Tuesday, August 14, 2007

Hélia Correia - o Encontro da escrita com o teatro


Quem a conhece há mais de 20 anos diz que ela está na mesma. Quem a acabou de conhecer encontra nela a frescura de uma jovem que transporta consigo a candura no olhar e a determinação na alma. Hélia Correia, uma das autoras da Antígona que a ACTA estrear em Portimão no próximo dia 12, esteve em Faro a assistir a esta peça que contém escrita sua. O encontro da autora com os dramaturgistas e com o espectáculo foi surpreendente.
Hélia Correia deu voz a uma personagem que falava em grego no espectáculo Édipo Rei, com encenação de João Mota, levado a cena pela Comuna. Apaixonou-se pela cultura grega e escreveu Perdição, exercício sobre Antígona, um dos textos mais belos e intensos que conheço sobre a heroína de Sófocles. Continuou a estudar intensamente a cultura helenística de tal forma que hoje, diz, já não escreveria aquele texto. Porque hoje, ninguém faz a Antígona como os gregos a fizeram. Como dramaturgista, isto é, como a pessoa que pegou nas palavras da autora e as pôs em cena, de forma a poderem ser representadas dentro de um determinado universo de sentido, não resisti em perguntar à autora:
Ana Oliveira – Como se sentiu ao ouvir as suas palavras dentro daquele espectáculo?
Hélia Correia – Reconheci algumas falas minhas e achei que faziam sentido naquele contexto. Mas hoje já não olho para a Antígona como olhava antes de a ter estudado a fundo.
AO – O que mudou com o aprofundar da cultura grega clássica?
HC – A primeira vez que vi a Antígona, foi numa sessão muito clandestina, levada a cena pelo grupo cénico dos bancários. Foi num sítio escondido, numa sessão feita só para algumas pessoas porque essa peça estava proibida. Era alguém que enfrentava o poder, a tirania, e esses temas estavam proibidos antes do 25 de Abril. Mas foi uma sessão inesquecível e eu achava que a Antígona deveria ser assim. Hoje acho que o verdadeiro progressista é o Creonte.
AO – Como é que um ditador pode ser progressista?
HC – Provavelmente os gregos não o viam com esta nossa vião contemporânea de ditador. É ele é quem vem escrever a nova lei e insurgir-se contra o que se fez sempre, apenas por tradição. Ele vai contrariar o espírito obstinado dos gregos. E isso foi um ponto fundamental numa época em que a democracia e a escrita das leis estavam a dar os seus primeiros passos.
AO – Mas hoje em dia, não acha que a Antígona se pode comparar a qualquer um de nós, que luta por um mundo mais justo?
HC – Sim, a Antígona, tal como é estudada, é uma rapariga normal que se confronta a certa altura da vida com uma situação em que tem de decidir eticamente. Gostei muito da opção da ACTA em ter escolhido para o papel de Antígona uma jovem que dá precisamente a ideia do que esta heroína de Sófocles deve ser.
AO – Mas na sua visão é ela que está a ser retrógrada.
HC – Na visão dos gregos Antígona representa o espírito antigo em que se cumprem preceitos sem se saber muito bem porquê. Creonte vem trazer a diferença porque ousa escrever uma lei nova.
AO – Mas a Antígona tem sido sempre reescrita ao longo dos séculos sob a perspectiva de alguém que se rebela contra o abuso do poder.
HC – Sim, até porque há cinco factores que motivam essa reescrita. É um confronto entre uma pessoa jovem e uma mais velha. É uma mulher face a um homem. Depois temos a questão das leis escritas com as leis não escritas. O conflito da família com o estado e o conflito do Estado face à religião. Isso são questões fundamentais que inquietam e são por si só motivadoras da reescrita. Mas é impossível fazê-la como os gregos o fariam.
AO – Neste espectáculo quisemos também evidenciar, para além do conflito político, o conflito dentro da própria família. E foi aí que entrou o seu texto.
HC – Sim, e achei que fazia todo o sentido vê-lo recuperado nas falas com a irmã, com a mãe, com a ama. A Antígona não é uma deusa, é uma rapariga com conflitos idênticos aos das raparigas da sua idade. Só que teve a vivência do exílio.
