e de sufoco claustrofóbico. Depois destes dois momentos voltámos à sala mais clara, onde pudemos também observer uma interacção criada por uma criança. A solução, que foi buscar inspiração ao universo dos fantoches deu também a noção da inacessibilidade a da falta de comunicação que muitas vezes existe entre gerações. Um a um os actores apresentaram o seu conceito de clausura. Um a um, o público foi sendo surpreendido pelas propostas diferentes de interacção com objectos simbólicos, criados por cada actor. Durante toda esta passagem de testemunhos o público foi-se adaptando ao espaço como uma massa orgânica, em silêncio e com um sentido de partilha muito grande. O material (humano e imaterial) que se produziu nestes três primeiros dias de trabalho intenso será integrado no espólio/arquivo-vivo do espectáculo Sexta-Feira e alguns dos participantes poderão mesmo integrar o elenco do espectáculo. No fim o público ficou com a grande curiosidade de ver, em Novembro, o espectáculo concebido pelo Teatro de Ferro, a partir destas oficinas criativas. Esta iniciativa partiu do centro de animação e pedagogia do Teatro das Figuras e, apesar de ter sido o resultado de dois dias de trabalho o público ficou ciente de ter participado num ritual belo e intenso. Exactamente aquilo que precisamos para a vida.

Jovens artistas jovens

O CAPa é um dos 14 parceiros que torna possível em Portugal o Projecto “Jovens Artistas Jovens”. Este projecto já existe noutros países europeus e pretende apoiar os jovens artistas, ganhando também um conhecimento da sua situação real e integrando-os em estruturas (teatros, associações) a nível nacional.
Este projecto vem colmatar uma lacuna, pois pretende fazer um levantamento sobre os grupos de jovens criadores que querem oferecer o seu talento ao país. Através deste projecto, esses artistas poderão ultrapassar algumas dificuldades inerentes aos projectos de jovens que querem colocar os seus projectos na cena nacional.
O projecto “Jovens artistas jovens” é sensível à necessidade que os jovens têm relativamente a uma experiência artística que contemple aspectos de produção e de técnica, que lhes permitam, mais tarde, alcançar autonomia. Pretende-se, por isso, a possibilidade de realizar um trabalho no contexto de uma estrutura que funciona em moldes profissionais, que permitirá dotar os jovens artistas de conhecimentos e ferramentas que lhes podem ser úteis no momento de pensar novas criações.
As entidades organizadoras sentem que “muitas vezes, os jovens artistas trabalham sós e silenciosos. Pensamos que a possibilidade de encontros e discussões com artistas com uma experiência mais firmada e com um olhar diferente sobre a arte pode resultar no enriquecimento exponencial não só dos seus trabalhos, como deles próprios. São eles que ganham de um olhar renovado e mais maduro críticas, questões e estímulos que decerto não os deixarão imunes. (…) Se os jovens artistas permanecerem arredados do público, aquelas que constituem as suas grandes preocupações e as suas maiores apostas ficarão perdidas numa geração sem espelho artístico. ”
Por considerarem que o apoio aos artistas jovens é quase uma obrigação, no sentido em que as estruturas de teatros são veículos de encontro entre comunidades de público, de artistas, de discursos e de olhares, criaram a possibilidade de os artistas se afirmarem através de um concurso a nível nacional, com o intuito de oferecer a possibilidade de um acompanhamento gradual do trabalho artístico e ainda a sua produção. Este seria, assim, o objectivo último do projecto “Jovens Artistas Jovens”. Finalmente, numa tentativa de potenciar ao máximo esta iniciativa, pretende-se que o projecto português “Jovens Artistas Jovens” seja parceiro dos outros projectos congéneres na Europa, de modo a permitir a apresentação de trabalhos e a discussão de questões a nível internacional.
Lá e Cá foi um dos três projectos que ganhou a possibilidade de fazer uma residência artística no CAPa. Desenvolvido por duas jovens artistas, Catarina Vieira e Solange Freitas, estas criativas basearam-se num texto de António Lobo Antunes, Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo e construíram um espectáculo inovador e diferente, falado no feminino. As personagens são complexas, muito ricas de passado e sequiosas de comunicar, por estarem envoltas no silêncio, no esquecimento, num não-lugar familiar e social. «A única coisa que pretendo é que me deixem em paz sozinha comigo ou antes sozinha com isto que não sou eu e em que me tornei» Essa sede de comunicação torna o discurso tenso e ritmado, no qual a pontuação, omissa pela urgência de falar, é compensada pela expressividade e pela poesia. O espectáculo Lá e Cá assenta nesse princípio da incomunicabilidade. Uma mulher aparece sem rosto, com um saco de papel cobrindo-lhe a identidade. Outra mulher chega, igualmente sem identidade. Elegantes, os sapatos, como coturnos, elevam a figura sem rosto. As mulheres penteiam os cabelos que não se vêem sob um saco de papel que oculta o rosto. Dão ao saco uma outra identidade, quando desenham com baton uma outra boca e uns outros olhos.