AO – Ainda me custa ver o Creonte como um progressista…
HC – Na história, Creonte é o único que muda de opinião, o único que não é inflexível. No final vai à tumba ver se ainda a pode salvar. A Antígona morre por ser obstinada e intransigente.
AO – Na nossa versão, que recuperámos da Maria Zambrano, Antígona não morre e qualquer um de nós a pode resgatar.
HC – De uma perspectiva filosófica faz sentido. Assim como todo o segundo acto deve ser visto numa perspectiva filosófica e não helenística. Na perspectiva clássica, não faz sentido.
AO – No fundo, Sófocles ofereceu Antígona à humanidade. E, se bem que nunca podemos recuperar a história, podemos tocar alguns pontos que permanecem na grande espiral do tempo. Hoje em dia talvez precisemos de uma Antígona que nos abra a porta à esperança.
HC – Claro, e nesse aspecto, no sentido filosófico, faz todo o sentido. Mas não na visão clássica, se nos quisermos manter fiéis ao original.
AO – Mas nós não quisemos. Quisemos antes transgredir o original de forma a poder ser reconhecido por qualquer um de nós.
HC – Terá sido por isso que introduziram os deuses? Pelo prazer da transgressão? Na versão clássica não entram os deuses, nem em nenhuma outra…
AO – Pois não, foi uma opção nossa para mostrarmos de uma forma mais presente o seu abandono. O abandono de um ser que está junto de outro, observando o seu percurso trágico, e não faz nada para o ajudar. É como se estivéssemos a ver alguém a afogar-se ao nosso lado e não fizéssemos nada.
HC – Por isso têm um ar tão fora de toda a estética do espectáculo…
AO – Sim, por isso nos vingámos deles e os construímos dentro de uma estética kitch. Pelo seu abandono. Que é algo que Maria Zambrano também refere quando diz, na sua Antígona: “A verdade é onde nos arrojam os deuses quando nos abandonam. É o dom do seu abandono”.
HC – Mas foram muito maus para com os deuses…
AO – Fomos. Assumidamente, porque nos abandonaram. É como se tivessem num outro plano, fora de tudo, brincando como crianças, indiferentes à tragédia humana. Contudo, invejosos dos humanos.
HC – Que se verifica na declaração de amor da Ártemis, que recuperaram do texto do António Pedro.
AO – Sim, mas mesmo aí pusemos a deusa a falar numa língua estranha, fazendo com que permanecesse num outro plano. Com os deuses, há sempre um distanciamento.
HC – Faz algum sentido, nessa perspectiva.
AO - Mas para além do abandono dos deuses, abrimos a porta à esperança, pondo uma criança a resgatar Antígona. É um futuro, com base no amor, que construímos quando retiramos Antígona da tumba.
HC – Apesar de não ser a visão do Sófocles, é uma visão que filosoficamente faz sentido.

Dançar o drama da vida


Há vidas assim: cruéis, bárbaras, desprovidas de sentido. Vidas de pessoas que foram aliciadas a acreditar num mundo melhor e se depararam com a servidão humana. O abuso de mulheres como escravas sexuais é uma patologia social que se tolera por não haver uma legislação suficientemente forte para dissuadir os agressores. Por não haver suficiente vontade para acabar com esse flagelo.
A companhia de teatro AL-MaSRAH baseou-se num facto verídico para trabalhar a questão dos abusos sexuais. Foi em 1995, no Brasil, que oito mulheres ficaram prisioneiras num navio de carga durante 28 dias, vítimas de maus-tratos, abusos e espancamentos. Rita Alves, licenciada em teatro e dança pela Universidade de S. Paulo e especializada em técnicas corporais para actores assinou a encenação deste espectáculo. Assumiu de forma evidente a dança teatro no processo de criação do espectáculo, fazendo surgir a dramaturgia à medida que a organicidade ia sugerindo a palavra. O espectáculo assenta na fisicalidade dos actores, principalmente das cinco actrizes que representam as prostitutas sequestradas.
O espectáculo começa com a justificação misógina do comandante do navio. Alega, perante o tribunal, que as mulheres foram convidadas para dançar e que, para além de terem comido, bebido, de se terem passeado pelo navio como se de um cruzeiro se tratasse, foram pagas pelos seus serviços. Ele não tinha de ser acusado de coisa alguma. O comandante recolhe-se, presume-se que para prisão preventiva, e surge um imediato puxando um contentor do lixo. O depósito dos detritos é o recipiente de onde surgem as mulheres, consideradas como a imundície da sociedade. Elas estão divertidas, são insinuantes e querem-se divertir. Querem também proporcionar prazer com a sua actuação. Uma após outra vão-se expondo e contando as suas histórias. Prostitutas de estrada, de bordel, empresárias do sexo, dançarinas de bares, uma a uma revela os meandros de uma vida precocemente desviada. As actrizes dançam, mostram uma coreografia ousada e reveladora dos propósitos das prostitutas que embarcaram para o navio cargueiro. Sobem para o navio, simbolizado por uma estrutura de andaime que gira e navega livremente, como se estivesse à deriva. O jogo dos corpos em êxtase sexual está bastante convincente, se bem que poderia ter havido mais interacção em jogos com mais de dois parceiros. A passagem para o lado sombrio acontece impulsionada pela dança contemporânea, que jogando com as energias dos corpos, faz adivinhar os sentimentos de desespero das “raparigas de programa” sequestradas. A violência com que elas são encurraladas no porão do navio, o desespero com que devoram uma couve crua, os gemidos de desalento evidenciam o sofrimento que terão sofrido as oito mulheres que o espectáculo recorda.
Uma imagem cénica fortíssima está patente no enclausuramento e na prisão sufocante levada a cabo pelos dois homens com película aderente. As mulheres ficam enclausuradas no centro de uma teia asfixiante, visualmente perturbadora. Quando se libertam regressam às suas histórias de vida. O medo e a culpa dominam as suas emoções. Medo de viver, de adormecer, de acordar, que leva ao enclausuramento voluntário, à incapacidade de olhar de frente para a realidade, à obsessão de limpeza do mundo exterior. Maleitas que se irão fazer sentir para toda a vida, sequelas de um abuso brutal e socialmente consentido. Culpas que originam violência perante si próprias, escondendo a dor no álcool, escondendo o corpo do seu próprio sentir, gemendo baixinho a mágoa que nem o tempo apazigua.
Este trabalho, mais que um momento de dança-teatro é um documento sentido e profundamente ilustrativo da miséria humana, que impõe uma reflexão urgente sobre o tema dos abusos sexuais infligidos a mulheres. Interpretado por Aline Catarino, Nuno Faísca, Patrícia Vito, Pedro Ramos, Sónia Botelho, Susana Nunes e Verónica Guerreiro, são de destacar as interpretações de Sónia Botelho, pela força, Susana Nunes, pela sensualidade e Pedro Ramos, pela interpretação convincente do misógino comandante do cargueiro. Verónica Guerreiro, Aline Catarino, Nuno Faísca e Patrícia Vito assentaram a sua interpretação na corporalidade, notavelmente dirigida por Rita Alves. A sonoplastia de Susana Nunes assume-se como uma personagem que interage com os actores e reforça a mensagem brutal do espectáculo. O desenho de luz de Noé Amorim, é adequado ao contexto sombrio do tema. As projecções no final, no entanto, para além de estarem a ser recorrentes nas produções mais recentes, converteram-se numa espécie de redundância, pois não acrescentam nada ao horror da vivência daquelas mulheres, provocando um mal-estar gratuito no espectador. Os gemidos, as auto agressões, o rastejar no medo, seriam por si só um final com força suficiente para deixar o espectador num estado de angústia muito peculiar.
Este espectáculo mostra, uma vez mais, como a companhia AL-MaSRAH se impôs no Algarve como um agente cultural capaz de dar aos espectadores algo mais que simples entretenimento. Com este grupo o público sabe que à prestação dos actores se alia um tema de reflexão que urge meditar e até agir para transformar. Porque mostra não só os abstractos dirigentes, mas a gente comum, que se identifica com o público e que provoca a vontade de mudar. Foi o caso deste espectáculo, que não obteve apoio por parte do Instituto das Artes pelo facto daquela instituição considerar que a companhia não tinha condições para a sua exequibilidade. O espectáculo está aí para mostrar como os mais doutos se podem enganar. A injustiça causada pela falta de financiamento ficará na vida desta companhia e no prejuízo do público algarvio.