Tentam “Não se querer enganar, não se deixar ler, não se tornar expressão, ser impassível, não mostrar a cara, esconder os olhos, não ver e não ser visto, filtrar a informação da alma, fingir-se de morto, não mostrar tudo, estar sempre a fugir, ter nove mil caras, fingir-se de morto, ver e não ser visto, ficar na sombra, ser igual ao outro para não ser o outro, não perder o pé ou a cabeça, não sair do mesmo sítio.”
As actrizes dominam o espaço, coberto com cartão, apesar de não o conseguirem ver. Uma delas tenta compor a imagem colocando brincos, mas o cartão começa a rasgar-se. A tentativa de compor o que está desfeito vem através da tentativa de colar o rosto com fita adesiva. A outra mulher fala e vai comendo o papel que lhe cobre o rosto. A identidade descobre-se a partir da palavra e o papel vai-se rasgando em pedaços cada vez mais pequenos, cobrindo o olhar. A relação do corpo com o espaço, construída com o apoio de Luca Aprea, é íntima e permite que o corpo se movimente de olhos fechados num espaço com obstáculos. A boca do corpo revela a fala das profundezas do sentimento de si, que engole o real de forma ampliada. Quando a palavra desoculta o rosto, um espelho devolve a imagem do objecto de conhecimento a si próprio. É comovente a cena em que a actriz se move, ostentando no rosto um espelho que devolve a imagem aos espectadores. Com o espelho, o sujeito pode efectivamente ter nove mil caras, fugindo de si próprio. Do espelho passa-se ao filtro e a uma das cenas mais bonitas do espectáculo. A meio da cena, sobre um balcão, estão dispostos lado a lado seis grandes jarros transparentes cheios de água. Seis infusas uterinas que permitem um olhar filtrado sobre a realidade. Com a luz belíssima de Wagner Borges, os rostos por detrás das infusas ficam deformados e estranhos, dando ao outro o reflexo de uma realidade que não é a sua. Segundo Lobo Antunes, “O inferno consiste em lembrarmo-nos a eternidade inteira”.
As conversas, o social, escondem-se atrás de uma capa de múltiplos rostos, alimentados por conversas fúteis. Quando o rosto se descobre e fita o outro, olhos nos olhos, a sintonia acontece e o corpo responde em simultâneo. O espectáculo acaba quando a cumplicidade é encontrada.
As referências à escrita profunda e complexa de Lobo Antunes tornaram-se evidentes ao longo de todo o espectáculo, que se impôs como uma bonita homenagem ao escritor.
Um espectáculo belíssimo que nos convida a aprofundar a leitura de Lobo Antunes, mas que, sobretudo, nos aguça a curiosidade sobre os projectos que os jovens criadores não podem deixar na gaveta.

Do sublime e do horrível

Numa mesma semana pudemos assistir a dois espectáculos que paradoxalmente tocam as mesmas categorias estéticas mas que as mostraram de maneira inversamente proporcional. O sublime e o horrível foram mostrados no teatro Lethes e no Teatro das Figuras, arriscando o equilíbrio da programação.
As águias voam Legatto foi um recital encenado da responsabilidade da Companhia de música teatral com obras para canto e piano coordenado por Helena Rodrigues.o recital começou no átrio do teatro Lethes com a aparição de um homem, António Laginha, de cartola e capa negra, com um ramo de rosas na mão.
De dentro do teatro ouve-se a voz de Manuela Moniz, cantando o improviso São rosas, Senhores, são Rosas. As rosas vermelhas são cobertas e descobertas pela capa de cetim do misterioso homem, e depois distribuídas a algumas das senhoras presentes. Depois de uns passos de dança, António Laginha convidou os presentes a dirigirem-se para o interior do Teatro Lethes, onde dançou mais um pouco e espalhou as pétalas das rosas até à entrada do teatro. Pisadas as rosas, o público entrou no teatro onde o esperavam no palco Helena Rodrigues ao piano, acompanhando a voz de Manuela Moniz. Não se percebeu muito bem a razão do homem misterioso no recital, que estaria mais equilibrado sem aquela figura excêntrica a dar uns passos de dança entre os espectadores. O cenário é composto por um charriôt ostentando fato de cena cenografados em tamanho gigante. A lógica da inserção de um camarim simbólico no palco é discutível, até porque as duas belas mulheres estavam a apresentar o recital comentado assumindo o palco como espaço de representação e não de preparação do actor. Se houvesse essa intenção os diálogos havidos circunscreviam-se às personagens e não à procura de cumplicidade com o público.