Anjos e Demónios


O público entra e, ao som do cravo bem temperado, vê os anjos divertindo-se no paraíso. Patinam, jogam badmington, atiram a pena para o público. Uma maneira directa de partilhar as penas das asas, seja qual for o sentido atribuído a penas e a asas. O cenário é composto por uns imponentes painéis que apresentam inscrições onde se podem encontrar as citações bíblicas relativas aos anjos. E é sobre essa estrutura daimónica entre deus e os homens que o espectáculo coreografado por Cláudia Martins e Rafael Carriço trabalhou.
Os anjos aparecem numa primeira visão de branco, dançando como se cumprissem um dever perante uma das suas muitas hierarquias. Rafael Carriço, para assumir a metáfora das sapatilhas de pontas também as calça e, juntamente com as suas colegas, parece voar na majestática elevação dos saltos. Depois dos anjos se apresentarem no meio do seu panteão, nem faltando a popular imagem do anjinho representado por uma menina, a acção muda para a Terra e para o momento em que Cristo é morto na cruz e amparado por sua mãe e por Maria Madalena. Foi um momento emocionante, ao som de um coral intenso, com o qual Rafael Carriço soube emprestar a emoção ao seu corpo. Cláudia Martins também transmitiu uma sensibilidade invulgar nas várias fases da Pietá lacrimosa e sofrida. Este foi um dos grandes momentos do espectáculo. Depois da morte de Cristo e subsequente ressurreição, anunciada pelos anjos, a acção passa para a janela de Fátima, a qual, segundo uma canção popular, serve para Deus repousar o olhar quando está cansado. Da janela de Fátima vimos o mundo na altura dos fenómenos presenciados pelos videntes de Fátima e um pouco mais tarde, aquando da ocupação de Paris pelos nazis. Os anjos observam e não podem intervir, sentindo-se meros espectadores do palco do mundo real. A acção muda para o mundo real e os anjos tornam-se carnais, com sexo definido e asas tingidas pelo desejo e pela luxúria. Por um lado os manequins e por outro o fauno preso pelos grilhões do seu desejo dão ao espectador a possibilidade de se confrontar com o outro lado do ser angelical. Os anjos que perderam as asas e ousaram sentir, como nos mostram tão bem os magníficos filmes de Wim Wenders As Asas do Desejo e Tão Longe e Tão Perto. “Anjinho da Guarda, minha companhia, guardai minha alma de noite e de dia”. Esta oração que todas as crianças recitam antes de adormecer parece ser o mote do espectáculo, pois os anjos pairam sobre os clandestinos, sobre os guerreiros, sobre os arrependidos, sobre os amantes que começam a ver a vida em tons de cor de rosa, com as escolas de samba que, durante três dias alcançam o Céu, exorcizando através da dança e da música um sentido divino.
O espectáculo termina com um anjo ascendendo ao céu levando um dos tesouros mais delicados da Terra: uma flor branca.
Este espectáculo, no qual participaram os bailarinos Cláudia Martins, Rafael Carriço, Kleber Cândido, Melanie Santos, Filipe Pereira, Jorge Libório, Marta Tomé e Clara Simões é uma bonita homenagens às entidades celestiais oriundas do imaginário popular e que se costumam designar por Anjos. No entanto, houve alguns pormenores que emperraram a natural fluidez dos bailarinos, como foi o caso dos cortes na acção para prender os bailarinos ao cabo que os fazia flutuar por sobre o palco.
No geral foi um espectáculo que emocionou, não só porque estávamos em presença de bailarinos com uma técnica muito razoável, como pelo contraste platónico que os coreógrafos fizeram questão de sublinhar entre o mundo arquetípico e o mundo das sombras no qual temos de viver. Um espectáculo em que podemos voltar a sonhar com as mensagens que os anjos nos trazem, em surdina, vidas de longe. Como o daimon socrático. É preciso é estarmos disponíveis para os ouvir. Mesmo que seja para nos dizer qual o caminho que não devemos seguir.