O recital decorreu de forma tranquila, sem convulsões nem aplausos, lembrando uma reunião de famílias aristocratas convidadas para o salão de uma nobre marquesa. A capa posta sobre os ombros da pianista, como se fosse uma transferência de poder deformou a figura elegante de Helena Rodrigues. O vestido branco coberto de rosas lembrava o recital das flores Se as flores fossem eternas eu não queria morrer, que Paula Cardoso Rocha apresentou nos anos 80 no Teatro Nacional D. Maria II, com Eunice Muñoz e Ana Padrão. Isto é, um recital datado, visto, revisto, com um leve cheiro a rosas murchas que não comoveu o público, como se pôde constatar pelo silêncio sepulcral que se fazia sentir entre as canções. Um recital onde o sublime da música e da poesia se transformaram num espectáculo horrível e entediante, porque não soube emocionar o pouco público que acorreu ao teatro Lethes.
Por outro lado, o público de Faro foi presenteado com uma agradável surpresa. Moby Dick, a história do cachalote albino contada por Herman Melville apresentou-se diante do público no Teatro das Figuras. Uma história trágica, sustentada por sentimentos baixos, como a vingança e a sede de destruição, mas apresentada de uma forma sublime.
A encenação de António Pires é sustentada por uma paixão pelo texto de Melville, que considera um dos mais importantes de todos os tempos. Segundo o encenador, este romance “Consegue de uma forma quase perfeita reproduzir a condição humana em toda a sua complexidade”. António Pires socorreu-se de um elenco capaz de se entregar com seriedade e por uma equipa técnica que foi capaz de criar os recursos para alimentar a emoção do espectador. A cenografia de João Mendes Ribeiro permitiu uma realização plástica do espectáculo inovadora e extremamente rica a nível simbólico. Como é que uma prancha, semelhante a um half pipe pode ser ao mesmo tempo proa de navio, convés, crista de onda? É preciso o toque de genialidade que faz acreditar a tornar o invisível visível. A luz de José Álvaro Correia torna a visão do mar credível em todos os seus matizes.
Curiosamente António Pires dá à primeira parte da sua encenação um tom de musical, com coreografias divertidas e canções de marinheiros que contêm a esperança que os conduz para o mar. Na segunda parte, mais sombria, onde se expõem as misérias humanas, não há espaço para cantos. O rapaz do tambor é elevado a remador e caçador de baleias, apagando a música das almas dos marinheiros. O confronto com a baleia branca preenche na totalidade os sentidos quer dos marinheiros, quer dos espectadores.
A dramaturgia de Maria João Cruz acrescenta à obra de Melville a figura da mulher expectante, a mulher que fica em terra a ver os barcos partir e antevê o desastre no mar. A sibila dos pescadores que teme por eles e os espera na praia. A mulher pela qual todos querem voltar. Essa mulher é magistralmente interpretada por Maria Rueff, que sabe comunicar com o público, contando o que vai no coração daqueles duros homens.
António Pires reduz a oito os marinheiros que partem para a caçada à baleia branca. Esses marinheiros são símbolos de categorias humanas, que vão desde a maldade de Ahab até à inocência ambivalente do selvagem. Os nomes bíblicos também encerram em si mesmo uma simbologia, devolvendo à personagem o destino imposto pelo nome. Por exemplo, como nos explica a produção, “Ahab na Bíblia é um dos mais desagradáveis Reis de Israel. Leva o seu povo à perdição por fazê-los adorar um deus pagão. A dada altura, Acab manda matar Naboth para se apoderar da sua vinha. O profeta Elias chama-o à razão e Acab acaba por se arrepender. Morre no cerco de Ramoth e, conforme a profecia de Elias, os cães lambem o seu sangue.” Ahab é justamente a personagem interpretada por Miguel Guilherme. O sanguinário Capitão do navio que, por vingança, quer caçar Moby Dick, a baleia que num confronto anterior lhe tinha levado a perna.
Neste espectáculo a luta entre Ahab e o grande cetáceo simboliza em sentido lato a luta que o homem tem vindo a exercer contra a natureza. Moby Dick encarna todas as espécies ameaçadas, todas as atrocidades de que a natureza tem sido vítima. E a vingança de Moby Dick tem vindo a ser sentida através dos tsunamis, dos tornados, os desastres naturais são a voz da natureza a pedir ao homem que pondere e que mude os seus hábitos. A mulher que preconiza o augúrio previne-nos para pouparmos bem nas nossas candeias porque “em cada litro de óleo há uma gota de sangue humano.” O horrível da miséria humana transformado num espectáculo sublime. O sublime para Kant é a desarmonia em relação as faculdades, pois o sublime assombra, é terrificante e de uma beleza magnífica e absolutamente grande. O sublime surge de uma tensão entre imaginação e razão gerando uma relação conflituosa da imaginação com a razão. Ora, a imaginação por si só acaba no nada, fica um abismo onde poderia perder-se, o impensável, o horror e fazendo com que a razão violente a imaginação, pois a mesma não consegue medir o que é o sublime. Este espectáculo não só foi sublime como também inesquecível.
O pouco público que o Teatro Lethes recebeu para o recital de canto e piano contrastou com as três sessões praticamente esgotadas do Teatro das Figuras para assistir a Moby Dick. O público de Faro já sabe o que deve ver. Assim a programação soubesse o que devia programar.