Um agradável desassossego


Dia 22 de Junho o Cineteatro Louletano recebeu a companhia de Dança Oficina dos Sentidos do Teatro Estatal de Hildesheim. Esta companhia, criada por Carlos Matos na Alemanha em 2002, apresentou uma digressão europeu da coreografia de Carlos Matos baseada na obra Desassossego do Bernardo Soares, heterónimo de Pessoa.
O espectáculo de Loulé contou com a participação especial do actor Paulo Matos que interpretou alguns textos do Livro do Desassossego, intervindo directamente na coreografia. A presença e a voz do actor marcam o início do espectáculo, ainda com o pano de boca fechado. O actor contracena com as cortinas enquanto discorre sobre a fragmentação do eu, factor destabilizador e criador do desassossego. “Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo e eu não” O pano de boca abre e o actor vê-se perante os inúmeros fragmentos da sua personalidade, que deslizam sobre os seus livros da vida, que se vão cruzando entre si. Os livros são pequenas ilhas onde se guardam os sentidos, sustentando o fragmento de ser que se equilibra
no seu universo de descoberta. A cenografia de Annett Hunger, onde impera o cinzento e o branco, resume-se a duas enormes estruturas em forma de trapézio, uma dela fragmentada, que apontam para o ser em desequilíbrio. O cinzento que se adequa ao estado de espírito do autor ”O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo do monotonia cinzenta pela rua estreita que fito. (…) Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que destaca das fachadas sujas, e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.” Paulo Matos eleva-se então a um outro plano, observando a cena e os seus múltiplos fragmentários deitado em cima de uma das estruturas cenográficas. “Uma vista breve de campo, por cima de um muro dos arredores, liberta-me mais completamente do que uma viagem inteira libertaria outro. Todo ponto de visão é um ápice de uma pirâmide invertida, cuja base é indeterminável”. Os oito bailarinos, umas vezes em sintonia, outras em assumida ruptura com o seu eu mais próximo passam emoções através de uma técnica irrepreensível e da música de Egberto Gismonti e Nils Petter Molvoer. A luz permanece num registo obscuro, condicente com a obscuridade do eu que se encontra fragmentado e incapaz de sentir a sua luminosidade total. O próprio cenário se fragmenta em três estruturas, gémeas mas com uma identidade própria. Como esclarece Bernardo Soares, “a realidade verdadeira de um objecto é apenas parte dele; o resto é o pesado tributo que ele paga à matéria em troca de existir no espaço.” Os bailarinos demonstram a sua incompletude na violência com que se arremessam contra as estruturas cenográficas.” A minha vida é como se me batessem com ela”. Por momentos compõem figuras andróginas em busca de uma completude.
Há encontros, desencontros, realidades paralelas. De repente uma das estruturas cenográficas avança e transforma-se em pantalha onde é projectado o negativo do eu. O eu que se esconde dor detrás do evidente surge projectado pela câmara clara da nossa vontade de desocultar o obscuro. A imagem transforma-se em silhueta e as palavras do poeta tornam-se vivas na voz do actor, despindo o real do supérfluo, devolvendo ao ser a sua nudez original. E Bernardo Soares recorda ” Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém.” O ser esclarecido acerca desta cruel verdade ontológica vai-se despindo das outras ilusões de si mesmo, devolvendo as máscaras às suas personagens e ficando por fim nu, reconciliado com o seu ser original. As réplicas, despidas de si próprias, vão-se num misto de abandono e verdade original, deixando o verdadeiro eu entregue a si próprio. E dentro da sua nudez original o poeta pode afirmar: “Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.”
Este espectáculo, interpretado por Alexandra Bragutti, Igor Kirov, Wencke Kriemer, Philipp Krüger, Marijana Savovska, Fábio Liberti, Anne Schmidt e David Schwindling contribuiu para levar a alma de Pessoa além fronteiras. Forte, sensual, filosófico e pleno de imagens belíssimas, podemos dizer que o espectáculo desassossego de Carlos Matos levantou a ponta do véu do imenso universo pessoano.

Contos eróticos


Dia 9 de Junho o te-Atrito mostrou ao seu público na Associação Recreativa e cultural dos Músicos, em Faro, a sua mais recente produção. Faz de Conto, espectáculo encenado por Rita Neves, assume-se como uma produção para maiores de 18 anos pelo seu cariz assumidamente ousado, quer na linguagem, quer na gestualidade. A recolha cuidada de textos franceses da época medieval (séc.XIII e XIV) que referem uma escrita crua e muito explícita relativamente ao acto sexual e aos comportamentos menos ortodoxos. A partir do imaginário dos indigentes, dos diferentes e dos assumidamente contra o sistema, criou-se um espectáculo que provoca o encontro dos exilados das convenções que sobrevivem a partir do ofício de contador de histórias. Mas histórias especiais, daquelas que aguçam o apetite para alimentos ligados aos pecados da carne. A partir de um andaime a cena é criada à semelhança das carroças que percorriam os largos das igrejas de outrora, atraindo as multidões, que se juntavam para ouvir contar histórias fantásticas. A cena exígua delimita o espaço de dentro de casa, a alcova, o sítio por excelência da transgressão em oposição ao espaço exterior, à rua, para onde os maridos são, regra geral, atraídos.
André Canário, Pedro Monteiro e Rita Farrusca são os actores que dão voz aos contos eróticos medievos. A função começa com a apresentação de Pedro Monteiro, perguntando se não haverá dentre o público algum bufo que os possa denunciar pelos delitos de provocação ao poder instituído, quer clerical, pela heresia do padre e pela bruxaria da mulher quer régio pelo roubo do pijama do Rei por parte do bobo. O bobo inicia a sessão de contos dando luz à cena. Acende os archotes e começa a contar a história de um campónio que é enganado pela esperta da mulher, que tem encontros escaldantes com o padre da freguesia. Neste conto o campónio é levado a acreditar que já está morto, dados os preparativos da mulher e da administração da extrema-unção do doloso padre. No fim, um conselho: não confiar nas mulheres. Este conto apresenta uma encenação divertida e bastante ousada que sugere uma interacção das três personagens num jogo sexual intenso, sem que o néscio do campónio sequer se aperceba. O segundo conto, mais moralista, fala da ameaça de castração a um padre que experimentou lúbricos prazeres com a mulher de um artesão que fabricava crucifixos. O padre ficou castrado e para reaver os seus santos atributos teve de pagar ao artesão uma coima, cobrada até à última moeda. No conto o rato no cesto a mulher é, uma vez mais detentora de artes e manhas com as quais engana o marido inepto e inexperiente. Mais uma vez as virtualidades do andai-me servem a uma encenação ousada e divertida. O conto “A donzela pudica” vive do ritmo intenso que se observa na mudança de personagens através dos adereços que lhes dão a identidade, como a saia da donzela, o barrete do pai e a estola do rapaz. Mais uma vez se verifica que quem comanda o jogo de sedução é a donzela, que manipula o criado e o pai.
Nestes contos pode verificar-se que as mulheres são mais inteligentes, matreiras e manipuladoras, dando continuidade à tradição vicentina observada no Auto da Índia ou na Farsa de Inês Pereira. O clero tem uma péssima reputação, pois os padres não fazem o mínimo esforço por guardar castidade e a infidelidade, embora vista como um comportamento a evitar, é amplamente praticada.
Um excelente trabalho de actores, principalmente de André Canário e Pedro Monteiro. Rita Farrusca deverá trabalhar mais a colocação de voz, que ainda não está ao nível da sua expressividade corporal. Uma encenação ousada mas dentro dos limites do bom gosto, que nos fazem ter uma certa pena da classificação para adultos. Este trabalho é por excelência um espectáculo de rua que atrairia muita gente que se colocaria à volta da “carroça andaime” para ouvir de forma espontânea os contos eróticos.
De qualquer forma, se tem mais de 18 anos, não perca esta produção quando um dia passar junto de si.

Teatro ao Largo


O Teatro ao Largo apresentou em Alte o espectáculo Doutor Fausto, a partir da obra Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, encenada por Stephen Johnston. Este espectáculo foi integrado no VIII Festival de Teatro de Alte, organizado pelo Teatro da Estrada e que também levou a esta aldeia do barrocal grupos como o Agora Teatro com o espectáculo Histórias e Partituras, o Vicenteatro, interpretando Vem Cá Amanhã Que Eu Vou Fitar Hoje e o espectáculo de José Carlos Alegria A Azinheira Sinaleira pelo grupo de teatro de fantoches Era Uma Vez. Em paralelo este festival integrou também uma oficina de construção de máscaras.
O Teatro ao Largo, nesta produção, afastou-se um pouco do seu objectivo primordial e que presidiu à formação do grupo: “Captar o interesse da pessoa comum pelo teatro”. Quem assistiu ao crescimento deste grupo desde o espectáculo Mirandolina até à Bela e o Monstro, passando pelo mais recente Aqui jaz um poeta dum cabrão verifica que há uma mudança de perspectiva relativamente a esta última produção. Em Doutor Fausto, encenado por Stephen Johnston, já não existem aquelas piscadelas de olho cúmplices ao público, a não ser uma vez ou outra num piada infeliz sobre políticos. Mas aquela relação com a Terra, com a pessoa comum, que fazia do Teatro ao Largo um grupo de excepção está a esbater-se.
A dramatização de Marlowe, da história do homem que vendeu a alma ao diabo em troca da realização de todos os seus desejos durante 24 anos, não é tão conhecida como a versão de Goethe. Rui Penas, interpretando o Doutro Fausto, exagera no tom profundo e teatral. Por outro lado, as actrizes Marina Simões e Filipa Braga Cruz têm um trabalho eclético que surpreende, defendendo registos que vão desde o estereótipo da mulher sensual até à técnica da máscara, às artes circences e mesmo até à visão da mulher-deusa na descida de Helena de Tróia do Olimpo. Mefistófeles, interpretado por Paulo Oliveira também excede o registo sensual, apostando mais na lascívia que propriamente no demoníaco.
O espectáculo tem um início forte, com as criaturas demoníacas a entrarem em cena, provocando o espectador. A solução para integrar os planetas que Fausto estuda está muito bem conseguida, originando um bonito momento cénico do espectáculo. Quando começa a relação de Fausto com Mefistófeles o tom começa a ser sério e o ritmo do espectáculo começa a perder intensidade. Há um momento interessante de comédia quando Fausto se torna invisível mas a ligação com o público já estava longe da cumplicidade habitual com o grupo.
A cena aumenta de intensidade quando os actores recorrem à técnica da máscara, assumindo o estilo da commedia dell’arte . Esta técnica, pelas características que lhe são próprias, obrigou os actores a aumentarem consideravelmente o ritmo de representação. As duas actrizes, sobretudo Marina Simões, destacam-se na desenvoltura e no domínio que têm do corpo. A agilidade com que Marina Simões saltou da cadeira do Papa para a estrutura de metal, subindo por ela acima fingindo ser um macaco, é uma cena surpreendente que destaca bem a versatilidade da actriz.
Os actores permanecem mais num registo que se mantém idêntico ao longo do espectáculo. Foi estranho ver o imperador da Alemanha vestido como um imperador romano, levando o sentido de renascimento ao exagero e induzindo os espectadores a uma certa confusão nas épocas históricas.
Foi bonita a inclusão das ceifeiras no final de Fausto. A sementeira como metáfora de uma esperança que renasce e que anuncia valores essenciais como a Liberdade ou a Justiça. Depois da visão da sementeira Fausto é puxado para o Inferno, depois de ter cumprido os 24 anos de luxúria na sua vida. O efeito especial do actor a cair na sua cadeira para as labaredas das terras infernais, ajudado pelas duas almas demoníacas está bem conseguido, sendo ainda mais intenso o devolver da cadeira ao palco sem o seu ocupante. A cadeira, símbolo do humano, volta vazia, despojada do corpo traído pelo pacto com o diabo.
Este foi um espectáculo com alguns pontos interessantes mas que falhou na concepção do todo. Faltou a habitual relação com o público do interior profundo através de uma linguagem que esse público assume como sua e na qual se reconhece. Desta vez faltou ao Teatro ao Largo o Teatro ao Largo, ou seja, a sua genuinidade, o seu ser singelo que lhe devolvem no mesmo instante a sua beleza.
Uma postura que se pauta pela simplicidade e singeleza não implica necessariamente que se destitua dos seus padrões de qualidade. A qualidade existe nos temas mais simples mas saber mostrá-la desocultando-a, é a tarefa mais difícil.

Maria João


Maria João parte de um princípio interessante: “Só canto aquilo que sou capaz de mudar”. Essa foi a máxima de que se serviu para escolher o repertório do seu último álbum que revisita a música brasileira. Os compositores eleitos são nomes que vão de Pixinguinha a Edu Lobo, de Chico Buarque a Marisa, de Vinicius de Moraes a Caetano Veloso. O que distingue um simples trabalho de uma obra prima é a transfiguração sofrido pelo efeito do artista, conseguindo, de alguma forma, tocar o espectador através da emoção. O que se passou com o álbum João, acabado de editar, foi que o gosto pessoal de Maria João transformou uma simples homenagem à música brasileira das últimas décadas num monumento orgânico que pulsa em cada segundo que a sua voz pousa sobre uma composição.
Maria João entrou no palco vestida de cores tropicais, convidando-nos a juntar cor à emoção da sua música. Os diálogos da voz com os outros instrumentos mostraram-se inesperados, seguindo ao ritmo da improvisação trabalhada da escola jazzística a que pertence.
Como refere, a música brasileira, apesar de ser fácil de ouvir, não é de fácil composição. E o que o público pôde receber no teatro das Figuras foi toda aquela fluidez colorida característica da música brasileira com o brilho único de Maria João e dos seus músicos. Sobretudo Eleonor Picas na harpa e Mário Delgado na guitarra, incorporaram a voz de Maria João no todo musical.
A par dos 14 temas do novo álbum “João”, a cantora integrou outros temas, mais antigos, compostos por Mário Laginha, que também souberam encantar a audiência daquele espectáculo.
A vibração da sua voz vai do simples sussurro, como em Meu namorado, de Edu Lobo e Chico Buarque, até à assunção plena de uma voz poderosa que percorre todas as escalas possíveis à voz humanas, como no tema Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinícius de Morais. Foi arrepiante ouvir os diversos matizes do verso “…O amor só é bom se doer…”. A canção doía porque pela acção da voz de Maria João, o tema conseguiu entranhar no coração, causando a emoção.
Maria João revelou-se, uma vez mais, uma mulher que sabe estar no palco, quer cantando, quer afastando-se do centro para deixar aos músicos o protagonismo de alguns momentos. Também na apresentação improvisada dos seus músicos soube brindar a plateia com palavras soltas e despretensiosas que divertiram, contribuindo para uma proximidade ainda maior com a cantora.
Dona de uma figura invejável Maria João aos 51 anos ainda fez vibrar durante mais de duas horas uma plateia de cerca de 800 lugares. Com uma maturidade na voz e uma juventude no corpo e na alma, a cantora vai modelando a voz com o corpo, dando-lhe a coloração que pretende. Coloração é a palavra exacta porque é mesmo de sinestesia que se trata, uma vez que conseguimos sentir a cor da música através da sua voz.
O desenho de luz é intenso, ajudando a descobrir as várias tonalidades do concerto. Retrato em Branco e Preto, Partido Alto, Rosa, Escurinha, ou Choro Bandido vão adquirindo diferentes matizes justificando a mestiçagem que lhes subjaz. Apesar de serem músicas que já se elevam a uma categoria universal na sua génese estão influências brasileiras, africanas e portuguesas. Este disco, menos experimentalista, reúne as últimas décadas de música brasileira, condensados em 14 temas que vai ao encontro da alma brasileira: cheia de sol e de cor.
Embora permaneça uma certa saudade da parceria que se completou por mais de uma década com o compositor Mário Laginha, é bastante saudável e renovador recebermos uma Maria João que se lançou a solo com esta qualidade, com este saber, com esta segurança, dando ao público tanto prazer.
É caso para dizer: nunca uma voz voou tão longe e nunca uma música pousou tão perto do coração.